RICARDO CAPPELLI: As guilhotinas estão a caminho

O crescimento exponencial dos óbitos tornará a situação de Bolsonaro insustentável? O fim do auxilio emergencial cavará a sua sepultura? O sistema político irá decapitá-lo?

Jair “Robespierre” chegou ao poder prometendo acabar com a ineficiente e corrupta “monarquia da Nova República”. Os jornais da família “Marat-Marinho” incendiaram o povo contra o sistema. Manchetes suplicavam: “Cabeças, mais cabeças!”

Quando não tinha mais pescoços de inimigos para cortar, Messias passou a conduzir à morte seus aliados – a história das revoluções é pródiga em processos de depuração. O poder vai ficando cada vez mais concentrado até se estabelecer imperialmente, ou cair vitimado pela doença da paranoia isolacionista.

Não é inteligente fazer com que todos se sintam ameaçados. Quando o jacobino anunciou uma nova lista dos “sem-cabeça”, sem revelar seus nomes, sentiu o peso do metal afiado sobre seu próprio pescoço.

O movimento de Bolsonaro com o Centrão é uma reação preventiva. Depois de atirar em todos de forma indiscriminada, o capitão parece ter visto o brilho da lâmina se aproximando.

A outra ameaça que ronda a cabeça do presidente é a crise humanitária.

Entramos na primeira semana do pico epidêmico com o número de óbitos subindo. Ninguém consegue indicar quando alcançaremos, quanto tempo durará e em qual patamar será o nosso “platô”.

Sem vacina, as mortes viriam de qualquer jeito? O isolamento salvou milhares de vidas? A disputa política já está em curso, apesar da ciência ser categórica no apoio às medidas defendidas pela OMS.

Os mortos irão decapitar o presidente? Cabeças de outros governantes irão para a guilhotina? O governador do Amazonas já enfrenta um processo de impeachment. Circula que a CGU e a ABIN estão procurando eventuais desvios nos estados. Tem gente se vestindo de carrasco de todos os lados.

Por último, a guilhotina “arroz-de-festa” em processos revolucionários: a fome. Ela foi decisiva para que a cabeça de Luis XVI rolasse. A agenda de Guedes foi engolida pela pandemia. Será difícil equilibrar o gasto público da popularidade com os desejos do mercado.

Judiciário, MP e outras corporações também resolveram trocar tapas em Paris. Toffoli critica o ativismo de Alexandre de Moraes. Em cada estado, dependendo do juiz, o bloqueio total das atividades é bom ou ruim. Ninguém se entende.

Em momentos de crise sistêmica – humanitária, política, econômica e social – o povo costuma clamar por uma mão forte, capaz de redefinir um rumo, seja ele qual for.

Jair “Robespierre” não esconde de ninguém sua intenção de virar imperador.

Para quem acredita que sua cabeça em um cesto – seria o terceiro degolado após a redemocratização – terá como consequência natural o triunfo da democracia, um alerta da história: pode dar Napoleão.

1 Comentário

  • Falta um elemento básico nessa analogia com a Revolução Francesa (quem dera!): a existência de uma corrente revolucionária, de uma vanguarda organizada – como a burguesia francesa o foi naquela ocasião, ao assumir o papel diretor da revolução burguesa – capaz de arrastar atrás de si a maioria dos trabalhadores e das camadas populares brasileiras. O Brasil está lotado de analistas políticos, muitos deles supondo ser factível implementar um programa de mudanças contrário aos interesses das elites dominantes, respaldado apenas na ilusória autorização das urnas. O que o momento recomenda é a atuação de uma vanguarda militante em meio ao povo, mobilizando-o, organizando-o e conscientizando-o para ser o protagonista da resistência ao golpe fascista em curso e das transformações democráticas de fundo que a sociedade brasileira reclama. O que a realidade brasileira está ensinando de forma evidente é que sem a participação ativa das massas populares, contando apenas com o voto passivo dos que comparecem às urnas, nenhuma mudança será factível. Todo projeto de país, seja ele de inspiração keynesiana ou socialista científica, será sempre barrado pelas forças da reação a serviço dos interesses das nossas classe dominantes, que não desejam nem jamais aceitarão que se toque em seus privilégios, sendo inútil apelos ao seu racionalismo, às virtudes de um projeto nacional desenvolvimentista, etc. Somente os trabalhadores e o povo têm interesse objetivo em romper com o sistema politico, econômico e social vigente, não bastando, entretanto, convencê-los da justeza de um outro projeto de país, sendo, mais importante ainda, convencê-los a lutar pela sua implementação, a derrubar as bastilhas modernas com suas próprias mãos.

    0

    0

Deixe uma resposta