Enquanto Bolsonaro ganha tempo, as oposições perdem e o Brasil segue à deriva

Por Álvaro Miranda – Em que pesem os desarranjos verbais como falta de controle do esfíncter do decoro presidencial, inegável a mudança de tom de Bolsonaro diante das diferentes ações do Poder Judiciário. A situação poderia nos fazer concluir que a democracia tem se garantido pela força de determinados atores e instituições, diferentemente de uma suposta situação ideal que seria a ação coletiva de partes da sociedade que estão fora da máquina pública.

Mas, se isso é verdade, faz parte não só do jogo “democrático”, digamos assim, mas sim do próprio complexo de lutas de classes (no plural mesmo), entendido como conjunto de conflitos entre diversos setores, por diferentes motivos, dentro e fora dos aparelhos de estado, para não embarcarmos na ideia vulgar da contradição ser apenas entre classes possuidoras dos meios de produção e trabalhadores assalariados.

Mas não só as ações do Poder Judiciário forçaram a mudança de tom. Sim também, além da pandemia, as circunstâncias materiais do jogo político e econômico. Vale dizer: o que fazer e como fazer ou o que escolher para deixar de fazer diante de crises ou de janelas de oportunidades para investimentos. Nisso tudo, o fator temporal é determinante para a acomodação ou precipitação de situações e mudanças.

Em vez do empreendimento concreto de políticas públicas, Bolsonaro apenas ganha tempo com os recursos disponíveis, no caso, os mais imediatistas, como uma política populista de tutela assistencial, ampliando ou mantendo seu apoio já conquistado. É o micro possível dentro da lógica macro do adiamento de crises do sistema inerentemente portador de crises. O capitalismo vive de crises e de suas tentativas de adiamento constante quando os conflitos se acirram – o que alguns chamam de ciclos.

Mas, a lógica não é nunca segura, e a pandemia é um exemplo do imponderável na política e na economia. Agosto é mês emblemático de aceleração do calendário. Em setembro o ano começa a acabar. O governo completa dois anos não tendo feito coisa alguma praticamente em termos de avanços, apenas acumulando crises, denúncias, manchas, sem, contudo, desmoronar, graças à capacidade do adiamento das crises maiores.

Não se trata de talento de Bolsonaro, mas de saber usar os recursos que têm quando se exerce o poder, e isso qualquer bom chefe de repartição consegue fazer. Refere-se não à sua capacidade de liderança e carisma, ou administrativa, mas sim às possibilidades oferecidas pelo próprio jogo político.

Tal jogo, sabemos bem, é constituído pelas cartas marcadas de determinados jogadores que não fazem questão de que as coisas mudem muito desde que as regras não sejam quebradas, nem certos lances levados ao extremo. Por isso que a ideia de golpe não vingou e talvez tenha sido sempre um blefe. Porque Bolsonaro percebeu que podia jogar o jogo que já existe.

Se tivesse sido mais inteligente no início e menos bronco, mesmo considerando que suas grosserias e idiotices são aplaudidas por diversos setores, talvez seu apoio hoje fosse maior ainda do que já é. Bolsonaro se tocou disso, está consolidando o que já tem e voltando a tentar a conquistar mais apoio. Nunca governou e nunca deixou de fazer campanha, que entra numa nova fase nessa metade do governo.

Enquanto Bolsonaro ganha tempo, as oposições perdem tempo com idiossincrasias e vaidades. Se o povo é ou não burro, discussão bizantina nas redes sociais, isso sai na urina da luta política concreta de um jogo quase de cartas marcadas em que uma das questões chaves é o fator temporal.

O clássico brasileiro do jogo clientelista tem sido que, em qualquer situação de confronto, diante de muita controvérsia ou impasses, o lance mais promissor é a postergação de decisões ou acordos. Bolsonaro não tem pressa de nada. Postergar faz parte da cartilha da chamada velha política.

As oposições, por sua vez, das duas, uma: ou parecem contar com o lance de um jogo de dados, alguma crise aguda vinda do céu como tempestade – o lance da sorte. Lance que não comporta uma jogada “marcada” em seis possibilidades, isto é, as faces do cubo lançado aleatoriamente. Em outras palavras, esperar que Bolsonaro caia sozinho como quem escorrega no ladrilho da cozinha e bate a cabeça.

Ou têm alguma carta escondida na manga para o revezamento em 2022, num jogo cuja banca, por outro lado, é o próprio governo. Banca porque é o governo quem vem pautando os conflitos. E assim essas oposições aproveitam-se de sua posição de jogadores privilegiados dentro da multiplicidade de atores – atores não limitados a um cubo como o do jogo de dados, mas sim no poliedro das lutas de classes. Podem não ganhar, mas podem perder pouco, continuando o jogo tradicionalmente jogado.

Na prestidigitação da democracia de elites, alguns gritam nas redes sociais, outros cospem fogo de vitupério em diferentes tribunas, outros fazem “lives” repetidas e monótonas para suas bolhas. Bolsonaro cresce pelo menos por enquanto ganhando tempo, o tempo de todos nós.

Se me acusarem de estar falando sem legitimidade por não pertencer a partido político ou não fazer parte de movimentos sociais, ou então por estar desinformado, peço a gentileza para refutarem o que disse nessas linhas. Ficarei muito feliz se eu estiver errado.

Em que pesem os desarranjos verbais como falta de controle do esfíncter do decoro presidencial, inegável a mudança de tom de Bolsonaro diante das diferentes ações do Poder Judiciário. A situação poderia nos fazer concluir que a democracia tem se garantido pela força de

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