Ciro Gomes e a defesa da quarta agenda da democracia brasileira

Há alguns dias estava para escrever esse texto, inspirado pela leitura de um ensaio do professor Renato Janine Ribeiro intitulado “A quarta agenda da democracia brasileira”, presente no livro “A Boa Política: Ensaios sobre a democracia na Era da Internet”. Pois bem, de certa forma a discussão que ele traz nesse texto dialoga com um debate que tomou relevância nos últimos dias após o posicionamento de mais de um articulista político, sobre a falta de rumos da oposição no Brasil. Basicamente, a conclusão é que cada liderança só fala para a sua própria base, que Lula não conseguiu retomar a sua força política e de articulador após sair da prisão, e que sem uma liderança inconteste no campo progressista, Bolsonaro, apesar dos pesares, “nada de braçada”, mantendo a sua base de apoiadores coesa e sua força eleitoral para 2022.

No texto que citei acima, Janine Ribeiro defende a seguinte tese: no Brasil, nas últimas décadas, existiram três grandes agendas do ponto de vista do aprofundamento da democracia: a primeira era justamente a luta pela derrubada da ditadura e a redemocratização do país (1985), a segunda, a vitória sobre a inflação (1994) e a terceira, ainda em curso, a inclusão social (2003). Como diz o texto, existe ainda uma quarta agenda, da qual falarei mais a frente.

Segundo o filósofo, para a efetivação dessas agendas, alguns fatores essenciais estiverem presentes. São eles:

1) Um partido que tomou para si e liderou a agenda;

2) A situação corrente que passou a ser percebida como um enorme e injusto tributo cobrado de todos os aspectos da vida social e pessoal pela sociedade;

3) A sociedade que aos poucos foi assumindo essa agenda, a partir do momento em que chegou ao consenso de que a situação política, econômica ou social era insustentável;

4) E por fim, havia líderes, políticos que podiam, com muito empenho, exercer liderança e propor saídas para resolver a situação.

Dessa forma, na derrubada da ditadura tivemos o MDB e Ulysses Guimarães. No combate a inflação, o PSDB e Fernando Henrique Cardoso (ainda que o Plano Real tenha sido instituído pelo presidente anterior, Itamar Franco, mas enfim, acabou associado no senso comum a FHC). Na luta pela inclusão social, o PT e Lula. Partidos e lideranças que conseguiram sintetizar em si as agendas latentes da sociedade brasileira em seus respectivos tempos.

E a “quarta agenda”? Para Janine Ribeiro ela ficou evidente nas jornadas de junho de 2013, ou seja, a qualidade dos serviços públicos (transporte, educação, saúde e segurança). Não pretendo aqui discutir as manifestações de 2013 e seus desdobramentos, o foco do artigo não é esse, mas me parece bastante evidente que essa agenda estava sim na base daquele movimento. E aqui, introduzo mais um ingrediente nessa quarta agenda (ou seria uma quinta?), da qual o campo progressista não pode se esquivar mais: a questão da corrupção.

Ontem, mais uma vez, ganhou destaque nas redes o embate entre Ciro Gomes e a militância “cirista”/trabalhista, contra a “blogosfera” petista e a militância do PT, pelo fato do líder trabalhista ter atacado o que ele denomina de “lulopetismo corrupto”. Sem entrar no mérito do embate, o que me surpreendeu foram as críticas direcionadas ao Ciro, inclusive de pessoas do próprio PDT e outras vertentes progressistas, de que era um erro se apropriar da luta anticorrupção, que essa seria, quase que de forma natural e imutável uma “bandeira da direita”, um “udenismo” que sempre teria sido usada contra o povo. E pior, que ele ao se posicionar assim estaria “legitimando o lava-jatismo”. Lamento dizer, mas quem enxerga a questão de forma tão superficial assim ainda não entendeu o que se passou no Brasil de 2013 pra cá.

