O grande projeto de Ciro Gomes para o interior do Brasil

Uma das chaves de interpretação do Brasil é a da dicotomia entre o porto e o interior. Isso já foi tratado em outra coluna do Portal, escrita por Karina Patrício e Felipe Quintas, o que não nos impede de retomar esta questão que nos parece fundamental.

Resumidamente, o Brasil se divide entre duas zonas de exploração econômica e de vida social: o porto, que abarca as regiões que conectam o país ao exterior servindo como entreposto do comércio externo e das finanças globalizadas; e o interior, que engloba as regiões que produzem a riqueza nacional e que têm seus recursos drenados pelas receitas do porto.

O fato de o país estar estruturado dessa forma reflete a formação econômica nacional desde os tempos de colônia. Ocupado o território pelos portugueses, logo trataram de organizar uma produção totalmente voltada ao mercado externo, com o objetivo de acumular capital e transferi-lo à Europa. Como dizia Darcy Ribeiro, fomos criados para “adoçar boca de europeu”.

Foi assim com o ciclo econômico do açúcar no Nordeste, durante séculos XVI e XVII, com o ciclo econômico do ouro de Minas Gerais, no século XVIII, e com o ciclo econômico do café no centro-sul, desde o século XIX até meados do século XX. No comando desses complexos produtivos sempre estiveram capitais forâneos, fossem oriundos da metrópole colonial ou dos grandes centros urbanos conectados com o exterior através do porto.

Os dois primeiros casos (açúcar e ouro) agregavam diretamente interesses externos, como os metropolitanos de Portugal ou os holandeses, grandes financiadores e operadores comerciais da empresa colonial. O último caso, já após a independência e o fim da exclusividade de comércio com a Metrópole, respondia aos interesses orgânicos de uma elite paulista que controlava tanto o financiamento quanto as exportações do café e se apropriava do excedente produzido no interior.

Em ambas as situações, a economia do interior e o modo de vida interiorano não passavam de reflexos da demanda internacional por produtos primários e eram sobredeterminados pelos interesses e decisões da elite portuária.

Essa lógica foi rompida apenas uma vez na história do Brasil: em 1930, com o gaúcho Getúlio Vargas, que mobilizou uma aliança entre o Sul, Nordeste e Minas Gerais contra a elite de São Paulo, arquitetando as forças que impulsionaram então a interiorização do desenvolvimento do país, com o início da industrialização.

Na literatura econômica, esse fenômeno é reconhecido como o deslocamento de um tipo de desenvolvimento “para fora” rumo a um modelo de desenvolvimento “para dentro”, mais capaz de disseminar-se em direção às massas, pois verdadeiramente moldado no mercado interno.

Certamente a industrialização não se teria realizado sem a mobilização do capital cafeeiro, motivo que também explica a concentração das indústrias em São Paulo. A questão é que foi necessário romper intencionalmente com a lógica primário-exportadora para que os interesses legítimos de outras regiões participassem da formulação e execução da política em escala nacional, e usufruíssem de seus benefícios.

Não à toa, é somente a partir de Getúlio que se organiza profissionalmente a burocracia do Estado brasileiro, dada a exigência de dotar o país de instrumentos para executar uma política nacional de desenvolvimento mais ampla e integradora.

Naturalmente, esse foi um processo lento. Em meados da década de 1950, quando o mineiro Juscelino Kubitschek assumiu a herança getulista e chegou à presidência da República, sua tarefa mais árdua e ousada foi nada menos do que centralizar geograficamente o centro de decisão política do Brasil: a construção de Brasília, uma nova capital, bem no coração do país.

JK não rompeu com a dicotomia porto X interior, apenas deu continuidade e enraizamento à ruptura iniciada por Getúlio em 1930. Com o Plano de Metas, JK foi capaz de conectar o país inteiro com estradas e ferrovias, alçando a unidade nacional a outros patamares; com a criação da Sudene em 1959 (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), rearranjou-se todo o pacto federativo pela primeira vez desde a Proclamação da República, possibilitando a realização de uma política consequente de desenvolvimento regional.

