Bolsonarismo: uma brumadinho política

Por 30 anos a Constituição Cidadã foi bem-sucedida em impedir maiores ameaças à sobrevivência do frágil rio da democracia brasileira. Assim, o acúmulo de poluição antidemocrática ficou em níveis aceitáveis ao longo dos anos e os resíduos mais tóxicos nunca lograram adesão ao ponto de racharem o paredão democrático soerguido pela Nova República. Porém, a eleição de Bolsonaro rompeu a barragem de dejetos reacionários e, com isso, um enorme influxo de escória política passou a vazar por entre as rachaduras do concreto armado, contaminando o rio, do parlamento à opinião pública.

O bolsonarisamo é justamente a ruptura dessa barragem política levantada para acumular os resíduos autoritários do período ditatorial, que deitam raiz no período colonial e escravocrata. Hoje o rio da democracia no Brasil está completamente ameaçado, até porque sempre foi frágil, sempre conviveu com enorme pobreza, concentração de renda e exploração imperialista ao longo de suas margens desmatadas. Mas ainda assim, resistiu a períodos de estiagem política (pemedebismo e corrupção) e econômica (neoliberalismo tucano e petista) que o país atravessou no mais recente período democrático.

Assim, a primeira pergunta que se coloca é: a morte deste rio é inevitável? Se a democracia no Brasil ainda respira é porque o bolsonarismo conta com o apoio de “apenas” 30% da população. Por isso, mesmo que essa adesão social a um discurso de extrema-direita não tenha paralelo na história -eis o maior legado da Lava Jato-, esse apoio (ainda) não tem força suficiente para matar o rio, o que significaria avançar sobre as instituições democráticas, silenciando a oposição e a mídia, por exemplo. Em suma, na atual conjuntura, o bolsonarismo carece de poder efetivo para concretizar as ameaças mais hidrófobas à ordem democrática.

Outra pergunta: como impedir o desastre? A recuperação da democracia no Brasil passa necessariamente pela derrota política de Bolsonaro. Mas o impeachment é uma impossibilidade física frente ao resiliente apoio popular ao presidente. Além disso, com Mourão no poder, a vassalagem do Brasil para com o império seria a mesma e a agenda lesa pátria de um Paulo Guedes se imporia de forma mais efetiva. A “outra solução”, qual seja, a anulação das eleições parece ser a ressurreição do udenismo: começam a surgir vozes buscando solapar a democracia para salvá-la de um homem que teve o grande mérito em encarnar o antipetismo e, com isso, conseguir levar 57 milhões de votos. Solução golpista e contraproducente: se a nova eleição for amanhã, ele leva. Ademais, alguém crê que os tribunais superiores reconhecerão que “eleição sem Lula é fraude”? Ain, o TSE tem que anular por causa dos memes do zap. É sério isso?

As rachaduras da barragem reacionária continuam a jorrar progressivamente e as esquerdas, tragadas pelo lodaçal, iniciam as buscas por aqueles tipos de soluções fácies e impossíveis. Não vai rolar. Respondendo à pergunta do parágrafo anterior, é preciso dizer que o desastre é um dado. Não há tempo, nem recursos, nem clima para se reinventar uma barragem, tampouco é possível tapar as rachaduras do paredão com areia. No curtíssimo prazo, só nos resta conter o avanço da lama de forma criativa, plural e urgente para que o bolsonarismo não contamine mais pessoas, porque o rio que agoniza está marcado para morrer se o apoio social ao fascismo aumentar.

Assim, se a recuperação da democracia no Brasil passa necessariamente pela derrota política de Bolsonaro, isso requer que Bolsonaro seja derrotado politicamente. A guerra tem data marcada: outubro de 2022. Até lá será preciso travar batalhas diárias contra o avanço do bolsonarismo, articulando demandas populares como emprego, saúde, educação e soberania nacional e relacionando essas demandas com a política econômica lesa pátria do fascismo entreguista, que aliás, é a mesma política econômica do “centro democrático”, que é, a bem da verdade, a direita liberal.

O povo tem o direito de saber que a causa do seu sofrimento são as decisões de Bolsonaro. O povo tem o dever de retomar a democracia com suas próprias mãos: “´é preciso arrancar ao futuro”, diria Maiakóvski.

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