Bolsonaro, o rinoceronte e o palhaço viking

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Bolsonaro, o rinoceronte e o palhaço viking

Em 1959, os paulistanos votaram para escolher os vereadores da cidade. Pelo calendário eleitoral da época, o prefeito já havia sido escolhido dois anos antes e governaria até 1961. No plano federal, aquela eleição para a Câmara Municipal de São Paulo ocorria enquanto o presidente Jucelino Kubtschek se apressava para entregar a nova capital do país a tempo.

Assim como aconteceu nas obras da Copa do Mundo de 2014, a construção de Brasília era um projeto complexo e com significativo impacto econômico, o que poderia fortalecer o capital político do seu executor. Por isso, a UDN, seguindo sua jornada denuncista, em conluio com os grandes órgãos de imprensa, não dava sossego ao presidente. Depois de combaterem o “mar de lama” no governo Getúlio Vargas e construírem o clima político que o levou ao suicídio, os ilibados líderes da UDN se lançavam agora contra a corrupção nas obras de Brasília, que teria transformado JK no novo bilionário do país – talvez até mesmo trilionário, muitos anos antes de Bill Gates conseguir tal façanha.

Em um mundo político tomado pela corrupção, pelo menos no que aparecia no noticiário, os paulistanos ainda tinham um estímulo extra para a revolta “contra tudo isso que está aí”. O prefeito Jânio Quadros foi eleito em 1953 e renunciou em 1954 para virar governador do estado. Como o vice-prefeito também se tornou vice-governador, o presidente da Câmara teve que dirigir a cidade até o ano seguinte. Em 1955, nova eleição e mais um prefeito que renuncia poucos meses após a posse. Assumiu o vice por mais um ano, até ser substituído na eleição de 1957 pelo inesquecível ex-governador de São Paulo, Dr. Adhemar Pereira de Barros. Foi nesse ambiente instável, com calendário eleitoral confuso e imerso em denúncias de corrupção em todas as esferas – não as ocupadas pela UDN, claro – que se realizaram as eleições para a Câmara Municipal de 1959.

As cédulas de papel davam aos eleitores que desejavam votar nulo a oportunidade de protestar através de ofensas e desenhos obscenos, o que aliviava as tensões no plano individual, mas tinha pouco efeito político. Por isso, um jornalista teve a ideia de canalizar a revolta difusa da população, lançando para a Câmara a anticanditatura de uma rinoceronte que chegara com grande pompa ao zoológico da cidade meses antes. Naquela eleição, quase 100 mil paulistanos registraram seu voto na rinoceronte Cacareco para o legislativo municipal. O resultado ganhou repercussões internacionais, inspirando inclusive a fundação de um bem-humorado partido no Canadá, The Rhinoceros Party, e até hoje é usado para ilustrar ondas de votos de protesto pelo mundo.

Fenômeno parecido ocorreu, 50 anos depois, na gélida e longínqua Islândia, onde a crise financeira de 2008 se abateu com especial vigor. A Islândia é um país de economia extrativista que exercia forte controle estatal sobre as atividades econômicas e financeiras até os anos 90. Com a privatização de suas principais empresas e de seu sistema bancário, concluída em 2003, o país ingressou no fluxo de créditos fartos vindos, sobretudo, de investidores ingleses.

Em 2008, chegou a conta da prosperidade neoliberal. Repleta de empresas insolventes, com o sistema bancário quebrado e a população endividada, a Islândia entrou, do dia para a noite, na lista negra do financismo mundial. Para tentar garantir o ressarcimento dos correntistas britânicos, o governo da Inglaterra se apressou em incluir o Banco Central islandês na lista de entidades terroristas, o que autorizou o congelamento de bens da Islândia em seu território. Com suas reservas em moeda estrangeira depositadas em bancos ingleses, os islandeses sentiram na carne os efeitos do verdadeiro terrorismo. Na guerra das ilhas, a dos vikings sucumbiu aos caos da financeirização.

Seguindo o roteiro do clássico filme “A Socialização dos Prejuízos”, o governo islandês estatizou os bancos quebrados e incorporou suas dívidas, iniciando o processo de austericídio que vem destruindo a periferia europeia desde 2008. No entanto, os senhores dos mares, protegidos pelo deus Odin, logo perceberam o barco furado que estavam entrando e, três anos depois, organizaram um plebiscito para oficializar o calote na dívida impagável.

