Bolsonaro entre Olavo e o mercado

Desde a eleição de Jair Bolsonaro e até mesmo antes dela, muito tem se especulado a respeito do que seria um governo comandado por uma figura política exótica egressa do baixo clero e que ficou famoso por reverberar discursos de senso comum com forte viés autoritário. Muito se foi dito, especulado, até se falou em planos maquiavélicos geniais comandados por quem não iria perder a oportunidade de esmagar seus adversários e a democracia – essa última conclusão pautada no discurso terrorista do PT durante a campanha eleitoral, o que evidentemente não faz nenhum sentido prático.

Até aqui nada disso aconteceu. Pelo contrário: o governo encontra-se mergulhado em constantes crises que, pasmem, ele próprio cria, como foi o caso do desentendimento entre Bolsonaro, sua prole desvairada e o presidente da Câmara (Câmara, Moro, não câmera) Rodrigo Maia. E a partir daí se aventa a possibilidade disso ser um modus operandi arquitetado justamente pra gerar o caos e operar em cima dele, o que também me soa como precipitado e de novo uma tentativa de enxergar algo para além daquilo que os fatos evidenciam, isto é, um governo perdido, incompetente e desorientado que por falta de projeto se volta pra si mesmo e bate cabeça constantemente.

E nesse processo de peleja interna, duas visões que formavam a confusa miscelânea de tribos que apoiaram a candidatura de Jair Bolsonaro (e o fizeram calcados na única coisa que os unia, o antipetismo) monopolizam o embate e se digladiam apresentando contradições incontornáveis: uma ala pragmática, liderada pelos militares, que defende uma agenda prol mercado buscando a consolidação do governo por resultados efetivos; e uma outra orientada a partir do filósofo Olavo de Carvalho, que empreende um discurso da necessidade de luta ideológica contra o establishment. E aí o grande dilema: para essa turma pautada no olavismo, os atores do mercado e seus aparelhos bem como parte da própria burguesia nacional fazem parte de um projeto globalista que o governo, compreendem, deveria se opor.

Essa segunda visão é a predominante no núcleo duro da base de apoio do presidente Jair Bolsonaro e por mais que ela aparentemente seja mais destrutiva do que construtiva (aliás, é uma das características do pensamento do filósofo conservador, que se volta contra determinadas instituições, a mídia, a universidade etc., e não necessariamente a favor de algo) é a que dá mais coesão a uma candidatura que foi forjada na negação. Nada mais natural, portanto, que continue negando em vez de propor algo. E é essa visão que tem predominado até aqui. Para desespero do mercado, da imprensa que acreditava ser possível moderar o Bolsonaro a partir de pautas concretas e também dos militares que compõem o governo, cada vez mais desprestigiados e vendo um navio afundar com eles, membros de uma das instituições mais respeitadas do país, ali dentro, sendo derrotados pela visão olavista. Até aqui os militares apenas tocam violino à espera do iceberg. E ele está logo ali: atende por reforma da Previdência, que é vital para o mercado, mas nenhum pouco para o Olavo.

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