RICARDO CAPPELLI: Foi calculado

Vamos reconstituir a cena do “crime”. No sábado de carnaval seu principal opositor sai da cadeia para o velório do neto, uma morte prematura e traumática que comoveu o país.

As cenas de Lula caminhando de cabeça erguida e acenando para apoiadores são de um verdadeiro gigante, que demonstra estar muito vivo no imaginário popular.

A reação do “protofascista” Eduardo Bolsonaro – até Mussolini teria vergonha dele – são rejeitadas de forma áspera por vários formadores de opinião liberais.

Nos dias seguintes, durante a festa da carne, o presidente é exaustivamente lembrado nos blocos e na avenida. “Ei Bolsonaro, vai tomar no c…”, ou “Ai, ai, ai, Bolsonaro é o c…” viram os hits do carnaval.

No sambódromo, escolas do grupo especial denunciam os assassinatos da ditadura militar, exaltam Marielle e consagram o bode nordestino vermelho dando coices nos coxinhas.

A celebração “mundana” é a apoteose da diversidade, do respeito às diferenças, da alegria da integração no paz e amor. São estes os valores que sustentaram o resultado das últimas eleições?

Vamos relembrar o episódio do #EleNao. O movimento tomou conta do Brasil. A esquerda vibrou e acreditou estar num momento de virada. Quando vieram as pesquisas “ele” cresceu. Como? Disseminaram imagens de mulheres nuas, pessoas peladas e todo tipo de exagero nas redes para destruir o significado do movimento. Sequestraram um significante deturpado numa manobra a favor do bolsonarismo.

As cenas escatológicas dos rapazes publicadas no Twitter seguem a mesma lógica semiótica da guerra em curso no Brasil. Se o carnaval me ataca, ele é o inimigo a ser desmoralizado e aniquilado. Loucura?

Quantas pessoas rejeitam o Carnaval? O que os evangélicos pensam a respeito? Como conservadores reagiram vendo as imagens postadas pelo presidente? Bolsonaro correu risco? Não há dúvida. Mas é preciso reconhecer que eles jogam e apostam pra valer.

Fraturar a sociedade é um projeto. Estes movimentos, calculados, cumprem este objetivo. Na democracia existe maioria e minoria, que se complementam num contrato social. No fascismo, há apenas ditadores e inimigos que devem ser aniquilados.

A disputa é entre civilização e obscurantismo. Não é uma disputa clássica entre liberais e socialistas. O objetivo é reescrever a história destruindo valores consagrados do humanismo. Querem quebrar a espinha dorsal de nossa brasilidade.

A “Lava Jato” da educação será parte desta guerra cultural, deste enfrentamento civilizacional que tentará nos transformar no paraíso mundial dos “terraplanistas”.

Em nome da democracia e da história de nosso país, Liberais, Democratas e Socialistas deveriam sentar e conversar.

Não há ilusão quanto à convergência nas pautas econômicas. Mas é pouco provável, dada a agressividade dos ocupantes do Planalto, que ela seja suficiente para manter unida por muito tempo uma base social ampla em torno do presidente.

Em tempos sombrios, falar o óbvio é necessário. Se o projeto deles é dividir a sociedade, o nosso projeto deveria ser unir, partindo de pautas mínimas, amplas, capazes de recolocar o país no rumo da democracia.

A bandeira democrática erguida em torno da questão nacional é a que mais temem os fascistas. Já passou da hora dela ganhar a centralidade que o momento exige.

Por Ricardo Cappelli

1 Comentário

  • Quem acreditou estar num momento de virada, foram os que vivem na bolha, fora da realidade, no caso os inconformados. “ele” cresceu. Como? Tomando uma facada na barriga.
    Na democracia, se aceita a derrota e volta-se pra base, reconhece os erros e tenta acertar da próxima vez, não existe sentar pra conversar.
    Dividir a sociedade, foi a especialidade dos antagonistas, quando se luta por minorias em detrimento do indivíduo, já se está criando uma divisão onde todos devem ser iguais.
    Bolsonaro para virar um fascista, não precisa de nenhum decreto, basta por em prática o que está escrito na nossa constituição e fazer as leis serem cumpridas exatamente como já estão escritas. Lugar de bandido é na cadeia, todos são iguais perante a lei, cantar o hino nacional nas escolas uma vez por semana, crimes de maior e de menor potencial ofensivo serem punidos, contravenções penais e outras ditas leis que não pegam, fazer pegar, porque o certo é certo, mesmo que ninguém o faça e o errado é errado, mesmo que todos estejam fazendo. Essa narrativa de arrependidos, além de não colar, não serve pra nada, é o mesmo auto engano da virada do Haddad que nunca existiu. Aceita que dói menos.

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