O que sabemos sobre o processo político brasileiro a esta altura?

O momento pelo qual o Brasil está passando hoje é um período de transição, de reorganização das forças políticas e sociais após a ruptura do pacto constitucional de 1988, ocorrida com o processo do golpe de 2016.

Durante o processo do golpe, as principais forças do establishment – bancos, FIESP, burocracias estatais, multinacionais do petróleo, agências de inteligência estrangeiras – confluíram em torno de um mesmo projeto. Foi o alinhamento dessas forças, canalizado no Congresso por meio dos tucanos, peemedebistas e partidos do dito “centrão”, que garantiu o sucesso do impeachment, com todos os retrocessos que isso acarretou para o Brasil.

Nos idos de 2016, o Plano A do establishment parecia claro: criar todas as condições para que o sucessor de Temer fosse um tucano. Após o fracasso político de Aécio Neves e os processos internos do PSDB, restou evidente que essa figura seria Geraldo Alckmin. Até bem entrado o processo eleitoral, foi nele que se apostaram as fichas principais. O centrão, inclusive, naquilo que ele próprio qualificou como um jogo de mestre de realpolitik, fechou em peso com o candidato tucano.

Os principais analistas apostaram em outra eleição movida pela clássica polarização petucana. O próprio PT, até bem entrado o processo, apostava num segundo turno com Alckmin – e começou suas conversas para chegar a um acordo com o novo governo tucano em caso de derrota, a fim de salvar a própria pele e continuar hegemonizando o campo da esquerda.

No meio do processo, porém, ficou claro que a transição que atravessa a democracia brasileira está levando a uma rápida reorganização das forças políticas. A crise do petucanismo é evidente, apesar de todos os recursos com os quais ainda contam esses partidos para manter seu poder e influência.

Bolsonaro não se desidratou, como supunham nossos vãos colunistas. Ele se consolidou como uma voz alternativa da direita, desidratando a tradicional candidatura do PSDB. Logo seu programa se alinhou com um plano ultraliberal de gestão da economia, consolidando um modelo de tipo pinochetista. À esquerda, o mesmo ocorreu com Ciro Gomes. Sem a estrutura e os milhões de reais de fundo partidário do PT, e com o tempo de TV sabotado por este último, o pedetista contou somente com o apoio de uma ativa militância que, seja qual for o resultado da eleição, já entrou para a história por sua lealdade, consciência e altivez.

O resultado destas tendências é que, nesta eleição, bem mais do que a metade dos votos dos brasileiros não irá para o petucanismo.

O consenso que havia no establishment durante o impeachment, e até bem entrado o processo eleitoral, rompeu-se diante deste cenário. Os diversos setores do establishment parecem se dividir, colocando um ovo em cada cesto: Bolsonaro, Haddad, Alckmin. O único consenso parece ser o de que Ciro Gomes não é uma alternativa para o establishment, salvo para setores específicos vinculados ao capital produtivo de origem nacional.

Neste contexto, a última semana da campanha será de uma guerra de trincheiras. Qualquer resultado é possível. O momento é de desorganização do establishment, de pleno clima de transição, mesmo.

O empate hegemônico é, justamente, o contexto em que uma candidatura como a de Ciro Gomes pode ser vitoriosa. A seu favor, ele terá os dois debates mais importantes da campanha, o da Record no domingo e da Globo na quinta, que podem definir a eleição, considerando a quantidade de eleitores indecisos e com o voto sujeito a reconsideração. Contra ele, todo o resto.

Seja qual for o resultado, a ruptura do bloco hegemônico do petucanismo parece ser uma característica que define a próxima etapa da política brasileira. E Ciro Gomes desponta como o líder de um novo bloco político no Brasil, fundamentalmente unido pela questão nacional e a busca de alternativas ao neoliberalismo.

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