CHICO D’ÂNGELO: Unir agora para divergir amanhã

A História é a mestra da vida. A sentença de Cícero, orador romano, chamava atenção para as lições que podiam ser extraídas do conhecimento do passado. Elas serviam ainda para que as pessoas entendessem melhor o presente e projetassem futuros mais generosos.

Na circunstância em que o Brasil se encontra, governado por uma extrema-direita com tintas fascistas encarnada na figura do presidente Jair Bolsonaro, cabe aos democratas buscar caminhos que recoloquem o país na trilha da liberdade, da justiça social, do desenvolvimento sustentável e da defesa intransigente dos direitos humanos universais. Entender as lições da História, nesse processo, é fundamental.

É notório, por exemplo, que a desunião de partidos e organizações progressistas e de esquerda, ainda que não tenha sido responsável direta pelo fato, facilitou a ascensão dos nazistas na Alemanha. Na Espanha, a união de partidos republicanos de esquerda permitiu a vitória da Frente Popular nas eleições de 1936. O governo popular acabou tendo que enfrentar a reação da extrema-direita, comandada pelo general Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola. Durante o processo, a desunião dos grupos antifascistas acabou facilitando a tarefa dos franquistas, apoiados por Hitler e Mussolini, e a Espanha mergulhou na ditadura franquista.

Por outro lado, na mesma Espanha, o Pacto de Moncloa, assinado em 1977, uniu amplos segmentos políticos e da sociedade civil organizada espanhola para, ressaltadas as suas diferenças, garantir a transição democrática após a ditadura, traçando compromissos comuns nos campos da economia, da democracia, do direito, da previdência e da educação.

“Só tenho um objetivo, a destruição de Hitler, e isso simplifica minha vida consideravelmente. Se Hitler invadisse o inferno, eu faria pelo menos uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”. Com essas frase, o conservador Winston Churchill justificou a aliança com Stalin e a União Soviética para a causa imediata maior: derrotar o nazismo.

Com tudo isso, creio ser necessário um amplo movimento de combate à extrema-direita bolsonarista no Brasil. Uma união em nome de pautas comuns – que não anulem nossas diferenças, mas ressaltem  nossas semelhanças – que garanta de forma inegociável a democracia e a justiça social, sem abrir mão desses pilares.

Dialogar, buscar consensos, abrir mão ocasionalmente de certas expectativas, inclusive eleitorais, em nome de uma unidade firme de defesa da liberdade se tornou a tarefa urgente dos nossos dias. Se não tivermos agora a capacidade de nos unir, no futuro talvez não possamos ter o direito de exercer e debater livremente as nossas divergências.

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