O candidato do Lula é o Haddad, mas o candidato do Haddad é o Lula; aí complica

Ao que tudo indica, haja o que houver, o Partido dos Trabalhadores terá candidato próprio para a disputa presidencial em 2022. Mesmo que caia um meteoro no planeta Terra ou mesmo que o mar vire sertão e o sertão vire mar, a única coisa aparentemente imutável no globo é a candidatura do PT à presidência do Brasil, pela 9a vez seguida, uma série que, se confirmada, ultrapassará duas décadas disputando todas as eleições presidenciais diretas no país desde a redemocratização, sempre na cabeça da chapa.

Ocorre que algumas semanas atrás, Lula foi à público para alardear que seu pupilo, Fernando Haddad, é pré-candidato do PT ao cargo. Segundo o próprio Haddad, o ex-presidente teria dito para que ele “colocasse o bloco na rua”, numa analogia carnavalesca em pleno 2021 sem Carnaval e pelo visto, sem muita noção também. O campo progressista assistiu estupefato, quando não indignado, o resultado de escolhas insensatas do PT, em 2018. Temos que superar esse acontecimento respeitando os fatos, a história e povo brasileiro.

Mas no meandros do comando central do maior partido de esquerda (ou centro-esquerda) da América Latina, a culpa é sempre dos outros: seja de quem declarou apoio mas “foi para Paris”, seja dos “fascistas”, termo que muitas vezes é mal empregado, depositando um peso nas costas de quem nem sabe o que é isso e está somente desesperado com a miséria, o desemprego, a violência e roubalheira generalizada na política nacional. Às vezes a coisa chega ao extremo, beirando o insano, e a culpa vira até do povo que “não sabe votar”, no curioso caso de só “sabe votar” quem vota na gente. Ao invés de refletir, repensar, que nada: a postura de parte do PT, em especial no comando central petista foi e é a de que o que ocorreu no Brasil foi única e exclusivamente um complô para perseguir inocentes guerreiros que lutaram e continuam na luta pelo povo brasileiro. Francamente. Vamos esclarecer os fatos.

A Vaza Jato destruiu a credibilidade que restava à Lava Jato. O STF começa a emitir decisões que favorecem Lula em seus processos, e que fique claro, fazendo nada mais que Justiça em relação às flagrantes ilegalidades cometidas por Moro, Dallagnol e sua turma de procuradores do MPF. Lula foi condenado ilegalmente em um processo político no qual o juiz orientava, através de mensagens, as estratégias que a promotoria deveria adotar na acusação. Os responsáveis têm que responder por isso e por várias outras ilegalidades cometidas pela Lava Jato e que atentam inclusive contra a soberania nacional, afinal, estabelecer cooperação e troca de informações sigilosas com agências estrangeiras sem o conhecimento do governo pode – e deve – ser considerado crime de traição à pátria.

Isto dito, não esqueçamos dos inúmeros escândalos e centenas de condenados por inúmeros crimes ao longo desse processo que vivemos nos últimos anos. Teve muita gente que foi pega com a “boca na botija”. Não dá pra negar de forma razoável que nos governos do PT não houve corrupção. Sempre haverá corrupção em qualquer governo, claro, mas houve em larga escala. O que frustrou quem acreditou naqueles que prometeram pra gente que iriam combater os desvios, dando independência para o Ministério Público e a Polícia Federal. A independência foi de fato dada às instituições, de maneira histórica, gerando otimismo. Eu era um dos otimistas.

Ficamos todos frustrados com o que vimos depois, quando ficou claro que o que não mudou foram os esquemas que ocorriam em muitas estatais, muitas delas, que se registre, entregues a outros campos políticos, como o centrão e a própria centro-direita. Ou alguém esqueceu que o partido com mais denunciados na própria Lava Jato é o PP? O resultado disso combinado com a perda de controle sobre as instituições total – um erro evidente – levou à uma politização nítida de Moro e colegas, com rigidez aplicada à petistas e a usual inércia nos processos contra tucanos e políticos de outros partidos. Mas inúmeros crimes foram cometidos por todas as partes, não resta dúvida. Antonio Palocci que o diga, né.

