A anacrônica superdosagem bolivariana: a relação Brasil-Venezuela e o papel da esquerda

Durante os governos petistas, a relação de solidariedade com o povo venezuelano era delegada para forças políticas e lideranças de menor impacto. Os governos eram imensamente econômicos em suas manifestações acerca do tema, produziam algo simplificado, republicano e calculado friamente em nossa Constituição: respeito à autodeterminação dos povos e fomento a uma relação de mínima harmonia com o país vizinho (“não-intervenção” e “solução pacífica dos conflitos”, então expressões constantes nos incisos do artigo 4° de nossa Carta Magna).

Agora que não é mais governo; agora que a esquerda está na lona; agora que a própria Venezuela vivencia o seu mais nebuloso momento; agora que o debate sobre a Venezuela está totalmente arrasado em nossa sociedade com o pleno triunfo de uma visão imperialista e liberal sobre o país irmão, com uma possibilidade real de guerra, e até mesmo de possível participação brasileira; eis que agora o PT resolve assumir um bolivarianismo que nunca foi seu, com direito a uma participação entusiasmada na posse de Maduro por parte da presidente do PT.

Justamente o PT que não tomou qualquer remédio chavista contra os surtos financiados pelo imperialismo e contra o golpismo das elites locais; justamente o PT que não permitiu a entrada da Telesur no Brasil; justamente o PT que não apoiou o Banco do Sul, proposto por Chávez; justamente o PT que não fez qualquer ação relevante de disputa da opinião pública sobre a situação venezuelana, mesmo dirigindo o Governo Federal; enfim, é esse mesmo PT que hoje resolveu tomar uma anacrônica superdosagem de bolivarianismo, uma medicação sem lógica e cheia de efeitos adversos. Um teatro da presidente petista com foco na disputa fratricida (inócua e eterna) das correntes petistas.

Evidente que reconhecer o Governo Maduro, mesmo tendo ciência de seus limites e equívocos, é um ato inerente daqueles que sabem o significado do maldito imperialismo ianque e de seus títeres golpistas na luta dos povos da América Latina. Entretanto, a tarefa central atualmente é resistir ao Governo Bolsonaro, é reconquistar a ligação perdida com a maioria das massas populares, é equilibrar novamente a correlação de forças em nosso país. Portanto, o máximo que se pode fazer é forçar o cumprimento da Constituição Federal para garantir o respeito à autodeterminação do povo venezuelano, para assumir a posição pela não-intervenção e pela solução pacífica no conflito da Venezuela. Uma firme postura de solidariedade internacionalista dentro das nossas possibilidades limitadas pelo cenário nacional. Para além disso, é fazer espetáculo ao inimigo local, é dar munição ao bolsonarismo, é “jogar água no moinho da direita”, ora expressão que os petistas tanto diziam àqueles que tentavam sem sucesso salvar o trágico Governo Dilma.

A ampla divulgação da presença do PT na renovação do mandato do líder venezuelano, aliada a propagada ausência petista na posse do novo presidente brasileiro, junto com todos os fatores da conjuntura nacional e internacional, somente colocam o partido de Lula cada vez mais incapacitado de exercer o papel de liderança da oposição ao Governo Bolsonaro. Mas, por evidência, por tamanho social e força eleitoral, o PT buscará isso. É natural. Porém, o nosso papel é fazer o dever de casa… Recuar, ampliar, e superar o que precisa ser superado na disputa da esquerda e na batalha da sociedade.

Por João Herminio, membro do Comando nacional da Organização A Marighella – CPR, secretário-geral do Centro Cultural Camarada Velho Toledo e advogado

1 Comentário

  • É claro! O PT estava frágil. Com tanto ataque da direita e da mídia. Precisa desenhar isto?

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