GILBERTO MARINGONI: Caetano é vítima de infâmia

Por Gilberto Maringoni – Caetano Veloso está sendo usado numa campanha de interdição do debate e de cancelamento, como virou moda falar.

Caetano é acusado de “stalinista” por gente de má-fé extrema. Caetano não é e nunca foi stalinista, até por ser anacrônico classificar alguém como tal, fora do contexto histórico em que viveu Josef Stalin. Pode-se debater a vida e o tempo do líder comunista à exaustão. Só penso ser pauta para lá de lateral no Brasil de hoje, a não ser para uma bolha apartada das urgências da vida.

FALEMOS DE CAETANO. A polêmica começou por ele recusar o epíteto de “liberalóide” em uma entrevista concedida a Pedro Bial. O que Caetano faz é – genericamente – mencionar experiências socialistas que passou a respeitar. Genericamente. Na entrevista, Caetano cita Jones Manoel e remete ao livro “Contra-história do liberalismo”, de Domenico Losurdo. Ponto.

Losurdo foi um sólido intelectual comunista italiano, com pesquisas nos campos de história, política e filosofia.

ACONTECE QUE, ENTRE OUTROS, Losurdo escreveu uma importante avaliação histórica sobre Josef Stálin (1878-1953). Como o autor italiano se recusa a fazer o terraplanismo usual contra o georgiano e usa a métrica da honestidade intelectual para avaliar a História, logo Losurdo é stalinista (Ninguém entre seus detratores se lembra que Losurdo critica firmemente os processos de Moscou e o terror. Mas também examina os inegáveis avanços sociais da URSS na primeira metade do século XX). Não importa, o rótulo é grudento.

Pontuemos aqui: Stálin não estava em pauta na conversa de Caetano. Mas quem ele pensa que engana? Caetano disse não ser liberalóide, mas será que ninguém percebe que isso está a um passo de defender execuções, matanças a granel e uma ditadura feroz? Até os tocos queimados do Pantanal sabem disso.

A fieira fica assim: Caetano fala de Jones que fala de Losurdo que – entre dezenas de assuntos – fala de Stálin. Logo, todo mundo é stalinista! Lacrou!

O PROBLEMA PARA OS QUE ATACAM Caetano-Jones-Losurdo é que defender o liberalismo real é muito complicado. Veja o pacote que segue no mesmo embrulho: racismo, trabalho escravo, Paulo Guedes, queimadas na Amazônia, Trump, Líbia, Afeganistão, Iraque, Guantanamo, crise de 2008, pandemia etc. etc. O liberalismo traz consigo uma imensa zona cinza, um kit gray. Pesado. É mais fácil criar um espantalho e inverter a pauta.

E a inversão se dá acusando Caetano de ser partidário dos processos de Moscou, dos gulags e da matança de 20 milhões de comunistas russos (não importa que não existissem tantos seguidores do marxismo-leninismo assim). Caetano revelou-se vil ao revelar que seu ídolo é alguém comparável a Hitler…

Pronto, está criada a rota alucinógena da lacração e do cancelamento do debate. Sigamos, nós grande mídia, a defender cortes de gastos, austeridade, desmonte do Estado etc. etc. Acabou o ruído. Quem daqui por diante atacar o liberalismo já tem um nome: stalinista! Stalinista de Ipanema!

Não contavam com nossa astúcia!

(DISCUTIR R$ 600 NA MÃO DO POVO até o fim da pandemia, nem pensar! Vamos lacrar em cima de Stálin, que é muito mais negócio).

1 Comentário

  • “Losurdo critica firmemente os processos de Moscou e o terror. Mas também examina os inegáveis avanços sociais da URSS na primeira metade do século XX”
    Então alguém que mencione os inegáveis avanços sociais da Alemanha ao longo dos anos 1930 (controle da inflação, pleno emprego, recuperação da indústria nacional) também tem salvo-conduto para não ser chamado, por default, de apologista do nazismo?

    A experiência histórica mostra que as ditaduras (nazismo, stalinismo, Brasil de 1964) suprimem a capacidade do indivíduo, mormente o mais fraco, de se defender do estado, enquanto que o liberalismo mantém aberta a via pela qual o movimento popular organizado consegue impor limites pelo menos pontuais à atuação do estado. Essa posição de que existe “ditadura do bem”, francamente, é coisa de transtornado que quer o conflito pelo conflito. Mesmo os “pragmáticos” que defendem a ditadura na esperança do estabelecimento de infinitas empresas públicas que venham a se tornar cabides de emprego e fontes de roubalheira, estão apenas defendendo um sistema que manterá e usará a capacidade de esmagar essas mesmas pessoas que defendem a sua implantação. Não foi outra coisa que aconteceu na brevíssima década lulopetista no Brasil.

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