Foram três anos de caos, revolta generalizada e desconfiança completa nos políticos, o que levou a população a se insurgir “contra tudo isso que está aí”. Foi nesse contexto que ocorreu, em 2010, a eleição para a prefeitura da capital do país, Reykjavík. A disputa foi vencida pelo humorista Jón Gnarr, que havia fundado, no ano anterior, o “Melhor Partido”. A sátira partidária, que propunha distribuir toalhas à população e fazer um churrasco das ovelhas do zoológico municipal, foi formalizada e os islandeses tiveram a oportunidade de testar se “pior que tá não fica”. Mais avançados que os paulistas, que protestaram contra o crescimento de 7,5% da economia do último ano do governo Lula votando no Tiririca, a Islândia teve o Melhor Partido para dar o seu recado.

Hoje, no Brasil, as pesquisas eleitorais para presidência indicam um fenômeno parecido. O voto de protesto tem dado ao deputado Jair Bolsonaro o segundo lugar na preferência dos eleitores, a despeito dos ataques que vem sofrendo da mídia, em conluio com a dinastia psdbista que ocupa, há 23 anos, o Palácio dos Bandeirantes e que quer voltar a ocupar, formalmente, o do Planalto. A possibilidade de tirar os combalidos tucanos do segundo turno e a ameaça fascista que aterroriza os pesadelos das esquerdas transformaram Bolsonaro no alvo preferencial de todos os lados.

Ao mesmo tempo em que todos respiram aliviados pela constatação do completo despreparo do candidato, também se impressionam com a persistência do seu eleitorado. Se não cresce nas pesquisas, também não cai. Por que isso ocorre?

Bolsonaro, Jón Gnarr, Cacareco e Tiririca são fenômenos semelhantes, mas é nas suas diferenças que reside a resposta à indagação. Exitem votos de protesto e votos de protesto. O denuncismo udenista, causa das crises políticas dos governos Getúlio Vargas, JK, Jango, Lula e Dilma, não é algo muito comum nos momentos de crise econômica. Cacarecos e Tiriricas são frutos da luta das oligarquias para impedir o acúmulo de capital político por parte de seus adversários nos momentos de bonança. Já em época de crise, o denuncismo se torna algo arriscado às oligarquias, pois a população pode descobrir as verdadeiras causas de seus tormentos.

Nos períodos de crise, o voto de protesto ganha ares de desobediência civil. A desconfiança no sistema não é aguçada apenas pela propaganda, mas pelos efeitos diretos das tragédias econômicas. Não adiantou enviar todos os economistas do mundo à televisão dizendo que se os islandeses votassem pelo calote o país iria se tornar um pária internacional, a fome iria se alastrar pelo país, haveria intervenção militar estrangeira etc. Não adiantou dizer aos gregos que o voto no partido que prometia o calote e a retirada do país da Zona do Euro iria destruir a nação, acabar com o sonho europeu, transformar os gregos em escravos dos persas. Não adiantou todos os políticos do Partido Conservador e do Partido Trabalhista inglês falarem que a retirada do Reino Unido da União Europeia era um atraso, que o Brexit significaria o letal isolamento do país ou que isso iria antecipar o Apocalipse. Nesses momentos, não adianta mostrar planilhas. Não adianta construir argumentos lógicos e irrefutáveis. A desobediência civil, expressa nessas votações, é fundada precisamente na profunda desconfiança de tudo e de todos. É aqui que se encontram Bolsonaro e Jón Gnarr.

Apregoar a irresponsabilidade de se entregar a prefeitura da capital do país a um palhaço foi tão inócuo quanto é ressaltar a falta de inteligência do Bolsonaro. Na verdade, pode ter até efeito contrário. Sempre se vendendo como uma vítima do sistema comunista intergaláctico transcendental, Bolsonaro se blinda contra as acusações e se fortalece enquanto apanha, usando profissionalmente as máquinas da internet. Além disso, apresentá-lo como um idiota pode soar arrogante a uma parte expressiva da população, normalmente, aquela parte que enfrenta a arrogância dos de cima no seu dia a dia.

Uma vítima que não é vítima, propondo um entreguismo nacionalista conduzido por um político profissional que se diz antissistema, mas que quer manter tudo como está na base do porrete. Eis a diferença entre ele e o palhaço islandês – a constatação que seria imperdoável por parte dos seus fiéis eleitores revoltados: Bolsonaro é apenas a expressão mais truculenta do sistema que finge combater.

1 Comentário

  • Merda de caviar ainda cheira a merda, mesmo que saia da boca, aparentemente, cheia de cultura.

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