Muito mais que uma eleição

O cenário retratado nas últimas pesquisas de intenção de voto para presidente deixa evidente a gravidade do momento e os caminhos que o país precisa trilhar para superar essa grave e prolongada crise e conter a ameaça real do fascismo.

Agora, mais importante que uma variação de 1 ou 2 pontos percentuais na intenção de voto para esse ou aquele candidato o que está se consolidando é um cenário  que aponta a candidatura Ciro Gomes como a única possibilidade de vitória no segundo turno pelo campo popular e, mais ainda, pelos democratas de todas as matizes sobre a aventura fascistóide que ameaça a democracia brasileira.

Na contramão da responsabilidade que o momento exige, insistindo em brincar com o destino de 208 milhões de brasileiros e pensando apenas nos interesses mesquinhos de sua cúpula cartorial – tão ávida por boquinhas no governo como o PMDB de Temer – o PT com a candidatura de Fernando Haddad ajudou a consolidar Bolsonaro no segundo turno, já que este baseia sua campanha exatamente no antipetismo, daí a torcida desesperada dos bolsominions mais esclarecidos (eles existem) no crescimento do Haddad.

Toda chance de Bolsonaro no segundo turno consiste em fazer esse embate se dar em torno de assuntos como “kit gay” ou ideologia de gênero nas escolas.

Para Bolsonaro o maior dos pesadelos é enfrentar Ciro Gomes, que não a toa é o único que o derrota além da margem de erro nas simulações de segundo turno de todos os institutos.

Só Ciro hoje reúne as condições de tirar o Brasil dessa encruzilhada de uma disputa restrita ao fascismo anti democrático de um lado e coxinhas ou mortadelas do outro.

Haddad, por outro lado, com muito pouco tempo na chuva já tem rejeição de 45% entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos e 40% entre os que possuem nível superior. E o PT tem uma rejeição de 50% no sudeste.

Na medida que vai se apresentando como a Dilma versão 2018 sua rejeição só aumenta.

E o povo brasileiro, que já por duas vezes seguiu a indicação de Lula votando num poste porque ele pediu, vê o resultado disso nessa crise que se abate duramente sobre nosso país.

Agora, depois de passada a emoção tão bem explorada no programa eleitoral da “substituição” da candidatura petista o eleitor num primeiro momento, por solidariedade ao Lula, tende a ser simpático ao Haddad mas, logo depois, começa o processo de avaliar afinal que poste é esse.

E vai se perguntando, por exemplo: se Haddad é tão bom assim como o Lula fala porque perdeu a reeleição na prefeitura de São Paulo para um almofadinha como João Dória no primeiro turno, tendo pífios 14% dos votos ?

No campo mais conservador e liberal democrático o eleitor também tende a constatar que um segundo turno entre Bolsonaro e o PT é tudo que o Brasil não precisa.

Ciro hoje é o que reúne as melhores condições de unir a maior parte dos eleitores das candidaturas mais comprometidas com a democracia (desde os de Marina aos de Alckmin, passando pelos de Haddad e Álvaro Dias) e derrotar a ameaça fascista, que graças à teimosia e insistência do PT em negar a realidade paira perigosamente sobre nosso futuro.

Ciro pode no segundo turno dialogar com todas as forças democráticas e, com isso, obter a autoridade necessária para restaurar a prevalência da boa convivência política que o Brasil tanto precisa, esvaziando pela cicatrização de nossas fissuras no tecido social o risco do fascismo, que se alimenta exatamente dessas feridas.

Isso é absolutamente impossível para o PT agora e, mais ainda, para um candidato fraco como o Haddad, desprovido de liderança até mesmo entre seus seguidores e que se apresenta apenas como um boneco de ventríloquo, um candidato fake, ungido por procuração e não por mérito próprio.

Não tem como isso dar certo em nenhuma hipótese, pois até que eleitoralmente venha a ter sucesso vai dar errado, porque o Haddad já inicia o processo eleitoral destituído de qualquer autoridade que nem o voto popular – já que o próprio PT deixa muito claro que esse voto não é dele, Haddad – poderia redimir.

O Brasil não merece isso.

Tudo isso é inédito em nossa história. Jamais uma extrema direita assumidamente anti-democrática esteve tão perto de vencer uma eleição presidencial. Que se transforma por isso em muito mais que uma eleição.

Por Allan Nacif

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