GILBERTO MARINGONI: A esquerda e o empresariado

A bela reportagem de Malu Gaspar sobre a amizade entre Lula e Emílio Odebrecht, publicada na Piauí de janeiro, mostra algo muito além da proximidade do PT com as empreiteiras, ocorrência comum à maior parte dos governos do planeta.

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Lula e o empreiteiro Emílio Odebrecht

Emerge do texto algo mais grave. O partido não tinha nenhum projeto estratégico que envolvesse a chamada burguesia brasileira. Não havia um programa de desenvolvimento, a não ser iniciativas isoladas como a política de conteúdo nacional, de compras governamentais ou de campeãs nacionais. Eram marcos positivos, porém isolados e desarticulados. Inexistia uma visão estratégica de aumento da capacidade produtiva e alocação de investimentos estratégicos.

O boom das commodities e a elevação dos salários possibilitaram a expansão do mercado interno no segundo mandato de Lula. O que parecia ser uma diretriz de governo logo virou fumaça com o vezo fiscalista do primeiro Dilma e o viés francamente recessivo do segundo..

Aparentemente, o PT via no empresariado apenas o que outros partidos também enxergavam: abastecedores de caixas de campanha. Não é crime, mas denota visão curta.

Apesar de terem condutas políticas distintas, Vargas, Juscelino e Geisel tinham na burguesia interna pontos de apoio fundamentais para seus projetos desenvolvimentistas, com visões de futuro claras.

Não vai aqui moralismo algum em relação ao Partido dos Trabalhadores. O problema evidencia a ausência de projeto nacional que alcança também outros partidos da esquerda brasileira, como PSOL, PSB e Rede. O PDT e o PCdoB esboçam algo nessa direção, mas de forma insuficiente.

É urgente abrir esse debate para a formulação de alternativas para o futuro com mais fôlego do que compor chapas para disputar prefeituras.

Por Gilberto Maringoni

2 Comentários

  • Não poderia concordar mais! Eu mesmo já escrevi isso diversas vezes aqui mesmo neste Disparada. Só que toda vez que surge este debate necessário, surgem também as vozes radicais que solapam a ideia de moldar o empresariado segundo os interesses do Estado, afirmando que isso é intrinsecamente impossível e perda de tempo. Advogam por uma inviável passagem revolucionária a um socialismo brasileiro, para o qual nada nem ninguém no Brasil tem acúmulos nem minimamente suficientes.

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  • Sim. Infelizmente, essa é uma verdade intrínseca da conjuntura econômica deste país desde a redemocratização. Os partidos de esquerda, sobretudo o PT, não souberam e não quiseram esboçar um projeto politico econômico palpável e emergente para a situação socioeconômica brasileira.
    Posto isto, foram incapazes de frear a primeira crise econômica deste século, dando espaço para a direita mais escrota, que inclusive, perpetua as mesmas práticas.

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