Bruno Covas X Márcio França: o segundo turno que São Paulo aguarda nas eleições municipais

A definição pró-Bruno Covas na direita

O bolsonarismo segue sendo a maior força política da direita. Como se viu nas eleições de 2018, candidatos que pouco pontuavam nas pesquisas para governos estaduais surpreenderam e foram eleitos às custas de sua forte vinculação ao bolsonarismo, mesmo desconhecidos e situados em pequenos partidos, superando a votação de candidatos da direita tradicional, como o PSDB e o DEM. Uma das poucas exceções a esse fenômeno ocorreu em São Paulo, onde Bolsonaro obteve quase 70% dos votos válidos no segundo turno, a despeito de não ter tido nenhum palanque aliado no pleito estadual. Quando João Doria, do PSDB, estava na iminência da derrota no segundo turno, agarrou-se ao famoso slogan “Bolsodoria”, conseguindo se eleger em placar muito apertado contra Márcio França (51% vs 49%), graças ao eleitorado dos municípios do interior do estado.

O prognóstico tende a se repetir em favor de colocar os tucanos como representantes da direita no segundo turno das eleições municipais paulistanas, no caso o prefeito Bruno Covas. Em 2018, restou evidente que a direita tradicional (PSDB e DEM) sucumbiu ao bolsonarismo nos estados nos quais não possuía um candidato expressivo na largada da corrida eleitoral. Doria, ao contrário, liderou todas as pesquisas em primeiro turno, se aproveitando da falta de um candidato bolsonarista ao governo estadual, bem como já se postulava como liderança política firmada dois anos antes, por ocasião de sua vitória no pleito municipal de 2016. Alckmin, no plano nacional, sempre se manteve atrás de Bolsonaro, de modo que todo eleitorado da direita se agarrou ao bolsonarismo no enfrentamento ao PT, deixando o PSDB fora do pódio pela primeira vez desde 1989.

Portanto, a experiência eleitoral recente demonstra que o escudo da direita tradicional ao bolsonarismo é o lançamento de candidaturas com potencial de votos previamente cristalizados, pois se largarem do início com candidaturas nanicas, como qualquer outro candidato apoiado por Bolsonaro, perderão a vaga no segundo turno em virtude do conteúdo apelativo do bolsonarismo.

Nesse sentido, o atual prefeito Bruno Covas, que pontua cerca de 20% nas pesquisas de intenção de votos, tende a lograr êxito, já que Bolsonaro está sem partido e sem candidato no pleito municipal. O presidente, ainda, conta com avaliação negativa na capital de cerca de 48%, ante 25% de avaliação positiva e 26% de avaliação regular.

O eleitorado bolsonarista, portanto, será dispersado entre vários candidatos. Filipe Sabará, do NOVO, é uma das prováveis hipóteses. Apesar do NOVO atualmente se posicionar contra o Governo Bolsonaro, Sabará é próximo de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Confirmada essa tendência, Sabará poderá alcançar um patamar de 15% a 20% dos votos válidos, porém será limitado pela estabilidade do prefeito Bruno Covas.

Apesar da ferrenha oposição do bolsonarismo a Covas e Doria, em SP, o prefeito se beneficiará de parte do eleitorado bolsonarista, sobretudo àquele que sempre foi fiel aos tucanos antes da ascensão do bolsonarismo, em rejeição ao petismo. No caso, Covas logrará um patamar de votos entre 25% a 30% dos votos válidos.

Russomanno, cujo partido, o Republicanos, tornou-se abrigo dos filhos de Bolsonaro até a viabilização do Aliança pelo Brasil, pode ser o depósito de voto dos bolsonaristas ao invés de Filipe Sabará, do NOVO. Contudo, o proprio Russomanno sequer confirmou sua pré-candidatura, havendo rumores de composição como vice na chapa de Covas. Em todo caso, pode inverter de papel com Sabará, o qual seria desidratado sem o apoio do bolsonarismo.

Por fim, em decorrência da polarização de Covas com o potencial candidato do bolsonarismo, os demais candidatos desse polo ficarão restritos de 1% a 5% dos votos. Nesse bloco, por sua influência digital, Mamãe Falei deve se sobressair em face de Joice Hasselmann, agora adversária de Bolsonaro, e Andrea Matarazzo.