Mas escrevi tudo isso para situar o leitor sobre o meu espanto quando, de repente, Lula lança Haddad. Enquanto inúmeras frentes e alianças são ponderadas e costuradas por diferentes atores do campo político, da centro-esquerda à centro-direita para viabilizar candidaturas com força, base e sustentação política o bastante para derrotar Bolsonaro, o PT, supõe-se, pensa só precisar dele mesmo e de mais ninguém. E com os rumores de possíveis anulações de condenações de Lula, Haddad fez questão de dizer que seu candidato…é Lula. Quer dizer, o candidato do Lula é o Haddad, mas o candidato do Haddad é o Lula. Complicado.

E é nesse cenário surreal que crescem novamente os rumores de que sim, Lula pode ser novamente, pela sexta vez (sem contar 2018), candidato à presidente da República. Importante mencionar que o ministro do STF indicado por Jair Bolsonaro, Kassio Nunes Marques virou notícia por votar a favor de Lula em um dos recursos da defesa do ex-metalúrgico do ABC Paulista, julgados pelo Supremo.

Temos aqui um fato político que o Lulopetismo ignora e em geral rejeita: já se fala em Brasília que tudo que Bolsonaro quer, em crise de popularidade, é ter como adversário o seu antagonista preferido. Sim, Bolsonaro estaria vendo com bons olhos enfrentar Lula nas urnas. Os amigos mais apegados ficam bravos comigo. Dizem ser impossível. Mas respondo que ora, “e o Lula? E o PT?” é o discurso que levou o fascista à presidência. Ou não é?

É na base do antipetismo doentio – que não encontra morada neste que vos escreve – que Bolsonaro se promove e se promoveu nos últimos anos, muitas vezes com a anuência cúmplice de boa parte da imprensa tradicional por possuírem objetivos em comum, não esqueçamos – derrubar o PT. Muito mais pelos acertos do que pelos erros, também faço questão de registrar.

Atual presidente – que venceu Haddad no segundo turno em 2018 -, Bolsonaro é um desastre completo no cargo. O maior deles. Irresponsável, despreparado e depois do que fez e faz durante a pandemia, um genocida, um criminoso internacional que precisa – e vai – pagar pelos seus crimes. Só que Bolsonaro vive de criar e alimentar espantalhos para se manter em evidência e no imaginário do povão e dos seus seguidores fanáticos. E adivinha? O antipetismo semilunático que mira em Lula como “líder do mal” é o maior deles.

Em 2018, eu fiquei muito decepcionado com as decisões do partido que ajudei a eleger e que defendi por mais de uma década, decisões essas que foram fundamentais para que eu me afastasse definitivamente do PT e passasse a apoiar outro projeto para o país, como faço até os dias atuais. E confesso que ver o mesmo desenho sendo rabiscado para 2022, enquanto o país é literalmente destruído, me causa algo um tipo de indignação silenciosa.

Mas que grito nas palavras aqui escritas para que o meu desabafo sirva de algo além da minha imensa frustração, que para não ser inútil, transformo em gasolina para trabalhar e lutar muito, todos os dias, em nome de conseguirmos propor uma alternativa para o Brasil. O nosso povo tá pagando o pato com desemprego, miséria e desespero.

Nossa gente não aguenta mais essa polarização odiosa que está destruindo nossa pátria, separando irmão de irmão e mãe e pai de filhos (as), enquanto assistimos o nosso tecido social se desfazer. Enquanto eu respirar, estarei defendendo o que eu acredito. E hoje, digo com convicção: eu defendo e acredito no Projeto Nacional de Desenvolvimento defendido por Ciro Gomes e o PDT.

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