O plano de João Goulart, na década de 1960, era realizar Reformas de Base que ampliassem o mercado interno, espalhando os reflexos e oportunidades do desenvolvimento industrial do Brasil à população mais pobre de todo o território.

O golpe militar de 1964, que impediu as reformas, foi a linha imposta pela elite paulista ao processo de interiorização do desenvolvimento. Caso completada a obra, seria o fim da primazia comercial-financeira das elites portuárias. Estaria deslocado o eixo do desenvolvimento e o porto teria que se submeter ao processo de construção nacional, ao invés de determinar a produção do país conforme seus interesses e sugar suas riquezas.

Mais tarde, nas palavras de Karina Patrício e Felipe Quintas, “PSDB e PT, ambos surgidos em São Paulo no contexto da redemocratização, afirmaram-se como opositores ao legado varguista e desdenharam o nacionalismo, tanto pelo lado do capital financeiro voltado para fora (PSDB) quanto do trabalho sindicalizado, muitas vezes em empresas multinacionais (PT)”.

É por esse motivo que os dois partidos jamais romperam com a lógica econômica neoliberal hegemônica no Brasil desde os anos 1990 e implantada, aliás, sob suas direções.

Com a consolidação dos pressupostos básicos do neoliberalismo (câmbio flutuante, juros altos e metas de inflação), ou seja, o tripé macroeconômico, o Brasil passou – e ainda passa – por um processo de desindustrialização agressiva e reprimarização da economia. Qualquer economia primária é sempre orientada para o exterior, gerando uma situação de abandono à grande maioria da população.

O porto optou novamente pela “modernidade”, mas a modernidade é invariavelmente estrangeira quando o país é atrasado. Assim, a abertura sem critérios da economia destruiu a indústria e voltamos a ser uma economia agrário-exportadora.

O mercado interno foi inundado por produtos importados que são cada vez mais desejados e cada vez mais caros para o povo. Como isso é insustentável e altamente dependente da demanda externa, quando a torneira das exportações fecha um pouco, o ajuste das contas acaba sendo feito em cima de quem mais precisa.

Ciro Gomes, político cearense, nordestino, altamente preparado e experiente, é um fenômeno que repercute a necessidade de romper uma segunda vez com a dicotomia porto x interior, pelo lado do interior. Seu projeto é cristalino: abandonar o tripé macroeconômico estabelecendo um câmbio que flutue apenas em torno de valores competitivos para a produção nacional, juros mais baixos e metas de emprego ao lado das metas de inflação.

Seu objetivo é reindustrializar o Brasil, elemento sem o qual seria impossível esperar qualquer espécie de conexão e crescimento para a totalidade do país.

Tamanha tarefa não é proposta nem por Haddad, nem por Bolsonaro, que pretendem explicitamente manter o tripé macroeconômico e acenam constantemente para o “mercado”. O “mercado”, contudo, tem endereço: a Rua Faria Lima, em São Paulo, centro das finanças globalizadas, que obriga o Brasil inteiro a trabalhar incansavelmente para “fechar as contas” nacionais no fim do ano, objetivo cada vez mais inatingível.

Os grandes barões nos impõe austeridade em troca de lucros exorbitantes para o mercado financeiro, enquanto as exportações de soja, carne e minérios cumprem a função de atrair dólares para o país e evitar que o custo do padrão de consumo das classes altas se inviabilize.

O Brasil certamente precisa deslocar seu desenvolvimento para o interior, não apenas no sentido geográfico, mas no sentido dinâmico de abandonar um paradigma exportador e adotar um modelo que articule todo o talento, toda a inteligência e toda a força da Nação em cada canto que houver um brasileiro ou uma brasileira. Ciro é o único candidato que se apresenta para essa tarefa.

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