RICARDO CAPPELLI: Não olhem para o “mágico”

Nos programas eleitorais do segundo turno tanto Bolsonaro quanto Haddad usaram Lula. Qual dos dois errou? Os dois acertaram?

A cartola, a varinha, o show de luzes, meninas lindas e o permanente jogo de mãos e palavras têm apenas uma única intenção: atrair seu olhar para o secundário enquanto tudo acontece sem você perceber (“décimo terceiro para o bolsa família”). Quanto mais você olha para as distrações, menos vê.

Quem define a agenda da campanha ganha a eleição. Quem pauta, ataca. Quem responde fica na defensiva, se explicando reiteradamente.

Como acusar de ser o grande promotor da violência um homem que foi vítima de uma facada que quase lhe tirou a vida? Ele reagiu dispensando o voto de correligionários agressores e chorando abraçado à sua filha. Preparou bem sua vacina.

As agressões verbais e os palavrões de sua carreira política o aproximam do mundo real. O povo numa situação de estresse se mantém sereno e educado? Quando a leitura é que o sistema, calmo e “plastificado”, nos levou ao precipício, chutar o balde pode fazer sentido.

Uma carta da dupla Haddad-Manu à família brasileira serviria de vacina definitiva contra os ataques no campo comportamental. É perda de tempo ficar respondendo a cada nova mentira. Não fizemos uma carta aos banqueiros em 2002?

Nada assusta mais a classe média do que a economia. Ditadura, tapas nas ruas ou o confisco de seus investimentos no banco? O que temem mais? O Capitão vai repetir Collor e confiscar a poupança? Quais suas propostas para a economia?

O aumento da violência é outro tema central – e espinhoso para esquerda – que precisa ser enfrentado. Não é sensato deixar na mão do opositor o monopólio do discurso da firmeza e da autoridade.

O povo sabe que ele votou contra o direito dos trabalhadores? Conhece “BolsoTemer”? O que aconteceu na última vez que um salvador da pátria foi eleito? Quais as conseqüências na vida das pessoas da aventura do “Caçador de Marajás”?

Com seus erros e acertos, todos sabem como o PT funciona. Reconhecer erros é fundamental para criar conforto para a entrada dos críticos. Querer puxar todos pelas orelhas sem nenhuma autocrítica, apenas pelo argumento da ameaça fascista, é no mínimo pouco inteligente. Onde está a sonhada Frente Democrática do segundo turno? Naufragou na largada? Por quê?

É preciso desconstruir a farsesca novidade “anti-sistema” que ronda o “mito”. Nada assusta mais quem está no limite do que uma turbulência permanente. O povo tem medo de mar revolto. Sabe que sempre é o primeiro a ser jogado para fora do barco.

Duas ou três propostas concretas, com data de realização, números, coisas tangíveis. Abusar do verde e amarelo que tanto irritou os adversários. Dar “férias” a Lula do programa eleitoral.

Assumir compromissos claros de natureza comportamental e firmeza no enfrentamento da violência.

Empurrar de volta o medo para o colo do capitão invertendo a pauta. Confisco de poupança, brigas permanentes com o Congresso, paralisia do país e a vida das pessoas piorando. A economia, a instabilidade e a insegurança são o flanco do tresloucado.

A chance de Haddad está ligada à sua capacidade de pautar a eleição. Empurrar o inimigo para as cordas.

Esqueçam os movimentos do mágico. É ele que precisa olhar para nós.

Por Ricardo Cappelli

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