CIRO GOMES: O tratado Mercosul-União Europeia

Muito barulho entre os governistas sobre a velocidade com que, em menos de seis meses de governo, Bolsonaro logrou concluir o tratado de livre comércio entre o MERCOSUL e a União Europeia, afinal, estas negociações “se arrastavam há mais de 20 anos”.

Pode ser…

Mas é muito importante que coloquemos dois pés atrás antes de comemorarmos qualquer coisa para alem desta pseudo velocidade: em matéria de entendimentos internacionais quase sempre a pressa é inimiga da perfeição.

Por que este tratado demorou tanto? Resposta óbvia: porque há uma brutal confusão de interesses envolvidos. Vejamos os principais: agricultura e pecuária versus industria; interesse estratégico de Brasil versus Argentina e demais companheiros de MERCOSUL; mortal assimetria na competitividade sistêmica entre os dois blocos econômicos.

É assim: no momento desta assinatura os dois principais países do MERCOSUL agonizam economicamente guiados por uma visão estúpida imposta a ambos por influencia estrangeira. A Argentina está praticamente completando a destruição total de seu parque industrial e o Brasil está completando a pior década em 120 anos (!) em matéria de desenvolvimento econômico. Nossa industria que já foi quase um terço de nosso PIB, definha hoje para menos de 10% .

A ideia de livre comércio deve guiar os esforços da humanidade, não tenho reservas a isto, mas, não sejamos abestados, como diria Tiririca: a taxa de juros que financia o industrial europeu é menor que um sexto daquela que financia o industrial brasileiro, a sofisticação tecnológica media do produto europeu é,pelo menos, três gerações na frente do produto industrial brasileiro médio, a industria européia compete com larga escala em sua oferta, no Brasil, 7 em cada 10 empregos são oferecidos por pequenas empresas. Juntem-se os problemas de logística, de produtividade, de barafunda tributária, de manipulação populista da taxa de cambio em favor do consumismo e, é possível entender porque, sob o ponto de vista industrial este acordo – precisamos lê-lo- pode ser devastador para o Brasil: o buraco em nossa conta com o estrangeiro em manufaturados, quando crescemos Pífios 2% chega a mais de U$ 120 bilhões de dólares em apenas um ano! Pegue tudo isto e multiplique por 100 e teremos uma pista para a devastação que liquidará os últimos suspiros de uma industria Argentina.

Há um setor que pode ser bastante beneficiado, e isto é bom para o Brasil: o agro-negócio. Precisamos ler a versão final do tratado que ainda não está disponível. Mas,acreditem, o recrudescimento da critica européia às gravíssimas mazelas de governo Bolsonaro em matéria de meio ambiente, no mesmo período só é coincidência para os abestados.

Que Bolsonaro em seu despreparo troca os pés pelas mãos autorizando agrotóxicos banidos na mesma Europa, que desdenha das políticas de proteção de populações tradicionais especialmente indígenas, que ameaça a política de reserva legal ou de proteção de biomas e recursos hídricos sensíveis está dado. Mas isto é prato cheíssimo para um surto de neo protecionismo, agora a nobre e respeitável pretexto de retaliação ao produto agro-pastoril originário do Brasil.

É, amigos, Bolsonaro precisa aprender que o Céu não é perto…o problema é que quando ele aprender poderá ser muito tarde para o Brasil.

Por Ciro Gomes

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