Ciro inaugura o novo(?) Provocações

Embora seja entusiasta do tipo de programa, nunca fui um grande fã do (agora) antigo Provocações. Nas poucas entrevistas que vi, o entrevistado sempre parecia mais interessado em impressionar Abujamra, do que de fato responder às suas perguntas.

Talvez por isso, a nova edição com Marcelo Tas tenha me despertado alguma curiosidade. Ciro Gomes como primeiro convidado certamente ajudou. Mas o resultado decepcionou até as minhas não tão altas expectativas.

Tas mimetizou, até em tom de homenagem, alguma das características de Abujamra. Estavam lá o lamento grego (“ai de mim, ai de mim…”), a introdução através de algum texto literário e o fechamento com a reiterada questão “o que é vida?”. Até parte da caracterização do programa foi mantida, vinheta anacrônica, estúdio antigo, atualizado apenas pela mesa em forma de hashtag, Provoca#.

As semelhanças pararam por aí. Se no primeiro, as provocações consistiam no encontro entre o “conteudismo” cultural de Abujamra e os pensamentos mundanos de seus entrevistados, no novo, restaram apenas vulgaridades.

As perguntas foram presas ao passado, remoto (a fala sobre Patrícia Pillar, a vida partidária…) e recente (Lula e o PT).

Ciro só conseguiu emendar uma crítica a Bolsonaro, quando astutamente respondeu que entre um governo de cachaceiros e outro de idiotas, ao menos os primeiros podem acordar sóbrios algum dia. Crítica que prosseguiu aos militares envolvidos na administração, os quais se não todos idiotas, ao menos entreguistas e potencialmente criminosos.

Tas também teve seu lampejo quando questionou se o entrevistado considerava Dilma uma “merda”, após Ciro ter exemplificado seus governos como as “merdas” que ele já teve de engolir pelo PT. Provocação devidamente esclarecida pela diferenciação entre a respeitável pessoa e a desastrosa presidenta.

Em diversos raciocínios, perdemos a conclusão da resposta em prol do dinamização da entrevista.

Uma pena que os cortes rápidos não vieram nas partes que mereciam, e tivemos de aguentar Ciro discorrer sobre as origens de seu charme, os motivos pelo qual a vida pública lhe engordou e seu costume de cortar whisky com coca zero para evitar a ressaca.

Fica a grande manchete, Ciro, sem deixar de ressaltar a “exuberante biografia” de Lula, radicaliza sua crítica. Lula foi desleal com todos que algum dia lhe acompanharam. Uma afirmação dura, mas será que mentirosa?

Tas permeou toda a entrevista com o temperamento do Ciro (“pavio curto”, “falador, “rebelde”…), mas encontrou um entrevistado absolutamente tranquilo, talvez pelas provocações, alternadas entre desgastadas e incipientes.

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