RICARDO CAPPELLI: Bolsonaro vai encurralar a oposição?

Os vereadores formam o batalhão de infantaria da luta política. São eles que entram de peito aberto na selva da disputa eleitoral. O embate é individual, pessoal e intransferível. Não tem marqueteiro que resolva. É disputa de vida ou morte, homem a homem.

Certa vez, durante uma campanha eleitoral, sentei para almoçar num restaurante na Baixada Fluminense. Na mesa ao lado, vereadores “cascudos” conversavam sobre suas reeleições.

“Esse Lula é um gênio. A cada quatro anos eu dou 50 reais para cada eleitor meu para garantir o voto. Eu só dou no dia da eleição. Lula passa quatro anos dando 120 reais todo mês. O cara é imbatível, virou mito”, disse um dos edis sem saber que era ouvido.

O Bolsa Família beneficia cerca de 14 milhões de famílias, atingindo 57 milhões de brasileiros. O valor médio do benefício é de 191 reais.

O auxílio emergencial deve injetar 300 bilhões na economia. Já beneficiou 66,2 milhões de brasileiros, multiplicando a renda dos atendidos em mais de 120%.

O impacto na aprovação do governo federal é visível. A oposição previu que aconteceria, mas se agarrou na ideia de que o apoio, assim como o benefício, é passageiro. Será?

Na dúvida, Bolsonaro está tentando garantir sua perenidade. O objetivo central do Planalto neste momento é encontrar uma fórmula fiscal que viabilize uma espécie de continuação.

O Bolsa Família custou 34 bilhões aos cofres públicos em 2019. Qual seria o impacto fiscal de ampliar o benefício médio e o perfil dos beneficiários, mantendo a sensação de um “auxílio emergencial permanente”? É aí que entra a discussão sobre novos tributos, como a volta da CPMF.

Paulo Guedes parece ter sido convencido da equação política. O que são alguns bilhões de gastos adicionais para que o projeto ultraliberal ganhe um conforto de popularidade?

O Programa Renda Brasil, provável substituto do Bolsa Família, cumprirá este papel. Para viabilizar a operação, alguns programas devem ser extintos. A oposição vai votar contra um programa de renda básica?

Esta política faz parte da agenda liberal no mundo. A RBU – Renda Básica Universal é a pauta de Bill Gates, Jeff Bezos e seus seguidores do Vale do Silício. Um grande “colchão de morfina” é a “solução generosa” do capital para o crescente exército de excluídos “inimpregáveis”.

Se os liberais vão cuidar dos pobres, o que fica para a oposição?

Parte do chamado “campo progressista brasileiro” abandonou Celso Furtado, Ignácio Rangel e a necessidade de reformas estruturais. Ignora a centralidade da questão nacional para viver da “teologia da pobreza”.

Um novo “pai dos pobres” pode estar a caminho. Se o plano der certo, a oposição terá que se reinventar. Pode ser bom.

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