Bolsonarismo lavajatista e lavajatismo bolsonarista: refundando a República a golpes

Quando Moro iniciou a chantagem pública na quinta feira, vazando para a Folha de São Paulo que pediria o boné caso houvesse troca na PF, eu peguei a caneta e fiz uma previsão: fresca como uma folha de alface no pé, perecível como uma folha de alface murcha. Logo na manhã seguinte, quando Bolsonaro trucava no 12, publicando na madrugada a exoneração de Valeixo, e Moro convocava coletiva para as 11, fiquei meio deprê: “cacete, será o fim da minha carreira? Que carreira?”… E eis me aqui.

Se daqui a alguns meses um Bolsonaro derrubado disser que seu maior erro político fora o timming dessa exoneração, eu lembrarei que a previsão tinha certa lógica. Por outro lado, se em alguns meses um Moro sem STF, alvejado por bolsonaristas e pela esquerda, longe dos holofotes, vendo um governo recuperar a economia em “V” após a pandemia, se arrepender de não ter segurado mais uma humilhação pública, eu estava no caminho certo. Errado. Assim é fácil. Eu é que não vou concorrer com Ricardo Amorim!

Interessa é que o lavajatismo se origina das manifestações de 2013 que pressionam o governo petista a adotar alterações legislativas para o empoderamento investigativo dos órgãos de controle. Com esses novos instrumentos, com o respaldo da opinião pública e com a ajuda de uma mídia que passa a novelizar os escândalos, a operação Laja-Jato se agiganta. Com o Brasil atingido paralelamente por uma profunda crise econômica, a narrativa que infantiliza o debate sobre a corrupção e criminaliza a política começa a grudar como chiclete. Ainda assim, a linguagem que melhor resume a Lava-Jato não é o power point de Dallagnol, aquela ignorância soberba e missionária. A linguagem da Lava-Jato é o áudio da presidenta vazado para a Globo: uma jogada cruel, ilegal e incendiária que transforma uma atribuição constitucional privativa do Presidente da República, (o ato de nomear ou exonerar Ministros de Estado) em delinquência praticada por organização criminosa.

O lavajatismo hoje representa isso: uma doutrina do ódio à política, cujos pregadores são principalmente as corporações estatais, que buscam o poder político, e a mídia, que exerce o controle das narrativas de interesse do capital, nacional e yanke. O recente resgate das antiguíssimas ideias liberais, ganham peso com os discursos que decorrem do lavajatismo. Grosso modo: meritocracia, menos estado, menos corrupção! O bolsonarismo por sua vez, ao astutamente perceber a popularidade dessas demandas na sociedade, as incorpora e as soma com a linguagem policialiesca da segurança pública. Combate à corrupção, liberalismo e enfrentamento implacável contra o crime organizado (incluindo os partidos no Congresso, aqui os elementos da antipolítica e do fascismo se misturam) foram a receita de sucesso da ascensão de Bolsonaro.

Com o racha entre Bolsonaro e Moro, resta a pergunta: o bolsonarismo deixou de ser lavajatista e o lavajatismo deixou de ser bolsonarista? Primeiro é preciso pontuar que ambos são, num sentido bastante específico, movimentos revolucionários. O bolsonarismo carrega a linguagem da destruição, da terra arrasada, muito bem resumida pelo seu líder político: “Antes de construir, é preciso descontruir muita coisa”. O saudosismo para com o passado ditatorial revela não só o autoritarismo, mas também a completa incapacidade de construir um futuro. A linguagem da absoluta ausência de projeto do bolsonarismo pode ser percebida pela nuvem de palavras do programa de governo de Bolsonaro que fora redigido no computador da Abraham Weintraub, completamente nas coxas. Enfim, enquanto um movimento conservador, para manter o status quo que o beneficia, evita mudanças bruscas que possam prejudicar o que a sociedade já construiu, a revolução bolsonarista, por outro, tem como norte a mudança para destruir de tudo o que foi construído. Exemplos evidentes: economia, educação e diplomacia.

Já o lavajatismo busca a destruição da política. Por considerarem que o sistema está podre, nunca analisaram as raízes dos escândalos de corrupção para proporem instrumentos normativos para o aperfeiçoamento gradual do sistema político. Antes travaram uma cruzada do bem contra o mal, propondo a tal das 10 medidas de caráter fascistóide, focada exclusivamente em incentivos repressivos. Com arroubos autoritários, ainda se indignaram com as emendas à proposição empreendidas pelo Poder Legislativo, cuja missão constitucional é discutir, modificar e inovar a ordem jurídica. Como Moro evidenciou com seu “continuo à disposição do Brasil”, o lavajatismo continua sua busca por poder e pela aprovação popular.

Em suma, o lavajatismo continua bolsonarista no sentido da vocação autoritária para limpar a política, só que agora se descola de Bolsonaro e o joga do lado do sistema que precisa ser destruído. Já o bolsonarismo continua lavajatista no sentido da cruzada discursiva contra o mal e a corrupção, só que agora colocando Moro como um traidor da causa, “progressista”, tucano histórico, abortista e desarmamentista. Ambas forças políticas (prenhes dos mais diversos interesses do capital) querem refundar a República golpes de machado. Porém, para o bem da República, agora se golpeiam entre si.

Bolsonarismo lavajatista e lavajatismo bolsonarista refundando a República a golpes

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