GILBERTO MARINGONI: A política não se deslocou para os extremos

UM DOS GRANDES EQUÍVOCOS das análises recentes da cena brasileira é o de que a política teria se deslocado para os extremos e a eleição de Jair Bolsonaro confirmaria isso. Por aquelas apreciações, estaria morto o chamado “presidencialismo de coalizão” que balizou as alianças políticas pós-ditadura. Como se diz por aí, “há controvérsias” e os acontecimentos dos últimos dias colocam a teoria em dúvida. Ainda mais diante das revelações do empresário Paulo Marinho.

O arranjo induziu as forças políticas que chegaram à presidência da República a compor com setores da direita para terem sustentação congressual. Em tese, todas as correntes tenderiam ao centro, realizando administrações com diferenças secundárias entre si e que mantinham, no essencial, a mesma diretriz político-econômica.

A VIDA CONFIRMOU TAIS PRESSUPOSTOS. Embora tivessem distinções, os governos mais exitosos da Nova República – FHC e Lula – mantiveram exatamente a mesma política macroeconômica fiscalista, com câmbio valorizado, metas de inflação e superávits primários elevados ao longo de quatro mandatos presidenciais. Lula aproveitou-se de uma elevação do excedente externo – aumento de exportações – para realizar uma série de políticas hábeis e competentes no terreno social que fizeram a diferença. Isso sem tocar em nenhum interesse substantivo da grande burguesia.

A tendência ao centro garantiu não apenas estabilidade democrática, como previsibilidade econômica.

DIANTE DO FRACASSO do governo Dilma e do golpe parlamentar de 2016, a desilusão popular motivada por uma abrupta queda no padrão de vida e promessas eleitorais frustradas abriu caminho para o golpe e para o aventureirismo político.

O primeiro desvario foi estrelado pelo PMDB, ao empalmar um poder que jamais obteria pelo voto. O segundo deve-se à garganta profunda do PSDB que viu ali sua hora de voltar aos postos-chave do poder – Economia e Relações Internacionais – sem fazer força. Diante do aprofundamento da crise, as duas legendas só perceberam a roubada em que se meteram ao longo da campanha eleitoral de 2018. Seus candidatos tiveram desempenhos raquíticos.

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL não contrapôs dois extremos no segundo turno, como alguns tentaram formular. Colocou uma força de extrema direita contra uma força de centro-esquerda moderada no ringue eleitoral. Assim, a “política” não foi para os extremos, mas um celerado cresceu diante de uma grave crise de representação e do aguçamento desnecessário de uma recessão econômica.

A direita selvagem não ganhou terreno porque “o brasileiro médio é autoritário”, ou porque há “um Bolsonaro dentro de cada um de nós”. Tais considerações são tão científicas quanto dizer que “brasileiro é assim mesmo” e viralatices do gênero. Essas formulações tiram a luta política real de cena e aceitam um fatalismo primário como bula. Nunca esquecer que “o brasileiro” deu por quatro vezes vitória a uma coligação de centroesquerda. E daria tantas mais se essa centroesquerda não tivesse decepcionado profundamente seus apoiadores em 2015-16.

O extremismo bolsonarista bebe na fonte da desesperança e encontrou terrenos fértil para crescer nos últimos anos. E, num primeiro momento, fez bravatas. Garantiu que em palácio não trocaria apoio político por cargos e que não entraria no mercado persa imposto pelos centrões da vida.

O NEOFASCISMO só pode se concretizar plenamente se romper com a democracia. Não há revolução conservadora alguma em curso. Há uma pregação ditatorial e fundamentalista a atiçar todo tipo de caos e violência na sociedade, com dramáticos prejuízos institucionais.

E há Forças Armadas fracas que se aninharam sob as asas do führer de língua presa em busca de boquinhas e interesses menores. Em nome disso, estão topando conviver com a quebra de um dos pilares do Estado democrático, o monopólio do uso da força. Seja por conluio de uma banda podre do Exército, seja por debilidade operacional, os militares aceitam tacitamente ver crescer sob suas barbas forças paramilitares privadas que ameaçam desarticular as instituições democráticas. A convivência das FFAA com as milícias não é apenas condescendência, é sinal de desmoralização acelerada dos corpos da segurança pública.

O maior sinal do fracasso bolsonarista é sua busca desesperada pelo Centrão. Recapitulemos a história aqui.

O JOGO ALUCINADO DO CAPITÃO o levou a romper com diversas facções políticas de seu próprio campo. Primeiro foram figuras individuais, como Kim Katiguiri, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Gustavo Bebbiano e Janaína Pascoal. O presidente foi adiante e abandonou seu próprio partido. Em seguida pularam do barco João Dória e Wilson Eitzel. E no fim, o golpe fatal da Rede Globo, único meio de comunicação capaz de rivalizar com a teia extremista das fake news. Embora levante muita poeira, seu raio de ação concreto se reduziu muito nos últimos meses. O que consegue fazer é espalhar terror e morte por inação deliberada diante da pandemia.

A velha direita já se apartou do Boçal há meses. É o caso de Rodrigo Maia e de grande parte dos governadores conservadores. O STF coloca-se hoje como o grande dique de contenção dos excessos oficiais, em linha com boa parte do Congresso.

ASSIM, A BUSCA PELO CENTRÃO – que nada mais é que o rebotalho fisiológico da velha direita e que se aninhou com FHC, Lula e Dilma – representa a derrota extremista comentada acima. Se no verbo e na pregação do caos é incendiário, na busca de alianças, Bolsonaro é um Sarney lúmpen.

Há duas semanas, escrevi que o jogo de forças na superestrutura da sociedade no havia levado a uma versão tropical do empate catastrófico gramsciano. Todas as armas foram desembainhadas e ninguém tinha condições de dar a estocada fatal no oponente. Esse cenário pode ter mudado com as bombásticas revelações de Paulo Marinho e com as evidências do uso da Polícia Federal para influenciar resultados eleitorais.

Curioso é o fato de que quem pode levar o bolsonarismo à lona são justamente as instituições guiadas por forças de centro, como o STF e o Congresso. As mesmas recriadas após a Constituição de 1988 e dadas prematuramente como mortas.

Caminhamos para o centro. Ainda bem. A esquerda, lamentavelmente, atua como coadjuvante.

Ilustração do grande Ralph Steadman

 

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