CHRISTIAN LYNCH: Bolsonaro e o dilema do parasita

O populista de direita radical na democracia hoje em crise vive de simular força para se legitimar como “líder do povo” e intimidar o “sistema”. Ações como essa são essenciais para saciar o revanchismo dos seus seguidores, ressentidos com a marcha da democracia, que ameaça seus micropoderes de gênero, raça ou orientação sexual.

Mas aqui emerge uma pergunta essencial. É intenção de líderes como Trump destruir a democracia ou viver às custas do ódio que os ressentidos sentem a respeito dela? Nada impede, claro, que a prática do segundo objetivo acabe produzindo o primeiro, e que tenhamos de estar sempre em guarda para essa eventualidade, denunciando o golpismo.

Mas suspeito que, para eles, o objetivo prioritário é o segundo: viver às custas do ódio à democracia, descrita por pervertida pelo “sistema”. As ações de gente como Trump e Bolsonaro se assemelham muito às dos cachorros que só latem furiosamente para quem passa na rua, dando-lhes sustos, quando estão protegidos pela cerca da casa de seu dono. São os mesmos cachorros que batem em retirada quando avançamos para cima dele com um pedaço de pau.

Quando Bolsonaro fala em possibilidade de fraude eleitoral, possivelmente está menos arranjando pretexto para desfechar um golpe do que em justificar sua eventual derrota. Ele parece acenar com a possibilidade do golpe como forma de intimidar os adversários e garantir impunidade, e mostrar, aos seus seguidores, um poder que ele até hoje não teve, e possivelmente jamais virá a ter, mas que gosta de ostentar.

Gente como ele e sua família, que sempre viveu de explorar o sistema que condena, confortavelmente instalados em uma espécie de “extremo centrão”, deve ter mesmo certos escrúpulos em querer se desfazer desse mesmo sistema. Os mesmos que teriam parasitas em matar seus hospedeiros por excesso de cupidez. Talvez pudéssemos por isso chamar “o dilema do parasita” a essa dubiedade do líder populista, inerente ao seu esforço de tensionar constantemente as instituições pela intimidação e pela confrontação.

Por: Christian Edward Cyril Lynch.

O populista de direita radical na democracia hoje em crise vive de simular força para se legitimar como "líder do povo" e intimidar o "sistema". Ações como essa são essenciais para saciar o revanchismo dos seus seguidores, ressentidos com a marcha da democracia, que ameaça seus micropoderes de gênero, raça ou orientação sexual.

 

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