Brizola: Um gigante da história do Brasil

Em 21 de junho de 2004 Leonel de Moura Brizola nos deixava. Recebi a notícia de um companheiro de PDT que me falou, aos prantos, por telefone, quando eu estava chegando em casa naquela noite. Fiquei sem chão e, como muitos, chorei copiosamente como poucas vezes na minha vida.

Brizola é uma referência tão marcante para quem o conheceu que fica muito difícil descrever em um texto. Seriam precisos muitos livros, de vários autores, para tentar fazer justiça a importância de sua figura.

Leonel Brizola foi tão grande na história brasileira que, se fosse dividido em dois personagens, um antes da ditadura e outro depois disso, os dois ocupariam lugar de destaque na história política do Brasil.

Em 1961 liderou a maior resistência civil a uma tentativa de golpe militar na Campanha da Legalidade.

No exílio travou contato com a social democracia europeia e se fez vice-presidente da Internacional Socialista.

Único brasileiro a se eleger pelo voto direto em dois estados diferentes (e estados com o peso e a história política de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) Brizola foi o governante que mais investiu em educação e mais construiu escolas até hoje na história dos dois estados.

Brizola Um gigante da história do Brasil

Em sua passagem pelo governo gaúcho fez tantas escolas que os índices de analfabetismo do estado despencou e ficou como o melhor do país por décadas, como demonstram os censos do IBGE.

A perseguição do regime militar a Leonel Brizola não tem comparação com a sofrida por nenhum outro líder político.
Hoje, quando se fala de sua consagradora eleição para o governo do Rio de Janeiro em 1982, muitos esquecem todos os obstáculos colocados a sua frente:

-perda da legenda do PTB para Ivete Vargas, numa manobra escandalosa do Golbery do Couto e Silva (principal estrategista da ditadura) que fez o Estado do Rio ter como candidata pela sigla de Getúlio e Jango a lacerdista e extremamente anti-getulista Sandra Cavalcante;

– implantação do voto vinculado, onde o eleitor teria que votar em candidatos do mesmo partido para governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeito e vereador (eleição de 1982 foi, também, municipal, prefeitos e vereadores tiveram mandatos prorrogados, posteriormente, para 6 anos e não havia urna eletrônica). Essa medida foi implantada visando impedir a eleição de Brizola. O PDS e o PMDB há muito já estavam estruturados em todos os municípios do Brasil. Já o recém criado PDT, em muitos municípios do interior, sequer tinha candidatos a prefeito e vereador e, obviamente, o eleitor de cidades menores tende a priorizar voto em vereador e prefeito, naturalmente mais próximos de sua realidade e seu convívio. Com a eleição de Brizola o voto vinculado teve efeito contrário ao planejado e ajudou ao PDT eleger grandes bancadas e prefeituras de cidades importantes (outro ponto que cabe destacar é que até 1985 nas capitais e nas chamadas cidades de segurança nacional os prefeitos não eram eleitos diretamente, mas nomeados pelo governador). Logo o voto vinculado, que poderia ter tido um papel importante no fortalecimento dos partidos e sua identidade ideológica com o eleitor, foi abandonado. Só valeu na eleição de 1982 para tentar impedir a eleição de Brizola;

-o esquema de apuração montado pela Rede Globo, Governo Federal, Justiça Eleitoral com a Proconsult, que tentou, de todas as formas, roubar a eleição de Brizola.

Contra tudo isso, Leonel Brizola foi o primeiro governador eleito pelo voto direto no novo Estado do Rio de Janeiro, resultante da fusão da Guanabara com o antigo Estado do Rio.

Logo após a eleição de Brizola o governo federal transferiu para o estado a dívida bilionária oriunda da construção do metrô, numa tentativa de asfixiar financeiramente sua gestão. Apesar de todo esse cerco Brizola conseguiu implantar o mais completo e revolucionário programa de educação em tempo integral do Brasil, os CIEPs. E inaugurou o Sambódromo, que também funcionava como a maior escola de tempo integral do país, batendo de frente com os interesses da Globo em conluio com a cúpula do jogo do bicho, que já participara ativamente contra Brizola no caso Proconsult.

Saiu do governo tendo como candidato à sua sucessão o então vice-governador Darcy Ribeiro.

A campanha de 1986 na TV teve a surreal proibição da participação de Brizola. Todos os adversários batiam sistematicamente em Brizola e ele não podia aparecer no horário do PDT para defender seu governo e pedir votos para Darcy.

O PT lançou Fernando Gabeira, que atacava o governo Brizola pela “esquerda”, o chamando de atrasado. As forças do governo federal, agora já sob José Sarney, com o Plano Cruzado como mote principal, lançou Moreira Franco (que em 1982 disputou pelo PDS e perdeu para Brizola) pelo PMDB, numa coligação que ia do PTB da Sandra Cavalcante até o PC do B, recém legalizado, que acabou eleito.

Em 1988 Brizola elegeu o prefeito da capital e das principais cidades do estado.

Em 89 teve ⅔ dos votos no estado do Rio para presidente e fez, aqui e no Rio Grande do Sul, a maior transferência de votos da história do Brasil para Lula no segundo turno. Apesar disso o PT, no ano seguinte, não apoiou Brizola na eleição de governador. Mesmo sem esse gesto de gratidão, para dizer o mínimo, Brizola se elegeu governador com quase 70% dos votos em primeiro turno, para desespero das Organizações Globo.

