De crises, fraudes e caminhos

Estamos muito próximos da eleição presidencial que pode fazer o Brasil superar a crise ou fazer com que esta se agrave ainda mais.

Os radicalismos do PT de um lado e da extrema direita de outro exigem uma terceira via desde que esta não represente a continuação do desastre atual do governo Temer, afinal escolhido vice pelo PT e colocado na presidência por todas as forças antipetistas que se uniram no processo do impeachment, de Marina a Bolsonaro, passando por Alckmin, Álvaro Dias, Meireles, etc.

Apenas Ciro Gomes reúne as condições necessárias para representar esse caminho que faça o Brasil superar a crise atual.

Temos mais de 32 milhões de pessoas fora do mercado formal de trabalho e mais de 63 milhões com nome sujo no SPC.

Mais mortes decorrentes da violência que países em guerra.

Instituições que deveriam se pautar pelo estrito cumprimento de seus já amplos preceitos constitucionais promovem espetáculos tragicômicos de vai e vem interpretativos de uma mesma legislação.

Uma fissura bem nítida está formada na sociedade brasileira, estimulada por práticas mais apropriadas para líderes de seitas do que de agentes políticos que deveriam ser mais responsáveis.

Dançando na beira do penhasco escavado e aprofundado pela crise política temos o maior líder popular de nossa história recente e seu séquito de seguidores sebastianistas que conscientemente brincam com o justo sentimento de gratidão que nosso povo possui em relação à ele, Lula, tentando enganar essa mesma parcela da população com a fantasia de que Lula é candidato pra valer à presidência da república.

De outro lado o sentimento antipetista fez despertar uma simpatia crescente de propostas fascistas por parte significativa da população, muitas e muitos caindo nesse canto de boa fé, espremidos pelo medo causado pela violência crescente e já rotineira e outros tantos traumatizados por decepções causadas sob o ponto de vista ético nos governos petistas, além dos oriundos ou simpatizantes da casa grande que até pouco tempo não tinham coragem de assumir publicamente seus pensamentos mais retrógrados.

A vitória de qualquer desses lados tende a agravar e ampliar as fissuras no tecido social brasileiro.

Dentre os que estão acreditando nos arroubos bolsonarianos precisamos tentar trazer à razão o máximo dos que o estão fazendo por medo e boa fé e não rotular eles preconceituosamente (como faz o PT para tentar esconder todos os seus erros na condução do país) e simplesmente os jogar no colo da direita mais xucra.

Essa lógica do “nós contra eles” alimentada pelo PT e pelo PSDB precisa ser afastada da política brasileira.

A candidatura Ciro Gomes representa essa superação tão necessária, com a inclusão e capacitação do povo como instrumentos essenciais para esse projeto de desenvolvimento nacional, não apenas distribuindo compensações (necessárias mas que não bastam) mas dando oportunidade e acesso a conhecimento e tecnologia para a imensa massa de empreendedores que a despeito de qualquer apoio do governo procuram prosperar enfrentando toda sorte de dificuldades.

Já passou da hora do principal mote de um governo do campo popular ser a de proporcionar autonomia e meios e, ao invés de dar o peixe de forma compensatória, proporcionar a capacidade de pescar com eficiência e eficácia.

Isso só será possível sem esse clima de Fla Flu dominar o debate político, servindo de impeditivo para que analisemos melhor as propostas e o que representam cada candidatura.

Uma repactuação e uma nova concertação – vitais para superarmos esse clima de crise política interminável que estamos vivendo – é impossível de acontecer num cenário em que qualquer desses extremos vença eleição.

O Brasil precisa sair da armadilha dessa falsa dicotomia e polarização entre coxinhas e mortadelas, que vem desde 1994 e nos trouxe a esse impasse.

Só um desrespeito com a parcela da população que admira e manifesta muito justamente simpatia pelo Lula pode explicar o PT, paradoxalmente, agir da mesma forma arrogante que os setores da elite que eles mesmos – petistas – sempre condenam, tratando esse povo como uma mera massa de manobra, útil aos seus projetos partidários, mas sem a coragem da franqueza que um tratamento respeitoso exigiria: a de falar a verdade – que Lula não é candidato – e não tentar forjar uma fraude eleitoral que, mesmo que vitoriosa eleitoralmente, ajudará no agravamento da crise política ao resultar num presidente por procuração, que vimos tão recentemente com a Dilma que não tem como dar certo.

A prioridade sempre do interesse do partido frente a qualquer projeto de país torna o PT incapaz de liderar qualquer processo de reunificação nacional, condição incondicional para qualquer governo que venha a ser eleito agora.

A recente fala do Haddad em seu giro pelo nordeste tentando se mostrar como emissário ungido de Dom Sebastião  deixou escapar dois aspectos gravíssimos que só reforçam a fraude que esse projeto representa.

Primeiro quando falou que “Lula mandou dizer” que teve uma ideia genial para reduzir os juros bancários. Aí assumiu que ele, Haddad, verdadeiro candidato do PT, não propõe, não fala por ele mesmo e, consequentemente, não iria governar caso vencesse a eleição.

Isso nesse momento onde o Brasil precisa de um presidente de verdade e verdadeiro.

Segundo na própria “ideia genial” em si: premiar os bancos que reduzirem juros com menos impostos.

Essa talvez seja a maior fraude que essa candidatura do PT representa. No país campeão em desigualdade, com tributação invertida em que quem pode mais paga menos e quem pode menos paga mais e onde os bancos lucram quantias absurdas mesmo em períodos de recessão (42 bilhões no primeiro semestre) vem o PT acenar com premiações tributárias aos bancos caso sejam bonzinhos e reduzam o spread bancário.

Parece a mesma lógica da Dilma que deu 350 bilhões em desonerações para o baronato em troca da manutenção de empregos que na prática não foram mantidos.

Procuram se acomodar e se acertar com a banca que, afinal, lucrou muito nos governos petistas e praticou durante todo aquele período o maior spread bancário do mundo.

É como se a direção do PT estivesse descobrindo agora uma série de mazelas graves que sequer chegaram perto de tentar mudar nos 14 anos que governaram o país.

O nome disso – já que não existe uma autocrítica ou um pedido de desculpas ao nosso povo – é oportunismo ou fraude.

Em artigo recente o jornal Valor Econômico publicou, sem nenhum desmentido do Haddad ou do PT, que os grandes especuladores não temem um eventual governo petista porque sabem que a retórica usada agora contra os interesses deles só serve para iludir o povo e animar a militância.

Os especuladores temem mesmo é um governo do Ciro, porque este sabe como estancar a verdadeira farra do boi que o rentismo faz com as riquezas do Brasil.

Talvez venha daí, dessas diferenças de concepção das políticas públicas macro, o receio da direção do PT de uma vitória do Ciro, já que pelo programa de governo dele dificilmente teremos daqui quatro anos uma massa tão vulnerável e desesperançosa, capaz de (equivocadamente) parecer manipulável para o prepotente politburo petista pelo simples fato de carregarem consigo lembranças dos melhores momentos econômicos no governo Lula, confundindo isso com um neo sebastianismo e sacralização do petismo.

Na verdade a cúpula do PT moveu mundos e fundos tentando isolar a candidatura do Ciro exatamente por isso. Para não deixar que um governo dele eleve demais o paradigma de um governo,tornando-o difícil de ser superado e tirando da direção do PT a pretensa hegemonia no campo popular, o que tende a ser inevitável.

Imagine o povo com condições de estudar, trabalhar e prosperar?

Não precisaria mais esperar a volta de Dom Sebastião.

Por Allan Nacif

 

 

 

 

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