RICARDO CAPPELLI: “Atropelamento” da UNE deveria servir de lição

O governo federal colocou no ar a nova identidade estudantil. Será digital, um aplicativo que pode ser baixado pelo celular. A Globo fez questão de exibir a “novidade” comparando com a “antiga” carteirinha da UNE. A nova identidade estudantil, gratuita. A da UNE, 35 reais mais o frete.

Quando sai da presidência da UNE no final do século passado, deixei uma opinião escrita com meus dirigentes políticos. Defendia que a carteira estudantil fosse gratuita e universal. A ideia foi tratada como fora da realidade e excêntrica.

Na república estudantil onde morávamos em São Paulo, encontrei numa estante – certamente esquecido pelo proprietário do apartamento alugado – o livro “A Estrada do Futuro”, de Bill Gates. No livro, o bilionário contava como desbancou a IBM transformando o sistema operacional da Microsoft no padrão mundial.

Sua visão foi simples. Imaginou todos tendo um computador em casa, e usando seus softwares. Para a época, parecia fora da realidade. Ele buscou algo simples, capaz de fazer qualquer pessoa mexer num computador.

Sabia que seria pirateado? Claro, e talvez até desejasse isso. Quanto mais cópias espalhadas, melhor. Vislumbrou ser a ferramenta para uma mudança cultural profunda. Virar o padrão mundial era seu objetivo estratégico.

Se todos no mundo estivessem em plataformas de sua empresa, seu poder seria infinito.

A leitura mexeu com minha cabeça. A analogia com nossa carteirinha foi instantânea. Tínhamos o mais precioso, leis definindo que nossa carteira era o padrão, a chave para acessar um direito. E cobrávamos por ela?

Como seria se todos tivessem gratuitamente a carteira estudantil? A UNE teria os dados de milhões de estudantes brasileiros! Emails, telefones, perfil acadêmico e socioeconômico, conheceria suas preferências e uma série de informações ilimitadas! Poderia falar com todos com apenas um clique! Um comício para milhões com um simples aperto de botão!

Quem financiaria a carteira? Quem manteria a entidade? Qual o valor destes dados? A UNE iria vendê-los? Claro que não! Quanto vale um anúncio num portal acessado por milhares de universitários? Um portal com informações, serviços, grupos de estudo. Já imaginou cada estudante com seu email oficial fulanodetal@une.com.br ?

Qual o poder de compras coletivas de milhares de universitários? Baixaria os preços? A UNE seria força política com um clique, pressão sobre o mercado com uma série de aplicações e possibilidades de receita inesgotáveis, com outro.

Hoje fiquei triste vendo a UNE ser atropelada por um governo de extrema-direita.

O “atropelamento” deveria servir de lição para todas as organizações populares. O mundo está mudando radicalmente. A mais radical revolução tecnológica de todos os tempos está alterando profundamente as relações sociais e as formas de poder e comunicação.

Como disse o visionário McLuhan, “o meio é a mensagem”. Os paradigmas estão desmoronando. E estamos só no começo.

Por Ricardo Cappelli

2 Comentários

  • “O ‘atropelamento’ deveria servir de lição a todas as organizações populares”, a UNE uma organização popular? Cobrando 35 reais por uma carteirinha? Que piada… Ainda bem que agora temos um governo de direita para tornar acessível e popular aquilo que nenhuma organização aparelhada pela EXTREMA- esquerda permite ao filho do operário ter acesso.
    PS: eu não sou robô, ok?

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  • Algo de grande e maravilhoso nisso tudo, a falência preestabelecida da UNE. Uma organização criminosa e terrorista que se infiltrou na Educação do Brasil para propagar ódio e desmonte dos princípios sociais. Amei o desmonte da UNE. Tchau queridos!!!

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