A eficiência da China e a guerra de informações sobre o coronavírus

Na década de 1980, o Sistema Nacional de Saúde dos EUA detectou um pequeno número de mortes (menos de dez, quase todas por pneumonia) que tinham características comuns e seguiam um novo padrão: o sistema imunológico de homens jovens homossexuais, até então saudáveis, entrava em colapso. Foi o ponto de partida para a descoberta do vírus da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).

Isso demonstrou a potência institucional, científica e tecnológica dos EUA. Pneumonia é uma doença bastante comum. Num país de 250 milhões de habitantes não é trivial perceber sete ou oito mortes estranhas, que merecem investigação mais profunda, principalmente quando se sabe que as pessoas não morrem diretamente de AIDS, mas de outras doenças que se aproveitam da queda do sistema imunológico.

Só depois se descobriu que o vírus não era originário dos EUA. Já existia em algumas regiões da África, sem ter sido detectado até então. Não fosse o sofisticado sistema americano de notificações e análises, ele poderia permanecer desconhecido por muito mais tempo.

A situação se repete agora. No final de dezembro o sistema de saúde da China detectou mortes estranhas (também por pneumonia) na região de Wuhan. Em 31 de dezembro a China notificou a Organização Mundial de Saúde (OMS) que estava investigando casos de pneumonia que pareciam ter características novas. No início de janeiro o novo coronavírus foi identificado e no dia 12 seu código genético foi divulgado para todo o mundo.

Também não foi um trabalho trivial, em um país de 1,3 bilhão de habitantes, que deve ter centenas casos de pneumonia comum todos os dias.

Seguiram-se medidas duras e imediatas, que se mostraram muito eficazes. Neste momento, a epidemia está contida na China.

Assim como ocorreu no caso da AIDS, a descoberta do vírus na China não significa necessariamente que ele tenha se originado lá. Ainda será preciso muito trabalho para se saber isso, se é que algum dia saberemos. As cepas que estão atacando a Espanha e a Itália são diferentes da cepa que atacou a China. A primeira cidade afetada havia recebido em outubro os Jogos Olímpicos Militares, com milhares de pessoas de todos os países. Logo depois de ter sido detectado em Wuhan, o vírus já estava no mundo inteiro. Há muita pesquisa a fazer.

Nada disso importa às agências de notícias ocidentais: o vírus é “da China”. E as autoridades chinesas “esconderam o problema”, como mostra o caso do médico que postou alertas no WeChat (o zap chinês) e foi repreendido.

O médico postou no dia 30 de dezembro. Como escrevi acima, no dia seguinte a China comunicou à OMS que havia uma investigação em curso.

Num quadro de incerteza, os profissionais de saúde de todo o mundo devem seguir protocolos rígidos, para não difundir, mesmo involuntariamente, informações erradas ou incompletas, que acabam por ser inúteis ou contraproducentes. O médico chinês, certamente agindo de boa-fé, quebrou esses protocolos.

Há várias hipóteses sobre a origem do coronavírus, nenhuma ainda comprovada. Daí a irritação chinesa diante da exploração política de um caso grave de saúde pública.

Uma coisa é certa: independentemente de falhas pontuais, já assumidas, o Estado chinês foi extremamente eficiente e transparente. O resto é guerra de informação.

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A madrugada será longa. A Foreign Languages Press, de Beijing, nos cedeu os direitos para publicarmos as edições brasileiras de “Wuhan no isolamento do coronavírus” e “As atividades diárias da batalha da China contra o coronavírus”, dois livros-reportagem que montam um painel da guerra que eles travaram — até aqui, com muito êxito — contra o vírus. Os livros trazem fatos e depoimentos, um deles na forma de cronologia, ambos com fotos.

“Guerra” não é força de expressão. Estado e sociedade se comportaram como se a China estivesse sendo atacada.

Estamos trabalhando em paralelo — tradutores, revisores, diagramadores — para oferecer as nossas edições rapidamente. Com uma inovação: decidi ofertar os dois livros gratuitamente, em formato PDF, no site da editora e nas redes sociais. Qualquer um poderá baixá-los e repassá-los, sem despesas.

Não temos nenhum financiamento da China. Tudo está sendo feito com o (pouco) dinheiro da editora. Mas eu me sentiria mal se restringisse o acesso a esse material. Ele pode ajudar a nossa própria mobilização para os tempos duros que estão só começando.

Com um pouco de sorte, os dois livros devem estar disponíveis ainda no mês de março. É para isso que vou virar a noite. Com as suítes de Bach para violoncelo solo ao fundo, é claro, porque ninguém é de ferro.

Por Cesar Benjamin

CESAR BENJAMIN A rapidez da China e a guerra de informações sobre o coronavírus

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