A caradura do cinismo da lavajato e o deboche pela facada

Willam James, pragmatista estaduninense do fim do século XIX, dizia que acreditamos naquilo que queremos acreditar. Noção polêmica e interessante, vinda de um psicólogo que também afirmava que nosso pensamento está mudando toda hora. Ideia que, grosso modo comparando, tem a ver com a noção bergsoniana de que estamos mudando constantemente no tempo, como, por exemplo, nesse exato momento em que escrevo e também depois quando este texto está sendo lido.

Não à toa o marxismo teve motivos de sobra para bombardear o pragmatismo e o positivismo que apenas justificava a realidade pelo que já existia, sem considerar possibilidades de mudança. Anotações bem ligeiras estas para lembrar apenas que a materialidade da vida nos impõe limites ao voluntarismo de crenças, embora seja compreensível e lícito crer-se no que se quer crer com base em diferentes elementos de nossa história. Com base em um complexo de desejos e expectativas.

Entretanto, os limites impostos pelo material concreto da vida e suas contradições nos convidam a escolher entre a leviandade e a honestidade para avaliar e julgar os fatos. Tratando-se de políticas públicas, não há como considerar esoterismos subjetivos de maionese purificadora da moralidade humana. Aos poucos, o The Intercept Brasil vai desmoronando os limites possíveis da sociedade suportar o cinismo e o caradurismo das articulações que levaram à prisão do ex-presidente Lula.

Há aqueles que continuam a acreditar na lavajato como elemento purificador de suas próprias crenças e consciência. Há também aqueles que acreditam que a facada no Bolsonaro foi uma farsa. Como jornalista, penso que tenho que agir da seguinte maneira: até prova em contrário, a notícia é verdadeira, tanto mais pela exibição das cicatrizes pelo presidente durante entrevista, dias atrás, a Danilo Gentili. Não tinha visto essa entrevista, que me foi enviada após texto meu publicado aqui sobre o destempero do general secretário do Gabinete de Segurança Institucional diante da ironia manifestada por Lula sobre a facada em Bolsonaro.

Prova em contrário seria alguém vir denunciar que as cicatrizes na barriga do presidente são resultado de outras intervenções no passado e não do atentado. Então, sobre o episódio da facada, em respeito ao próprio presidente da República e aos leitores e telespectadores, jornalista – profissional de natureza pública que é – não pode ficar alimentação ilações e deboche de forma gratuita, da mesma forma que autoridades não podem debochar da inteligência ou da ignorância das pessoas comuns. Ainda mais da maioria das pessoas que não conhece as leis e nem imagina como funcionam os meandros da Justiça.

Jornalista tem que reportar os fatos e, querendo fazer ilações, que o faça com argumentação muito bem fundamentada e articulada. Não existe jornalista isento – isso é uma quimera hipócrita. Sempre tomamos posição, e ainda melhor que seja de forma transparente, com defesa clara de opiniões, visões de mundo e de valores.

No caso da lavajato não se trata de ilações. Está tudo vindo à tona – e o cinismo irmão gêmeo do caradurismo só reforça as denúncias feitas pelo jornalismo do The Intercept. A lógica dos fatos denunciada põe às claras de forma cristalina a lógica forjada pelos promotores e pelo juiz para prender Lula e impedir que ele fosse o próximo presidente do Brasil. A considerar o que revelavam as pesquisas, não se trata de ilação: Bolsonaro só foi eleito porque Sergio Moro impediu Lula de ser candidato. O então juiz agora ministro do atual governo.

Interessante notar que até os jornalistas da assessoria de imprensa da lavajato estranharam a iniciativa de se convocar uma coletiva no dia seguinte à audiência de Lula perante Sérgio Moro. Os promotores titubearam e não souberam explicar aos jornalistas por que a convocação de uma entrevista naquele momento se não era habitual. Alegaram que era uma “demanda”, mas não podiam, claro, dizer que era uma articulação do próprio juiz. Subestimaram a inteligência dos profissionais de sua própria assessoria imprensa, tripudiaram não só a figura de Lula, mas a crença dos eleitores em geral.

A Justiça brasileira só vai sair ilesa desse episódio, no caso da pior hipótese, isto é, mantendo a condenação de Lula e sua prisão, se também condenar Moro, Dallagnol e demais procuradores envolvidos. Eles cometeram crime! Não se trata de crença ou de desejo voluntarista. É lei, preto no branco. Caso contrário, a Justiça vai alargar ainda mais o abismo para o deslize de consequências imprevisíveis da República. A vida impõe limites a nossas crenças e desejos. Não basta acreditar, desejar e torcer.

2 Comentários

  • Durante muito tempo e ainda hoje cito a “Parábola da Caverna” de Platão, ao discutir em aulas a nossa percepção da realidade a partir do “contexto” em que estamos inseridos, mais recentemente venho complementando com Saramago, no Ensaio sobre a Cegueira, onde trago para discussão a Cegueira social e a obrigação moral dos que enxergam. Parabéns! O seus textos cumprem com excelência a obrigação moral de desvendar um mundo além das sombras da caverna.

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