Retornando ao ensaio de Janine Ribeiro, como ele aponta, uma agenda só se consolida na sociedade a partir de um consenso de que algo precisa urgentemente mudar, quando esse algo se torna insustentável para a maioria da sociedade. Existe alguma dúvida de que a necessidade do combate a corrupção se tornou uma pauta de consenso na sociedade brasileira? Bolsonaro claramente surfou essa onda. O que explica a figura de Sérgio Moro ser tão popular e em pesquisa recente ter surgido em segundo lugar na corrida presidencial de 2022, apenas atrás do atual presidente? Justamente pelo fato de o ex-ministro personificar para uma parcela considerável da população a própria anticorrupção, independente dos seus métodos questionáveis enquanto ainda era juiz.

Frente a esse quadro, é impressionante que o campo progressista ainda acredite que pode passar ao largo dessa questão. Inclusive uma certa explicação estrutural sobre as raízes da corrupção também não cabe mais quando se trata da disputa política em torno desse tema, e a esquerda no geral bate muito nessa tecla. Dizer que é um “problema estrutural do capitalismo” sem apontar medidas que possam ao menos mitigar o problema soa para a maior parte da população como desculpa, como leniência e conivência com o mal uso dos recursos públicos. Ainda mais se levarmos em conta que a população, no geral, faz uma associação direta entre corrupção e a má qualidade dos serviços públicos. Por isso, repito, o combate a corrupção, do ponto de vista político, faz parte, ao meu ver, do que o professor Janine Ribeiro chama de “quarta agenda da democracia brasileira”.

A mesma coisa vale para o trato que se dá a Operação Lava-Jato. Uma coisa é a crítica dos métodos e os fins muitas vezes deletérios para a economia que a tal operação ocasionou, outra é o mérito na qual ela se baseou. E uma parte considerável da população volta seus olhos pra esse, e não aqueles. Dito isso, é evidente que essa pauta não pode ser abordada apenas pelo viés moral, de santos contra demônios, porque o que se chama de “udenismo” é isso, tática largamente utilizada não só pela direita, mas marcadamente pelo PT nos anos 1980 e 1990. Também é pouco ficar limitado a pauta da “transparência”. Os portais da transparência avançaram nos períodos de governo do PSDB e do PT, e ainda que importantes, são limitados.

Cabe ao campo progressista tratar a pauta do combate a corrupção de forma propositiva, com a modernização dos partidos e dos mandatos e de sua relação com o restante da população, por exemplo. Esse tipo de ação já existe em outras partes do mundo e está por se fazer ainda no Brasil. E isso nada tem a ver com “udenismo” ou qualquer outro jargão de efeito, pelo contrário, é uma necessidade e uma reivindicação muito clara da população brasileira, e que tem o potencial de reconstruir pontes entre a população e seus representantes.

Dessa forma, retornando a polêmica Ciro x PT, diferente do que outros afirmaram, acredito ser um acerto do líder pedetista manter sempre ativa na sua narrativa a crítica ferrenha a corrupção, seja ela petista ou bolsonarista. Me parece evidente que essa pauta não pode ficar de escanteio no discurso de alguém que almeja a presidência no Brasil de hoje, e Ciro já percebeu isso. Precisamos urgentemente resgatar essa pauta das mãos da ultradireita brasileira.

Esse parece ser o caminho para que, seguindo os argumentos do professor Janine Ribeiro, a sociedade brasileira reconheça um novo partido e um novo líder como agentes capazes de retomar a terceira agenda inconclusa, do combate à desigualdade, e de tornar real aquilo que ele chama de quarta agenda da democracia brasileira: a garantia da qualidade dos serviços públicos (educação, saúde, transporte e segurança). Ao que tudo indica o PDT e Ciro Gomes, com seu Projeto Nacional de Desenvolvimento combinado com um discurso de condenação veemente da corrupção, seja a qual lado pertença, tem claras chances de assumir esse papel.

Ciro Gomes e a defesa da quarta agenda da democracia brasileira

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