Bolsonaro, “mundo das elites” e resiliência

1. O fenômeno do bolsonarismo é um monstro de várias cabeças, dentre elas, a rejeição ao que é percebido como “mundo das elites”, rejeição esta que é experimentada por parcelas expressivas do nosso povo. Para estas, do “mundo das elites” fazem parte os políticos, os artistas, os cientistas, os defensores dos direitos humanos, os intelectuais, as pessoas cultas, os jornalistas, a esquerda etc.

2. Muitas das características de Bolsonaro que nos causam – a nós, do “mundo das elites” – desconforto ou horror, como a grosseria, o mau português, os preconceitos, a burrice etc., para os bolsonaristas é, em geral, motivo de empatia, porque lhes parecem ser sinais de autenticidade. Bolsonaro é autêntico, pensam, ao passo que os da “elite” são hipócritas. Por este viés, o que nos parece defeito é visto como boa qualidade.

3. Esta rejeição ao “mundo das elites” por parte de parcelas significativas do povo, cabe destacar, a bem da verdade, tem o seu “conteúdo de verdade”. Desde Cabral, o “mundo das elites” tem faltado com a base da pirâmide social brasileira, no melhor dos casos, ou tem a espoliado e oprimido, como aconteceu na maior parte do tempo.

4. Sempre coube à esquerda se apresentar ao povo como uma elite de novo tipo, uma “elite-contra-a-elite”. No nosso passado recente, Lula (e o PT) foi a expressão mais bem acabada do que prometia ser uma nova elite, uma elite contra o “mundo das elites”.

5. A degradação moral e política do PT no governo – tão bem instrumentalizada pela mídia dominante e pela partidarização do judiciário – fez com que parcelas expressivas do povo brasileiro visse na esquerda o velho “mundo das elites” de sempre, o que abriu um inédito campo de atuação política para a extrema-direita.

6. No campo da religião, a igreja católica sempre se sentiu mais confortável no “mundo das elites” do que junto aos pobres, mas sempre teve presença junto às camadas populares. Com a recente “direitização” da igreja romana e com o fim das “comunidades de base”, o campo ficou aberto para que os pastores neopentecostais pudessem se apresentar como uma contra-elite religiosa.

7. O campo político gerado pela força crescente das igrejas neopentecostais, que ganharam espaço com o fim das comunidades de base da igreja católica, e pelo barulho criado pela extrema-direita, que ganhou espaço com o desgaste da esquerda, favoreceu a emergência de uma figura aparentemente tão fora de contexto como Jair Bolsonaro.

8. A plutocracia percebeu a “janela de oportunidade” que se abria, e deu no que está dando… Bolsonaro se apresentou na campanha – e vem se apresentando no governo – como um homem contra a elite, convenientemente escondendo o fato de que está a serviço dos interesses da elite econômica brasileira e estrangeira.

9. Bolsonaro se diz, demagogicamente, contra o “mundo das elites”, mas é a favor da elite econômica. Este engodo ele chamou, espertamente, de “nova política“. Ele pode ser acusado de tudo, menos de estelionato eleitoral, e o povo que votou nele reconhece-lhe esta “virtude”. Em boa medida, deve-se a este fato, a meu ver, a enorme resiliência que ele vem demonstrando, mesmo em meio a uma crise como esta. (Segundo pesquisa da Datafolha, 87% dos que votaram nele repetiriam o voto.)

10. O bolsonarismo é, dentre outras coisas, uma revolta ressentida contra o “mundo das elites”. Analisar o fenômeno do bolsonarismo pelo prisma do conceito sociológico de elite – e não apenas pelo ângulo das classes sociais – não explica tudo, por óbvio, mas, me parece, lança alguma luz sobre a resiliência de Bolsonaro e, por decorrência, sobre a tragédia em curso. Tragédia esta que nos faz viver o pior momento de nossa história republicana.

Bolsonaro, mundo das elites e resiliência

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