Como foi o debate da Band?

A rede Bandeirantes, desde a redemocratização, tem por tradição apresentar o primeiro dos debates entre os presidenciáveis, com a proposta de ser mais descontraído que os demais, por reunir um leque mais amplo de candidatos. O formato, em regra rígido, parecia arrefecido neste ano, quase displicente. O debate da Band, dentro das limitações, foi bem elucidativo.

Quase a totalidade dos candidatos prometiam ser a renovação, a “nova política”. A falta da ideia de continuidade é típica de democracias pouco desenvolvidas. O Brasil, para além desse circo de lavajatismo, é uma nação grande e de cuja história devemos, por obrigação com a realidade, admirar. Dito isto:

Existem dois projetos em disputa no Brasil. O representado por Ciro Gomes e o representado por Geraldo Alckmin. O resto é “armazém de secos e molhados”, nas lembranças do Millôr. Não é uma defesa das candidaturas em si, mas um esvaziamento das demais, que não apresentam nada palatável para os problemas reais do Brasil. Ciro e Alckmin conhecem a máquina e polarizam nos assuntos que realmente interessam, como desenvolvimento, indústria, reformas e privatização.

Bolsonaro e Boulos falam a nichos. Boulos foi especialmente mal, dentro de suas capacidades, neste debate. Bolsonaro foi bem, dentro das suas limitações. Bolsonaro não ganha voto algum em suas aparições na TV. Tampouco perde. É sempre despreparado e diz disparates prontos. Desta vez, parecia cabo eleitoral adversário.  Levantou a bola para Ciro quando perguntou sobre educação e elogiou o Ceará, comandado a muito pelos Gomes. Ciro moderou o tom com o candidato e arrancou dele dois elogios. O segundo foi em relação à proposta do candidato cearense de auxiliar na retirada de nomes do SPC.

Boulos estava no tom errado. Faço minha autocrítica, pois em artigo para o DISPARADA, afirmei que ele estava muito calmo no Roda Viva. Deveria ter ficado com os calmantes. A versão de hoje parecia uma tentativa de imitação do Lula de 89, sem o charme do macacão e com um certo excesso de “pós modernismo”.

Álvaro Dias e Marina são o núcleo mais representativo da lava jato – aquela operação pra prender o Lula pelo triplex que era mas não era e…- o ex-governador parecia bêbado nos primeiros blocos. Falava de forma desconexa, não apresentava nada de relevante e o espectador saiu do programa sem ouvir dele qualquer proposta ou direcionamento mínimo que não fosse o udenismo moralista mais rasteiro. Marina Silva….

Marina Silva encolherá e muito nesta eleição. Seu discurso de nova política, outrora pertencente somente à fundadora da REDE, hoje é dividido por todos os candidatos, do “novo” Álvaro Dias ao “antigo” Jair Bolsonaro. É a mesma dos últimos 8 anos e terá o mesmo fim.

Alckmin é o candidato do governo e o seu candidato de oposição verdadeiramente programática é Ciro Gomes. Alckmin defendeu o pacote liberal do eixo FHC; Ciro, a tradição nacionalista de Brizola. Alckmin defendeu a reforma trabalhista; Ciro disse que iria revogá-la, se tivesse condições para tal. Ciro quer taxar lucros e dividendos; Alckmin faz parte do partido que RETIROU a taxação.

De resto: Cabo Daciolo foi inventado hoje por Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes. Seja pra dividir votos do campo conservador com Bolsonaro ou meramente por falar alucinações que parecem retiradas dos grupos mais obscuros do WhatsApp. A Band “bateu palma pra maluco dançar”.

Abaixo, alguns momentos selecionados e (bem) resumidos de acontecimentos do debate.

Boulos x Bolsonaro: Tema da Funcionária fantasma de Bolsonaro: Boulos estava muito histérico, parecia estar em um debate de DCE.

Alckmin x Marina Silva: perguntado pela candidata sobre alianças, o governador afirmou:  “ Veja, até a Marina que saiu do PV por divergências hoje se alia a eles” no déficit fiscal.

Ciro x Bolsonaro: Educação: Ciro apresentou os resultados do Ceará, utilizando os institutos federais militares como parâmetro de sucesso. Bolsonaro concordou. Faltou declarar o voto.

Por fim:

O banqueiro Henrique Meirelles acusou Alckmin de ser contra o Bolsa Família. De fato, o Brasil não é para amadores. Alckmin, por sua vez, falou que contribuiu para transposição do Rio São Francisco. Todos queriam a fatia do lulismo. A grand cour do ex-presidente quer dá-la ao ex-prefeito Fernando Haddad, hoje presente no “debate virtual” com Gleisi Hoffman, que no twitter chegou a marca de 139 espectadores.

Os Lulistas preferiram o debate.

1 Comentário

Deixe uma resposta