O jogo de Bolsonaro com SBT e Flamengo contra a Globo

Nesta quarta-feira (15), o SBT transmitiu a final do campeonato carioca entre Flamengo e Fluminense. A última vez que o SBT transmitiu futebol foi em 2003.

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O jovem deputado potiguar Fábio Faria (PSD) é um homem das comunicações. Sua proximidade com o mundo do entretenimento é vasta. Namorou estrelas como Adriane Galisteu, Sabrina Sato e é amigo de boa parte do establishment das grandes emissoras de televisão. Sua vida de galã bon vivant saiu do anonimato quando resolveu casar com Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos e herdeira do SBT.

Na tarde pandêmica de 17 de junho, o presidente Jair Bolsonaro surpreendeu a todos quando desmembrou o ministério da Ciência, Tecnologia e Comunicações, comandado pelo astronauta Marcos Pontes. O parlamentar Fabio Faria foi nomeado Ministro das Comunicações num acordo que envolveu Kassab e sua fatia do centrão.

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Na manhã do dia 19 de junho, dois dias depois da nomeação de Fabio Faria, o presidente Jair Bolsonaro promulgou a MP do Futebol. Na MP, os direitos de transmissão das partidas agora eram da equipe mandante. A Lei Pelé, que estabelecia as relações anteriores à MP, previa que a transmissão só ocorreria com a anuência das duas equipes. A maior prejudicada foi a Rede Globo, detentora dos atuais direitos de forma exclusiva. Com a lei, os times descontentes com a emissora carioca teriam larga margem de manobra para atuarem sozinhos em suas próprias transmissões.

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O Clube de Regatas Flamengo é o maior time – em número de torcedores – do Brasil. Sendo o atual campeão nacional e continental, a equipe entrou o ano de 2020 como a grande sensação das Américas. Vendo seu produto valorizar-se, o presidente do clube, Rodolfo Landim resolveu enfrentar o monopólio da Rede Globo. Julgava que o valor pago pela emissora – muito acima dos padrões de mercado – já não eram suficientes para as demandas do campeão das Américas.

Durante a pandemia, Landim e Bolsonaro encontraram-se diversas vezes. Inúmeras fotos foram tiradas e os discursos sobre a situação do futebol pareciam sair em uníssono. A união foi sacramentada com a edição da MP do Futebol, influenciada por Landim. O presidente do Flamengo, sobre esse assunto, disse:

“Ontem, conversamos com o presidente, na posse do ministro das Comunicações, e ele (Bolsonaro) convidou a mim e também ao Felipe Melo e o ministro para almoçar. Ele perguntou: ‘E aí, vai voltar o futebol, e o televisionamento?’. Expliquei, em detalhes, que tínhamos um problema na legislação que os dois clubes precisavam aprovar”.

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O SBT não vai bem das pernas. Em texto publicado por esta coluna, “Bolsonaro não dá Ibope: O drama das TV’s bolsonaristas“, fica nítido que o ano de 2020 é um ano terrível para a emissora do Baú. Restou ao SBT uma programação caricata e com sinalizações cada vez mais claras ao bolsonarismo. Silvio Santos é um aliado fiel. Aventou inclusive a hipótese de ressuscitar o panfletário programa “A semana do presidente”, além de cancelar um noticiário diário – SBT Brasil – que havia feito uma reportagem “negativa” no dia anterior.

Caminho contrário faz a Record, que parece estar cada dia mais preocupada com o projeto da Igreja Universal, que por incrível que possa parecer, não é o mesmo de Bolsonaro.

Diferentemente do conjunto de interesses que comandam a Record, o SBT é dirigido exclusivamente por seu dono, Silvio Santos, com ajuda de sua família. Dentro do núcleo familiar, a figura que mais se destaca é a filha Patrícia, mulher do ministro Fábio Faria e herdeira direta de Silvio.

Bolsonaro, Silvio, Fábio e Patrícia são “A grande Família” do SBT.

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Surpreendendo a tudo e a todos, o jogo Flamengo e Fluminense, final do campeonato carioca, está sendo transmitindo pela emissora do Baú no momento em que este texto está sendo escrito.

O SBT conseguiu o direito da transmissão em acordo com Landim, que havia dito não vislumbrar acordo com TV alguma. Silvio Santos não possuía núcleo esportivo há 17 anos. O acordo foi celebrado há 4 dias do jogo (11 de junho). Em quatro dias, a emissora decadente conseguiu um fôlego quase inacreditável. Contratou um núcleo esportivo do zero, confeccionou uniformes, preparou comentaristas e até o momento faz uma transmissão de qualidade inacreditável para uma emissora que perdeu 20% de sua audiência neste ano.

Parecia já estar sob aviso.

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Gilberto Maringoni, em texto neste Portal Disparada, aponta uma possível sinalização da Rede Globo ao PT. O que faria todo sentido. A emissora, acuada com a união de Bolsonaro, SBT e Flamengo, resolveu apelar ao seu antigo desafeto. O motivo seria mais do que suficiente, afinal, o futebol é a maior receita da emissora do plim-plim.

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O jogo de Bolsonaro com SBT e Flamengo contra a Globo

A estratégia de Bolsonaro está posta. Ele busca se aproximar de setores do establishment da comunicação em troca de barganhas escusas que envolvem o maior esporte do país, a segunda maior emissora e o Congresso Nacional. Fabio Faria opera o esquema tendo absoluto livre trânsito nos dois mundos. Bolsonaro aproveita da ganância de Landim para bater em seu maior inimigo, a Rede Globo.

Nesse quebra cabeça, resta ainda conferir se alguma peça envolverá verbas publicitárias. Não seria novidade.

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O Fla-Flu deu ao SBT a vitória no IBOPE. Pela primeira vez em 2 décadas, o SBT fica à frente da Globo no horário da quarta à noite.

1 Comentário

  • Eu entendo ser difícil falar de futebol e política sem que as paixões pessoais não estejam envolvidas, mas vamos lá: o que o presidente do Flamengo fez, olhando estritamente para o seu campo de atuação, ou seja, o futebol, foi enxergar um contexto político perfeito para se livrar de um monopólio maléfico ao futebol brasileiro e ao telespectador, de forma geral. Não se trata de “ganância”, como o texto diz explicitamente, mas sim de senso de oportunidade de quem produz o espetáculo e não é remunerado de acordo.
    Só pra lembrar a MP já conta com o apoio de dezenas de clubes importantes, que reconhecem o atraso da lei Pelé, uma lei neoliberal que dava a Globo todo o poder de barganha nas transmissões, e que entendem que a MP se adequa às melhores práticas internacionais, onde o mandante do jogo detém os direitos de transmissão.
    E cá pra nós, se é ruim pra Globo é bom para o país, parafraseando o velho Brizola

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