CHRISTIAN LYNCH: O neoliberalismo brasileiro

Eu estudo ideologias. Profissionalmente. Das moderadas, não existe nenhuma mais egoística, panfletária, pseudocientífica e pseudo-erudita, do que o neoliberalismo. De Alberto Sales a Meira Penna, passando por Murtinho, Gudin e Roberto Campos, é um embuste do início ao fim.

Debaixo da aparência de cientificidade, o que se vê é um dogmatismo panfletário tão exato quanto um jogo de prestidigitação. Pura retórica histérica, lacração, conversa fiada, falsa cultura, acompanhada de ausência completa de empiria, história, ou qualquer comprovação do que afirmam. Toda “comprovação” passa por uma caricatura de liberalismo, que na verdade passa por tentar organizar a política, não pelo liberalismo político, mas pelo liberalismo econômico. Sociedade civil vira mercado, civilização vira capitalismo, cidadão vira empresário ou consumidor, etc.

A classe universal (“o povo”) do liberalismo é a classe média. A classe universal do socialismo são os trabalhadores. A classe universal do neoliberalismo é o empresariado, que sofre com os sindicatos, a burocracia do Estado, os impostos… Aí é cômico: o “povo” sofre com a justiça trabalhista que só da ganho de causa ao trabalhador analfabeto e preguiçoso; o “povo” sofre porque não pode viajar para Miami com o dólar a 6 reais; o “povo” sofre porque o governo demagógico paga Bolsa Família, etc.

Entre os conservadores, prefiro os estatistas e até os reacionários de boa fé. Porque os reacionários se amparam em alguma ideia de cultura popular e de justiça, de que se pode discordar, mas que existe: catolicismo, pentecostalismo, etc. Eles veem os pequenos, os ferrados. Já o neoliberalismo é uma ficção plutocrática. O neoliberalismo vende cinicamente que basta girar a varinha de condão do empresariado e da livre iniciativa sem Estado nem politica, que a prosperidade virá magicamente para todos. É como na canção de natal: “seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”. Falemos sério: você acredita em papai Noel?

Como o neoliberalismo é impopular, porque não rende votos fora da Faria Lima, eles vêm com essa conversa fiada de que o bom político resiste à popularidade fácil, e apoiam ditaduras que façam passar o programa plutocrático, vendido como “ciência” que o povo burro não entende ou admite. Entretanto, quando esses neoliberais enfrentam crises econômicas ou pressão dos trabalhadores, eles magicamente vão mudando de posição e se tornam autoritários, para o Estado reduzir seus prejuízos e topando até ditadura para o Estado controlar as tais “massas”.

Caso clássico, emblemático, é o de Azevedo Amaral. Era um neoliberal de mão cheia na República Velha. Com a crise do liberalismo, virou autoritário e corporativista. Mas o que ele queria era apenas usar o Estado para socializar prejuízos e manter os trabalhadores sob controle. Em outras palavras, parece paradoxal, mas é isso: usar o aparato repressivo do Estado para meio artificiais de manter o livre mercado funcionando conforme os preceitos neoliberais, na ausência de condições “naturais” de seu funcionamento.

Enfim, a verdade é que boa parte do empresariado brasileiro, historicamente, oscila entre o neoliberalismo e o estatismo conforme as circunstâncias, e para fazer valer seus interesses, pode correr do libertarianismo mais histérico para o conservadorismo mais autoritário. Enfim, o neoliberalismo brasileiro é uma pilantragem só.

Por Christian Lynch

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