GUSTAVO CASTAÑON: Alguma coisa está fora da ordem…

O Labor Party Inglês sofreu ontem uma de suas maiores derrotas na história.

A discreta oposição ao Brexit custou caro.

A maioria do eleitorado nas “democracias” ocidentais já decretou o veredito de “culpado” à globalização.

De forma confusa, identifica nos organismos multilaterais a cara visível do que seria uma estrutura de poder abstrata, representante de míticas meia-dúzia de famílias ou grandes corporações internacionais.

A população já entendeu que a globalização está lhe tirando tudo e que os países que ainda prosperam são os que protegem sua economia e desenvolvem sua tecnologia.

Como sempre foi.

O liberalismo econômico globalizante está perdendo o controle da transição para o mundo totalmente controlado da quarta revolução industrial aos 25 minutos do segundo tempo, por dentro, e por fora, para a China.

O problema é que mais uma vez na história a falência do liberalismo econômico encontra uma esquerda liberal que se tornou mais uma perna corrompida desse sistema, e que, para piorar, abandonou a defesa da igualdade para se perder numa agenda de ressentimentos de todos contra todos.

A maioria da população identifica corretamente que no fundo dessa agenda do ressentimento algo mudou em relação a agenda dos direitos civis (que continua a apoiar), embora não consiga identificar que esse algo é a depravação moral e epistêmica do relativismo pós moderno. Sente que grande parte desse discurso é fragmentador, odiento, autoritário e irracional e atenta contra os pilares racionais, jurídicos, científicos e morais, no melhor sentido do termo, da sociedade. Laconicamente, rejeita isso como “radicalismo” na agenda identitária.

Então, só encontra diante de si para lutar contra essas duas coisas a direita tosca, que consegue se diferenciar da direita liberal pró sistema com um discurso tão irracional quanto o relativismo pós moderno.

Esse neofascismo oferece às elites locais a mesma coisa que oferecia nos anos 30: concentração máxima de renda com população controlada por aparato estatal e proteção do Estado para o capitalismo nacional. Ao povo, promete emprego e combate à destruição de sua cultura e forma de vida.

Mas a história não se repete.

A maior parte dos países não tem mais o que se poderia chamar de “capitalismo nacional”, os que tem, possuem (ou são possuídos por) corporações que hoje são multinacionais. Como não rompem com as restrições à emissão de moeda para manterem o valor real dos ativos financeiros, nem enfrentam a necessidade da diminuição da jornada de trabalho por causa da ascensão irrefreável da quarta revolução industrial, esses governos de fake nacionalismo não conseguirão entregar empregos, só sub empregos, nem de fato romperão com o sistema financeiro internacional que impede seu desenvolvimento.

Isso não garante sua apeada próxima do poder, a tendência é que fabriquem terrorismo e mentiras sem fim para roubar cada vez mais direitos individuais e se manterem no governo.

Se a esquerda acha que a bola vai cair naturalmente em seus pés de novo, está muito enganada.

Se não retomar a bandeira nacional, a luta contra a desigualdade, se não parar de jogar junto com os irracionalistas pós modernos e aprender a disputar a rede com dados, seu destino, na minha opinião, será o gueto.

Todo momento histórico tem similaridades com outros passados, que permitem algumas vantagens para aqueles que os conhecem, mas ao mesmo tempo tem características únicas. É para aqueles que conseguem a difícil tarefa de identificar a maioria dessas duas coisas e têm coragem suficiente para expressá-las, que a história costuma dar uma chance de transformá-la.

O Brasil vive algumas diferenças em relação a direita mundial hoje. Seu governo foi eleito pelos EUA nas redes com essa fórmula, mas como é um governo de ocupação, entrega o contrário, abrindo o país à destruição. Aqui temos uma oportunidade, junto com a denúncia da crescente e obscena desigualdade social, a pior do planeta.

Dificilmente Bolsonaro romperá com os interesses de seus donos norte-americanos.

Restará acelerar a agenda de repressão.

O que está acontecendo hoje é a luta para ver quem estará a frente de um mundo totalmente controlado.

Idem no Brasil.

E estamos perdendo de 7 x 1.

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