Entre a construção da civilização ou a barbárie

Há entre nós vícios, qualidades, defeitos, gargalos, alegrias, tristezas, pobreza, riqueza, simplicidade e opulência. Há no Brasil uma série de dilemas que nos faz únicos no mundo. Brasileiros: tão peculiares, tão diversos e complexos. Somos o País que está dentro de um subcontinente sendo o próprio Brasil continental. Um continente no qual cabem muitos Brasis, regionalismos, costumes e povos. Como asseverava Darcy Ribeiro, do sertanejo ao crioulo, do sulino ao caipira e caboclo. Somos um povo-nação que é projetado numa ótica una, que se auto-exalta, ufana-se do seu país, e se deprecia no vira-latismo de cada dia nos tons das diversas brasilidades. Um povo que talvez não seja tão do “cordis” e passional, que se forma e se forja nas agruras e adversidades.

Somos do futebol, do drible, do gingado, de Pelés, Garrinchas, Ronaldos e Romários, tão geniais nos campos – e às vezes só no campo – e do pentacampeonato. Do basquete bicampeão mundial, do Kanela, do Amaury, também da Hortência e da mágica Paula. Aqui é o País que ainda há extrema miséria, mas que faz campeão no mais burguês dos esportes, a Fórmula 1: tivemos o calculista Fittipaldi, o genial Senna e o completo Piquet, verdadeiros ases da matéria. O Brasil do vôlei, de José Roberto Guimarães, Ana Moser, Bernadinho e daquelas que não fizeram tanto sucesso na quadra, tomando muitas bolas nas costas da Mireya, e tentam fazer politicagem ignorante fora dela. Há handball, há Marta, Cristiane, Aurélio Miguel e Adhemar Ferreira da Silva. E há tantos outros.

Aqui há o samba mundialmente conhecido, de Noel Rosa, Bezerra da Silva, Cartola, Ataulfo Alves e Martinho da Vila. De Mestre Marçal, que não é meu ancestral, mas que muito me honra ter seu sobrenome. O samba dos carnavais, dos desfiles exuberantes de Joãozinho Trinta e dos bloquinhos e blocões que no “carne vale” tocam frevo, axé e muitos outros ritmos. O Brasil que dança maracatu, xaxado, bossa nova, carimbó, baião, sertanejo, brega e forró. Há também o que é exógeno e foi abrasileirado: do rock, do toca Raul, ao funk-pop de Anitta passando pelo rap genial – e das críticas corretas e adequadas – do Mano Brown. É Chico, é Caetano, é Gal, é Gil e Villa-Lobos.

É o Brasil das artes, do pensamento crítico, da literatura. De Tarsila do Amaral, da semana de arte moderna de 22, de Candido Portinari, egrégio membro do Partidão, e de seu colega de luta popular, Graciliano Ramos, absolutamente genial. De Oswald de Andrade, da antropofagia, e dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, que com contos e poemas fazia com nossa língua todo tipo de estripulia, pura magia. Do Realismo de Machado de Assis, dos maiores nomes da literatura mundial, ao modernismo experimentalista de Guimarães Rosa. É gente boa que não acaba mais se pondo a pensar sobre problemas concretos e reais: o marxismo utilizado como ferramenta para pensar o País com o Caio Prado Jr em Formação do Brasil Contemporâneo; as contradições e sofisticação de Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala; é também Raízes do Brasil de Sérgio Buarque, weberiano.

Mas o Brasil também é o lugar da violência estrutural, de um passado escravagista e colonial. O lugar que uma enorme parcela da sociedade ainda está à margem de conquistas civilizatórias. Que há uma elite, a do atraso, que nos distrai e o nosso futuro, na violência ou na defesa da tese polida, nos rouba. É o Brasil que o Eric Hobsbawm chamava de monumento à desigualdade social. É um Brasil que na Nova República, no processo pós-redemocratização, avançou, a passos curtos, paulatinos, mas, mesmo assim, melhorou. Somos um emaranhado de coisas tão difíceis de explicar, complexas de entender e que nem formidáveis obras como História do Brasil, de Boris Fausto, e “Brasil: uma Biografia”, da Starling e da Schwarcz, de mais de 600 páginas, dão conta de tudo expor, colocar em perspectiva e desenvolver.

É esse Brasil complexo e profundo que vai às urnas no próximo domingo, 28, escolher seu próximo presidente e optar por diferentes projetos de Brasil. Há os que podem se olhar no espelho de forma realista votando em Haddad, enxergando ali algumas especificidades e contradições, algumas das nossas típicas características e singularidades. É o voto de quem não nega o que somos, de quem compreende conscientemente onde estamos e que o momento, difícil e complicado, reconheçamos, exige maturidade para lidar de frente com gargalos e dificuldades que não nasceram agora e que, seu enfrentamento, dentro da política e da democracia, não passa por solução milagrosa. E há quem vote em Bolsonaro, o candidato que promete resolver tudo a golpe de frase pronta, da retórica que nega o Brasil complexo, o brasileiro e sua diversidade, que expressa todo tipo de ressentimento, ignorância e maldade.

Temos, portanto, duas opções: a civilização, a luta por sua construção, reconhecendo as dificuldades e os problemas que nos esperam e que temos nessa grande nação; ou o discurso obscurantista, irracional, da poção mágica, que se coloca como panaceia para todos os entraves atribuindo aos outros toda sorte de culpa, mas que de fato e de direito representa uma única alternativa: a barbárie, o mal.

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