Da fragilidade à ilusão – o caminho para construir um bolsonarista

Por André Teixeira – Há dias o professor Gustavo Castañon, em texto publicado no presente portal, expôs sua hipótese para o apoio irrestrito de parte do eleitorado a Bolsonaro. Segundo o acadêmico, o componente religioso é central neste apoio, e seu desdobramento caminha para o que podemos entender como uma Dissonância Cognitiva. Por Dissonância Cognitiva entende-se o processo em que um indivíduo é posto diante de fatos que vão de encontro a suas crenças, o que gera desconforto e impulsiona comportamentos de racionalização como forma de manter sua atitude coerente. Imagine seu tio, apoiador ferrenho de Bolsonaro, falando em um almoço de família sobre as virtudes e honestidade do capitão. Quando confrontado com as notícias de rachadinha, por exemplo, muito provavelmente se comportará de forma a menosprezar o fato ou apresentar contra-argumentação que foque em algo considerado pior, em seu ponto de vista, sobre seu adversário. Isso evitará que se sinta um idiota (e que constate o mesmo sobre seus ídolos). Concordando em partes com o diagnóstico de Castañon, creio que o componente religioso em questão é apenas uma das manifestações de um fenômeno maior. Abaixo, tento expor o que imagino ser o componente principal.

A vida em sociedade, para que seja funcional, envolve um acordo tácito entre seus membros. Cada qual suprime em si comportamentos aversivos para o outro como forma de garantir que sua integridade seja preservada e, assim, possibilitar o seu engajamento em ações que lhe garantam conforto e sentido, no limite de sua cultura. Sem essa supressão, torna-se impossível o estabelecimento de relações de cooperação e, consequentemente, criação de condições para um ambiente seguro. É isso que faz com que as pessoas não se agridam para conseguir o que querem. No entanto, quando numa sinalização que aponta para a quebra desse acordo, e o reconhecimento da insuficiência de suas forças para fazer valer-lo, o ressentimento e a angústia se tornam imperativos ao sujeito. Sobra-lhe o resguardo em si e em suas fantasias, que sempre se encaminham a uma autovalorização que amortece a falta de sua suficiência. Dentro deste isolamento em si, torna-se custoso e arriscado expor-se ao mundo tal qual é. Assim, afasta-se cada vez mais do comum, o que impede de compreendê-lo. O descompromisso com o comum de tal sujeito não é derivado da sua negação da realidade, mas sim da falta de compreensão sobre ela.

Percebe-se que a cultura ocidental favorece esse encarceramento em si através de seus valores e costumes. Exemplo maior são as redes sociais e a constante exposição de um mundo irreal, distante, asséptico e preso a uma imagem. Destaco as redes sociais por ser ela ferramenta e palco de uma mudança nesses acordos sociais que são fontes de sofrimento. Nela, que se torna uma extensão da própria pessoa, há uma condição interessante: há a possibilidade de expressão de fantasias e indignações da forma menos custosa possível e com o distanciamento necessário para evitar problemas por isso. Basta apertar um botão para compartilhar e outro para bloquear. Essa é a sensação de conquista da liberdade, principalmente a de expressão, e o reconhecimento de ser alguém que tem algo a dizer, mesmo que não saiba exatamente o que.

Como aponta Castañon, o que está em jogo, a princípio, para o eleitor de Bolsonaro, é a perda de sentido em suas vidas, dado o risco que possui o confronto com as instituições que lhe atribuem um. Para o autor, as principais instituições são a família, política e religião. O que há em comum nessas instâncias para que se configurem como a marca característica do bolsonarismo? Ambas apresentam possibilidades para o subjetivismo moral, ou seja, a ideia de que fatos e o valor atribuído a eles não são objetivos, mas uma construção de cada sujeito na sua relação com a realidade. Comumente, as vertentes que destacam essa forma de atribuição moral são as que enfatizam ao extremo a ideia de indivíduo e seus atributos autoconstruídos como causas de sucesso ou fracasso. Daí ser corriqueiro a esse público ser alvo de coach, influencers, pastores, ou todo discurso que mostre o caminho de como se auto construir melhor. Ao mesmo tempo que põe nos ombros do indivíduo o peso da sua sorte, em termos práticos, também essas instâncias são fontes relativamente seguras de apoio para problemas que porventura o sujeito venha a enfrentar. Cria-se, com isso, um acordo social restrito a um mundo descolado à realidade. Um mundo de ressentidos que, frente a dificuldade de compreender a realidade, cria uma paralela em que seu sentimento de insuficiência é dissolvido. Compreendendo bem essa demanda, estrategistas de extrema direita, como Steven Bannon, exploram os ressentidos e impotentes de setores diversos, colocando-os, com ajuda das mídias sociais, em um gueto próprio onde são valorizados. Essa valorização cria no sujeito autoconfiança suficiente para se arriscar no mundo comum. Daí as pérolas conspiratórias ao nível do terraplanismo. Uma explicação para esse fenômeno é a do efeito Dunning-Kruger.

O efeito Dunning-Kruger é observado quando o sujeito, ao tomar contato com certo conteúdo de conhecimento, o toma de forma parcial, porém acreditando estar plenamente capacitado sobre, manifestando superioridade ilusória. Recentemente, uma pesquisa realizada em parceria entre UFMG, UFPE e North Caroline University durante as eleições municipais na cidade de São Paulo mostra esse fenômeno com maior clareza. Os pesquisadores apresentaram quatro perguntas aos entrevistados sobre a politica local. As perguntas foram:

1) Quem era o candidato apoiado por Bolsonaro nas eleições paulistanas; 2) Quem era candidato a governador em 2018; 3) Quem era o candidato a vice de Bruno Covas e 4) Qual candidato era apoiado por João Dória.

Junto a essas perguntas, os entrevistados também foram indagados sobre quantas questões acreditaram terem acertado. Os resultados demonstram que os apoiadores do capitão (aqueles que avaliaram o governo como Bom ou Ótimo) creem terem mais êxito do que realmente tiveram.

O gráfico abaixo sintetiza o exposto:

Compartilhar fake news, pautar-se por teorias conspiracionistas, negar a ciência, tudo são formas de reforçar a identidade do grupo e, consequentemente, dar sensação de autoridade ao sujeito que se engaja nessas práticas. E autoridade é um poderoso componente que serve como muleta para se esquivar das mazelas do mundo que aflige os “meros mortais”. No fundo, o componente principal ao bolsonarista ferrenho é o medo. Medo do ostracismo, da insignificância e das consequências, já experimentadas, advindas disso. Ser bolsonarista é uma forma de resistir ao mundo real com ferramentas de entendimento limitadas, fantasiosas, que causam danos imperceptíveis a si.

A solução apresentada por Castañon, de maneira sumária, é evitar a guerra cultural e a construção de uma narrativa capaz de dissolver o componente religioso. Creio, assim como o professor, que acirrar essa guerra só reforçará o bolsonarismo, que se alimenta disso. Quanto à narrativa, essa, advogo, deve responder à angústia central de se sentir insuficiente frente um mundo ameaçador e restabelecer seu contato com o comum de maneira mais saudável. A missão maior não é tanto o que fazer, mas sim o como fazer, já que esse exige adaptação às limitações marcantes do público alvo. Tá aí a grande missão dos agentes políticos para 2022. Espero, com toda a minha capacidade de esperança, que consigam concretizá-la. O Brasil e seus problemas não comportam mais fantasias.

Por André Teixeira, formado em psicologia pela PUCSP e atua como psicólogo e analista de saúde

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