A definição pró-Marcio França na esquerda

Márcio França, com o apoio do PDT de Ciro Gomes, larga nas pesquisas com cerca de 10% dos votos, em virtude do espólio da eleição para o governo estadual em 2018, quando venceu Doria na capital com quase 60% dos votos válidos, com expressiva votação nas periferias da zona leste e da zona sul.

Guilherme Boulos, do PSOL, larga com cerca de 5% e deve ser emplacado pelo eleitorado esquerdista, sobretudo o universitário, já que a candidatura do PT, com Jilmar Tatto, não agradou à maioria dos militantes do próprio partido, cuja definição ficou a cargo dos dirigentes dos bairros, em prévias indiretas. Tatto deve largar com cerca de 2% das intenções de votos.

Os irmãos Tatto, contudo, sobrevivem do clientelismo com 4 cargos eletivos, somando dois vereadores, um deputado estadual e um deputado federal. Possuem forte influência na periferia do extremo sul de SP. É de lá que deve sair o grosso dos votos de Jilmar Tatto. Além disso, Lula funcionará como cabo eleitoral, cuja eficiência, entretanto, é bem menor que no Nordeste, mas, ainda assim, influenciará no crescimento de Tatto nas pesquisas.

Esse ligeiro crescimento de Tatto limitará o crescimento de Boulos, que ficará a cargo da candidatura mais ideológica da esquerda. Na reta final da campanha, quando o patamar de ambos estiver equiparado na casa dos 5% a 10%, os dois estarão muito longe de obter uma vaga no segundo turno. É nesse momento que parte do eleitorado progressista se somará a candidatura de Márcio França, da mesma forma como ocorreu ao final do primeiro turno da eleição estadual de 2018, quando o PT também lançou a fraca candidatura de Luiz Marinho.

Tatto poderia se fortalecer com a indicação de Marta Suplicy, agora no Solidariedade, como vice-prefeita. Ocorre que a tendência é que dificilmente Marta componha uma candidatura isolada dentro de seu próprio campo político, fora a sua rejeição por vários membros da direção petista.

Márcio França, portanto, deve saltar dos 10% e crescer para um patamar de votos em torno de 20% a 25%, chegando ao segundo turno. Vale ressaltar que França obteve expressiva votação nas periferias da capital, inclusive contra o próprio PT, já no primeiro turno da eleição estadual de 2018. No segundo turno, apesar da campanha “BolsoDoria”, as periferias votaram em massa no “BolsoFrança”, com cerca de 70% dos votos válidos para ambos contra Fernando Haddad e João Doria, respectivamente, nas disputas para presidente e governador. No periferia da zona leste, por exemplo, Haddad venceu em apenas um bairro no segundo turno contra Bolsonaro.

Por Guilherme do Lago Zenni, graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e membro da JSPDT/SP, com Gabriel Cassiano.

Bruno Covas X Márcio França o segundo turno que São Paulo aguarda nas eleições municipais

2 Comentários

  • Se o Major Olimpio entrar, ele desidrata o Covas e o provável candidato pró-bolsonarismo, já que ele é de um campo da direita que enfrenta o Psdb paulista e o Bolsonaro. O cinturão BH, SP e RJ vai ser a alavanca para o Ciro em 2022, não existe nenhum outro grupo organizado para enfrentar com candidaturas competitivas nas três principais escolas eleitorais a nivel municipal no momento, se juntar PoA, Curitiba, Salvador e Fortaleza, Ciro larga com vantagem real.

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  • Em um eventual segundo turno entre Márcio França e Bruno Covas o França provavelmente será eleito pois ele teria o apoio da esquerda (o eleitorado de esquerda é grande na cidade de São Paulo, inclusive o petista Fernando Haddad recebeu 47% dos votos válidos na cidade de São Paulo) e também de grande parte da direita bolsonarista, que passou a ver no tucano João Doria um adversário maior que o próprio PT e por isso votariam em Márcio França só para tirar o PSDB da prefeitura e enfraquecer Doria pois uma derrota de Bruno Covas afetaria seriamente o projeto presidencial de Doria, podendo tirar até a hegemonia deste no próprio PSDB paulista, fortalecendo o grupo liderado por Geraldo Alckmin que não vê Doria com bons olhos desde 2018.

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