Nós, os bárbaros, e a eleição no império

A eleição de Biden é a restauração poder das grandes finanças nos EUA, sinal da sua incapacidade de lidar com a própria crise. Lembra muito a República Romana em sua decadência.

Os historiadores costumam avaliar que em sua decadência a classe dominante da República romana se dividia em duas facções. Os “Optimates” eram os tradicionalistas, que reafirmavam os valores de uma Roma idealizada que há muito deixara de existir em razão de sua expansão por todo o Mediterrâneo. Já os “Populares” eram “progressistas”, com muitas aspas, que pretendiam estender certos privilégios a classe dos plebeus, romanos de segunda categoria que viviam da social-democracia de sua época – o tal do Pani et Circensis era a Previdência Social romana, junto com o plano de aposentadoria dos legionários.

Na consciência dos romanos, o conflito era aparentemente entre plebeus e patrícios. Contudo, a República Romana era atravessada por uma luta entre centro e periferia que sua própria expansão engendrara. A figura de Júlio César é incompreensível sem fazer referência à Guerra Social que sacudiu a República poucas décadas antes de sua ascendência. Estava em disputa a relação da periferia italiana em relação ao centro latino no coração da península. O édito de Caracala 200 anos depois é o corolário desse processo, estendo a cidadania romana a todos que estivessem dentro das fronteiras do Império.

Em sua obra-prima, Imperialismo y Dependencia, o pedetista Theotônio dos Santos refletia a respeito de uma cisão fundamental no seio da burguesia estadunidense. De um lado, havia uma fração mais ligada ao mercado interno do país e aos gastos públicos, sobretudo no famoso complexo industrial-militar. De outro, uma fração mais cosmopolita, das grandes finanças e das transnacionais. Ambas são imperialistas, mas seus modos de operação são nitidamente distintos, bem como seus interesses. Há uma briga fratricida no seio da burguesa imperial.

Assim como os Optimates, Trump é a tentativa de resgatar a tradição do isolacionismo estadunidense de uma nação idealizada que nunca existiu, suposta terra da liberdade e da oportunidade. A ala tosca e fraca da burguesia imperial havia cravado uma vitória com a eleição do ex-showman. Sinal de decadência do Império.

O parasitismo de uma Nação imperialista tem um efeito negativo para ela mesma. Um imenso proletariado excedente não encontra emprego produtivo. A burguesia é reduzida a meros operadores de excel e isso não requer grande quantidade de trabalhadores. Daí o apoio maciço dos EUA profundo e do Cinturão Enferrujado a Trump. Essa parte da burguesia mais ligada ao mercado interno estadunidense foi sua principal fiadora.

Já Biden possui estreitos laços com o Vale do Silício e Wall Street. É o representante da burguesia cool e cosmopolita que destruiu o proletariado estadunidense, reduzindo-a a “gig economy” dos aplicativos e as ruínas das indústrias da região dos Grandes Lagos. Não é secundário que tenha laços justamente com o Jimmy Carter, cuja política de juros foi o coveiro da indústria brasileira, continuada e aprofundada por seu sucessor, a celebridade Reagan.

Biden agora terá que governar um país devastado pelo próprio peso. O que está em jogo na aparência é uma briga entre a ala mais cosmopolita da burguesia estadunidense e aquela ligada a seu mercado interno. Ocorre que na verdade essa luta é a espuma na superfície do esgotamento do imperialismo financista surgido na crise dos anos 1970.

A restauração financista com Biden provavelmente terá uma vida difícil porque o parasitismo dos EUA já mostra sinais de esgotamento. Tal como nos tempos de Roma, enquanto os patrícios brigam, nós, os bárbaros temos de nos preparar além da fronteira do Império para derrubá-lo. Temos que capitalizar em sua fraqueza.

Esse é o nosso papel.

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