No seu segundo governo os CIEPs foram retomados, com mais de 500 funcionando em todos os municípios do estado. Criou e implantou a UENF (Universidade do Norte Fluminense), entre várias outras realizações de governo importantes e estruturantes.

São tantas atitudes e momentos marcantes que fica impossível descrever todos neste texto, por isso vou me ater a alguns poucos que muito me marcaram e são pouco lembrados.

Como a que teve diante de uma greve patronal de caminhoneiros – evidente locaute com objetivo de desgastar seu governo – em que se ameaçava fechar os acessos ao Rio de Janeiro, causando desabastecimento por conta de isolar as centrais atacadistas. O governador Leonel Brizola, surpreendendo os idealizadores do movimento que contavam com uma postura sua “esquerdista e pró-greve”, convocou o Comando Militar do Leste para desobstruir qualquer interdição nas vias. Tempos depois, numa das inesquecíveis plenárias no PDT, ele dizia: “chamei os verdes”, numa alusão que fazia quando se referia ao Exército.

Em outra ocasião, provocado numa entrevista sobre a conveniência de fazer o desfile de 7 de setembro no Sambódromo, Brizola respondeu que “o Sambódromo, sabe?, é o local da maior festa popular do Brasil. Coisa dos gênios de Niemeyer e do nosso Darcy. Não creio que ficaria bem um desfile militar ali. Aqueles cavalos, com aquelas patas… Creio que não tem lugar melhor para nossas gloriosas Forças Armadas reverenciarem o Dia da Independência do que na Avenida Presidente Vargas!”.

Foi mais uma tirada genial do nosso caudilho, dentre tantas que teve ao longo de sua vida.

Por último, a lembrança inesquecível de uma ida do já então ex-governador Brizola na ALERJ. Marcelo Alencar era governador pelo PSDB, após romper com Brizola, que o nomeara prefeito do Rio em 1983 e o elegera pelo voto direto em 1988. FHC era o presidente e Brizola ficou atrás do Eneas na disputa presidencial de 1994, sofrendo um cerco imenso da Globo. O Tribunal de Contas do Estado recomendara a aprovação, com ressalvas, das contas do último ano do governo Brizola. As tais ressalvas são por conta de filigranas contábeis e são de praxe. Raríssimas vezes o TCE recomenda aprovação sem ressalvas.

Marcelo Alencar, em conluio com a Globo, fez uma enorme pressão para que a ALERJ reprovasse as contas de Brizola, o que o deixaria inelegível. Numa tentativa covarde e sem precedentes de macular a imagem de Brizola o governo Marcelo Alencar jogou todo seu peso (cargos, verbas, etc) para que as contas fossem reprovadas. Nessa época eu trabalhava na liderança do PDT na Assembleia Legislativa e vi nossa bancada minguar de 13 para 3 deputados por conta do assédio do governo estatual (não havia fidelidade partidária e a mudança de partido era livre).

Numa sessão da comissão de constituição e justiça tiveram a audácia de convocar Brizola. Para humilhar. Todo mundo sabia que não havia nada que justificasse a rejeição das contas. No início dos discursos o então deputado Marco Antônio Alencar, filho do governador, começou sua fala dizendo se lembrar que logo no início do governo Brizola, em 1991, ele, que já era deputado estadual, teria sido chamado ao Palácio Guanabara pelo Brizola para que o PDT rejeitasse as contas do Moreira Franco referentes a 1990. E que ali, em 1995, o PDT estava pedindo apoio ao PMDB para votar pela aprovação das contas de Brizola. “Seria um tapa na cara do PMDB” teria dito Brizola em 1991, segundo o Marco Antônio Alencar. Nessa hora Brizola deu uma porrada na mesa da sala das comissões da ALERJ. Todo mundo ficou estático. Ele se levantou, dedo em riste na cara do deputado Marco Antônio Alencar e disse: “Me respeita seu moleque. Respeita quem tirou seu pai das dificuldades do ostracismo. Nunca falei em tapa na cara do PMDB e quem tá merecendo tapa aqui é você. E não na cara, mas onde deve apanhar moleque mau criado como você”. Marco Antônio Alencar começou a chorar. O presidente da comissão ficou mudo. E o líder do governo tentou socorrer o filho do governador, mas foi interrompido pelo Brizola, que parecia ter 3 metros de altura, com um “cala a boca você também, seu puxa saco”. A sessão acabou aí e Leonel Brizola se retirou.

Quando se fala da liderança carismática de Brizola esse episódio é que mais me vem a lembrança. Brizola nunca precisou se valer da ocupação de cargos no executivo para se impor e se mostrar, naturalmente, muito maior que os políticos comuns, apesar de, ali, os deputados terem mandato e ele não.

A votação foi favorável ao Brizola por um voto. 35 a 34 com uma abstenção. Quem se absteve foi um deputado do PTB. Dos 5 deputados do PT 4 votaram para rejeitar as contas do Brizola e só um, Nairobis Nagae, ex-prefeito de Angra dos Reis, votou a favor.

Como nosso Comandante faz falta nesses tempos turbulentos de hoje.

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