GUSTAVO CASTAÑON: Como Joe Biden venceu?

Todo fenômeno social é multicausado. São inumeráveis fatores que concorrem para uma vitória eleitoral. Na presente vitória de Biden nos EUA, fatores como o ativismo pelo voto negro na Geórgia, a mudança demográfica no Arizona e o fato de Biden ser natural da Philadelphia, provavelmente são elementos significativos de sua vitória.

Certamente não se tratou de uma vitória de “frente ampla”, como alguns atores políticos brasileiros reivindicaram. Na verdade, essa alegação não faz qualquer sentido. Os EUA são bipartidários e essa foi a mais polarizada eleição de todos os tempos.

Outro foi o fator predominante na vitória de Biden.

Não, não foi a pandemia, embora ela tenha sido fundamental: sem ela Trump não teria se desgastado o suficiente para se tornar derrotável.

O principal fator, na minha visão, foi o abandono do discurso identitário pelo candidato a presidente democrata.

Biden foi escolhido pelo Partido Democrata por ser o candidato menos identificado com essa forma de fazer política.

Apesar de ter cedido aos setores identitários do Partido Democrata com sua candidata a vice (cujo discurso, considerado radical nos EUA, foi fartamente explorado por Trump), ele não foi para as eleições dizendo para votar nele porque ele era mulher, ou defendendo políticas afirmativas. Ele não ameaçou nem satanizou as maiorias.

Ele defendeu políticas universais para todos os americanos, e falou predominantemente de saúde e defesa da ciência, retomada da industrialização no “Blue Wall” e direitos de voto e expressão iguais para todos. Em unir de novo uma nação profundamente dividida.

Foram escolher um homem velho, branco, hetero, cis, do establishment, para derrotar o homem velho, branco, hetero, cis, do establishment (mas politicamente incorreto) Donald Trump.

Não foi fácil. Biden venceu como o presidente mais votado da história dos EUA, mas com o número de votos que terá, Trump será o segundo candidato a presidente mais votado da história dos EUA, nas eleições que estabeleceram o novo recorde absoluto de comparecimento. Sua força ainda é gigantesca.

O identitarismo nos EUA esse ano, estava do lado de Trump, que se recusou num debate nacional a condenar um grupo supremacista branco. Trump é o resultado da reação ao identitarismo de minorias: o identitarismo de maiorias.

Estando dez pontos atrás de Biden antes do início dos protestos deste ano, Trump recuperou parte do terreno com um discurso de “lei e ordem”, excitando o medo da maioria branca dos EUA.

Não se pode repetir o modelo no Brasil. O Brasil não é bipartidário nem tem as fronteiras raciais claras que os racialistas brasileiros querem impor.

Aqui a questão identitária, fora dos círculos evangélicos e da classe média das capitais, tem menos peso que lá.

Não estou dizendo absolutamente que precisamos buscar um homem branco e hetero para vencer.

Muito menos que precisamos abandonar bandeiras universais como o fim do racismo, do machismo e da discriminação sexual.

A maioria também não quer isso.

O que estou dizendo é que precisamos de um discurso para todos, como sempre foi a essência do progressismo. Contra o racismo, não contra os brancos. Contra o machismo, não contra os homens. Contra a discriminação, não contra a heteronormatividade.

Mas contra o machismo, o racismo e a discriminação porque somos a favor. A favor de direitos e oportunidades iguais para todos.

É isso o que precisamos, sempre, em primeiro plano: voltar a um discurso a favor de todos.

Um discurso universal.

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