Bolsonaro coisifica brasileiros com seus xingamentos nada inocentes

Duas coisas em relação à bizarra insinuação feita por Jair Bolsonaro ao dizer que João Doria (justo este!) se escondia atrás da bandeira vermelha com a foice e o martelo: o artifício nada ingênuo de transformar qualquer opositor em comunista (ou de esquerda), através de um mecanismo cuja dimensão o próprio Bolsonaro talvez desconheça.

Daí, em segundo lugar, a necessidade da formação de uma ampla frente democrática desde já – mesmo considerando que movimentos surgem e crescem somente em determinadas oportunidades dos conflitos sociais, políticos e econômicos. Mudamos no tempo, como diria Henri Bergson, e não em intervalos de tempo. A pergunta é: vamos esperar as coisas se tornarem mais agudas?

O dispositivo de Bolsonaro não é nada boçal ou ignorante, mas sim sofisticado, para transformar todos os adversários em comunistas (ou esquerdistas), dizendo respeito ao processo de legitimação discursiva do neofascismo. Não se trata, portanto, de uma verborragia descontrolada ou falta de conhecimento histórico.

Para pensar o problema são diversas as fontes do debate contemporâneo sobre o avanço da direita. Exemplifico aqui com dois autores, entre outros, com abordagens de temas aparentemente distintos. Ao ler esses trabalhos, lembro também como as ideias e suas palavras são importantes e como ideias aparentemente enterradas podem ser exumadas para normalizar o absurdo.

Um deles é Jean-Louis Vullierme, professor de Filosofia, doutor em Direito e Ciências Políticas, tendo lecionado nas universidades Paris I e Paris II. Em seu livro “Espelho do Ocidente: o nazismo e a civilização ocidental” (Rio de Janeiro: Difel, 2019), o autor mostra que Hitler morreu, mas o nazismo venceu, escondendo-se na hipocrisia do imperialismo capitalista garantidor das democracias no mundo. Cita, inclusive, grandes multinacionais da atualidade que foram coniventes com Hitler, beneficiando-se da mão de obra aprisionada em campos de concentração. Como se sabe, Hitler não perseguiu somente judeus, mas negros, ciganos e outros vários segmentos e grupos. Diz o autor:

“No entanto foi dos Estados Unidos que veio expressamente a formulação ‘científica’ do supremacismo racial destinado a desempenhar papel central em seu pensamento e ação (referindo-se a Hitler). Foi de lá também que ele recebeu a justificação e a demonstração do eugenismo que constituiu seu primeiro crime de massa. De lá, ele extraiu diretamente a confirmação de que o antissemitismo era um fenômeno mundial que exigia uma ‘solução’ na mais vasta escala possível. Lá forjou amizades importantes, obtendo o apoio proativo de empresas determinantes; entre elas, Ford, General Mortors, IBM, Standard Oil, Chase, Kodak e até Coca-Cola.” (p. 41)

O outro autor é Achille Mbembe, professor de História e de Ciência Política da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, África do Sul, e da Duke University, nos Estados Unidos. Em seu livro “Crítica da razão negra”, publicado pela Éditions La Découverte, Paris, traduzido pela brasileira N-1 Edições, ele mostra como o negro e a questão racial têm que ser vistos a partir de uma reflexão que ilumine essas questões como invenções do Ocidente. Invenções urdidas na trajetória da modernidade construída pelo processo de escravidão que deu origem o capitalismo.

Mesmo o branco seria também uma “invenção” do próprio Ocidente, e assim a questão da raça só existiria como “constructo” para demarcar a existência do “diferente” no outro, a fim de legitimar a exploração – e não por conta de supostas diferenças naturais. Estas seriam enunciadas por disciplinas científicas e discursos para legitimar a dominação com base na transformação de seres humanos em coisas.

Mesmo com o avanço da defesa dos direitos humanos no plano internacional, internalizados nos países como direitos fundamentais, o racismo aumentou, em vez de ter sido neutralizado ou diminuído. Tanto isso é verdade que, no Brasil, a sociedade precisou criar legislação criminal para coibi-lo. Ou seja, transformações nas estruturas econômicas e sociais não implicam automaticamente diminuição do racismo e – acrescento eu – de outras formas discriminatórias de caráter neofacista. As palavras do autor são bastante luminosas sobre o tema:

“É falso pensar que a lógica racista é apenas um sintoma da depredação de classe ou que a luta de classes é a última palavra da ‘questão social’. (…) Ao longo de grande parte da história moderna, raça e classe mantiveram laços de coconstituição (sic). (…) O sujeito racista reconhece em si mesmo a humanidade não naquilo que o torna igual aos outros, mas naquilo que o distingue deles. A lógica da raça no mundo moderno atravessa a estrutura social e econômica, interfere com movimentos da mesma ordem e se metamorfoseia incessantemente.” (p. 76).

Resumindo, fica claro por que é coerente o discurso bolsonarista segundo o qual todo mundo contrário a seu governo ou suas patacoadas ou é de esquerda ou comunista – incluindo políticos de qualquer partido, gays, negros, índios, estudantes, intelectuais, cientistas, jornalistas, camponeses, empresários, empregadas domésticas, humoristas, religiosos e qualquer categoria ou membro de diferentes estratos sociais, profissionais ou o que seja. Ao inventar que todo mundo é comunista, Bolsonaro não está brincando – e, por isso, não podemos nos deprimir diante da gravidade da situação.

Devemos, sim, nos preparar para um levante – algo cívico, com as diferentes armas da democracia – para empreender amplo movimento, a fim de impedir o avanço do neofascismo. Que, aliás, pode atropelar o próprio Bolsonaro e continuar se consolidando pelas mãos de outros governantes em caso de impeachment, renúncia ou derrota nas próximas eleições.

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