A aporia de Bolsonaro

A carta divulgada pelo presidente no WhatsApp atesta algo que muita gente já sabia: Bolsonaro não aprendeu o bê-á-bá da ciência política. Quem ainda não entendia como era possível um deputado federal com 28 anos de mandato aprovar apenas dois projetos a resposta apareceu. Bolsonaro não está para democracia, assim como a democracia não está para Bolsonaro.

O presidente foi eleito com um discurso apolítico. O procedimento nesses casos é de criar uma identidade que sobrevoa a classe política em um movimento suprapartidário, como se ele pleiteasse um cargo político para mostrar para os políticos que não precisa ser político para ser político. O candidato se autocoloca em um estágio mais elevado de virtudes morais e consciência dos problemas do país, para se apresentar como uma solução não política.  Na prática isso é o mesmo que querer virar político para não fazer política. Para a filosofia aristotélica, essa confusão recebe o nome de aporia, uma contradição de base que impede que um problema seja racionalmente resolvido. Não é possível em uma república, menos ainda em uma democracia, ser político sem fazer política. E mesmo que esse discurso apolítico seja comum para ganhar votos, especialmente em momentos de crise política e econômica, a governabilidade não se sustenta sem a política. Fazer política não é sinônimo de conchavos, toma lá dá cá e corrupção, como insiste em dizer o presidente, trata-se na verdade de ouvir e atender em negociação os interesses dos principais grupos e organizações da sociedade. Algo inevitável para manter a ordem e controlar as divergências entre grupos e pessoas. Para o cientista político Bernard Crick, quando em democracias os políticos populistas se apropriam desse discurso apolítico para vencer as eleições, para conseguir governar sobram-lhe apenas duas alternativas: ou ele rapidamente abandona o discurso eleitoreiro e faz uso dos métodos políticos para governar, ou ele implementa um regime totalitário e ignora a democracia. Sem essas duas saídas, a governabilidade nesse contexto se perde, o governo se congela. Esse é o grande entrave de Bolsonaro, ele não pode fazer nenhum dos dois, nem abandonar o discurso apolítico, nem implementar um regime totalitário.

Isso acontece porque o presidente se seduziu pelo seu próprio coeficiente eleitoral. Em sua análise, os 57 milhões de votos obtidos no segundo turno são de pessoas que estão sintonizadas com seu projeto de governo. Assim, ele acha que dizer: “nosso governo foi eleito e é liberal conservador” é o suficiente para que todos os outros grupos se sujeitem ao seu poder e aceitem suas pautas sem contestar. Em seu sonho democrático, ele acha que o congresso não vai resistir a força de um governante/de um governo preferido por tanta gente. Porém, o que ele não leva em conta é que destes 57 milhões de votos, existe um percentual considerável de votos dados a ele exclusivamente pelo antipetismo, mais os votos angariados por notícias falsas e votos conquistados por nenhum critério político, apenas pelo movimento natural do modismo. Soma-se ainda o elevado índice de 42 milhões de pessoas que votaram em branco, nulo ou se abstiveram. Também se computa nessa conta de brasileiros que não apoiam o governo os restantes 47 milhões de votantes que escolheram seu concorrente. Logo, equacionando tudo, o percentual de eleitores dispostos a apoiar incondicionalmente o governo é bastante reduzido, mas ao mesmo tempo é bastante leal e politicamente ativo. São pessoas que se expuseram, vestiram camisa, brigaram com familiares e amigos, mistificaram e sacralizaram o personagem caricato e apolítico de Bolsonaro. Assim como Bolsonaro acreditou que Deus o escolheu, esse pequeno grupo também acredita. Outrossim, esse grupo, embora me pareça muito claramente que seja a menor fração dos eleitores do presidente, é o que dá o rótulo, a identidade e a uniformidade aparente para todos os 57 milhões de eleitores do presidente. Formam em conjunto a tribo dos cidadãos de bem, que não espera outra coisa do presidente que não seja a manutenção desse personagem apolítico e um governo particularizado para os anseios da restrita tribo.

Assim, Bolsonaro vive um grande dilema, pois ao crer que representa os 57 milhões de pessoas confia ter autoridade necessária para submeter o Congresso a sua influência e, a partir daí, corresponder às expectativas dos seus eleitores.  Age como se o Poder Executivo, só por ser ocupado por ele, não pode ser contrariado. Entretanto, o Congresso que tem ciência de que representa uma quantidade muito maior de eleitores que o presidente, não está mais disposto a alimentar seu ego de herói escolhido por Deus para salvar o Brasil dos políticos. O Congresso pressionou e esperou por cinco meses que o presidente desenvolvesse a civilidade da ação política, mas pelo visto não espera mais. Com isso, percebendo que já está começando a ficar politicamente isolado, sem apoio inclusive de muitos de seus pares partidários, o presidente Bolsonaro divulga no desespero essa carta melancólica. O teor da carta tem dois sintomas: de golpe e de renúncia. A pretensão de apoio popular para um golpe se mostra ao atacar as instituições com a estratégia de campanha: nós contra eles, sendo “nós” o povo e “eles” os políticos, dando a falsa sensação que um no caso de um eventual  golpe dado pelo presidente, seria fruto de um desejo popular; na outra ponta a carta acende um sintoma de desistência do governo. Vem como estratégia apelativa para comover a sociedade a se posicionar contra os poderes legislativo e judiciário em apoio a força fantasmagórica do poder executivo. Trocando em miúdos é tirar da ação política e levar para o autoritarismo ou chantagem.  Qual será o próximo movimento? Impossível prever. O que parece bastante evidente é que o governo do Bolsonaro não tem mais direção a tomar, sem capital político, sem habilidade política, o governo está declinando sem sequer ter alçado voo.

Por Borges Lima.

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