O horror ao comunismo é o horror contra a ciência e o avanço da sociedade

Os impropérios e a boçalidade manifestadas por aqueles que bradam contra o comunismo fazem parte da negação da ciência e dos avanços da sociedade em diferentes níveis. Não se trata de ideias contra ideias a partir de uma elaboração filosófica da teoria política, nem também de uma tomada de posição na luta político-partidária. Afinal, não existe ameaça de movimento ou partido comunista contra o governo agora e nem houve em qualquer momento depois de 1988.

Trata-se, na verdade, das armas do obscurantismo apontadas por políticos, pastores, empresários, além dos palhaços e ignorantes do governo e dessa gente tosca que chega a empunhar faixas nas ruas pedindo a bizarra “criminalização do comunismo”. Essa gente nem sabe o que é comunismo, aliás, como também muitas pessoas intelectualmente bem intencionadas que não estudaram história e acreditam compreendê-la somente com supostos olhos do século XXI.

Não à toa o Brasil parece sempre atrasado talvez por sua infância e adolescência resultantes de sua situação como “criatura do príncipe” – e não o estado como resultado dos movimentos da sociedade. Chega a ser sugestivo, dentre muitos outros exemplos, o fato de as ideias marxistas terem entrado na América Latina no fim do século XIX pela Argentina, Uruguai e Chile, difundindo-se a partir da Itália e da Alemanha. No Brasil, os comunistas fundaram o partido somente em 1922.

Sei que pode até ser uma caricatura referir-se ao estado (a sociedade) como criatura do príncipe e não o contrário – e nem acredito que os problemas atuais do Brasil, bem como as questões contraditórias de sua formação social e política, sejam resultado apenas de determinações culturais ibéricas. Não! Somos frutos também – e mais ainda – da expansão e contradição do sistema capitalista na divisão internacional do trabalho, a partir das revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII (Inglaterra, França e Estados Unidos).

Acredito, assim, na eficácia do elemento metodológico das ciência sociais que faz indagar, por exemplo, por que, no mesmo instante, fatos diversos acontecem em diferentes lugares – e, indo além, procurar saber se há ou não conexão entre esses fatos para tentar compreender fenômenos históricos a partir do sentido de totalidade e não de episódios isolados.

Enquanto a Europa vivia, no fim do século XIX, a ebulição do lastro da Revolução Francesa, marcada por movimentos operários da social democracia alemã, o Brasil nem poderia sonhar com socialismo, uma vez que fundava uma República ainda apenas formalmente de conteúdo monarquista, agrária e escravocrata, conteúdo esse começando a ser rompido apenas quatro décadas depois com Getúlio Vargas. Apenas começando porque ainda não rompemos de vez. Daí essa sensação legada de infância e adolescência de colônia e monarquia ibéricas.

Entretanto, assinale-se que não existe atraso genético por natureza. Não somos fracos nem fortes, mas sim conforme as condições possibilitam. Não se pode esquecer, por exemplo, os diversos movimentos de caráter socializante, digamos assim, que marcaram momentos diferentes do período imperial, sem falar dos quilombos que, em sua revolta e organização, tinham outro registro de sociedade em sua expectativa de vida – bem diferente de uma colônia, de um reino submisso à Inglaterra ou de uma república abstrata.

O movimento operário não é uma criação de ideias de indivíduos, mas sim da própria industrialização e urbanização da sociedade. O comunismo não é uma invenção de Marx e Engels, e o famoso Manifesto de 1848 foi escrito como encomenda da Liga dos Comunistas, primeiramente uma associação de trabalhadores alemães nas lutas urbanas, que depois se transformou em movimento internacional.

Os partidos socialistas, além das lutas sindicais de caráter econômico, inevitavelmente, tinham que empreender também lutas políticas para aprovar ou derrubar leis e instituições. Tanto eles como outras organizações acabavam desenvolvendo ainda atividades pedagógicas e culturais, já que a industrialização e urbanização requeriam outros aprendizados e conhecimentos demandados por tecnologias e novas relações sociais, para além de formas simplificadas da vida no campo.

Não é difícil entender o processo contraditório e inevitável entre vírus e antídoto. A expansão do sistema capitalista é um processo contraditório de quebra de barreiras territoriais, avanços tecnológicos, conhecimento e progresso na vida social, este entendido como formas mais complexas de relações. É o distanciamento progressivo do ser humano das barreiras limitadoras da natureza.

A luta de classes não é uma ideia ou uma invenção teórica, mas sim um fenômeno concreto das relações sociais. Só podemos no sentir verdadeiramente brasileiros se tivermos consciência de classe. Brasil em primeiro lugar, Deus acima de todos e outras abstrações só servem para enganar e tergiversar sobre os problemas e fenômenos concretos.

Não demora muito para começarem a dizer também que Getúlio Vargas era comunista. Nada difícil para quem vê a globalização como processo incensado por comunistas, além da ONU, OMS, o Papa e outros. Nada difícil para quem quer enganar os jovens, dizendo que as universidades brasileiras estão marcadas por essa invenção idiota chamada de “marxismo cultural”. Idiota porém eficaz porque muitos com embotamento da memória histórica acabam acreditando.

Na verdade, o horror não é contra o comunismo, fenômeno que a turma dos ignorantes apoiadores de Bolsonaro nem sabe o que significa. Da parte dessa gente que vem desmantelando o Brasil, trata-se do horror contra o avanço da sociedade em geral em todos os níveis e, obviamente, contra o conhecimento histórico e o desenvolvimento da ciência.

Para essa gente seria mais fácil se o Brasil instituísse uma espécie de monarquia de direito divino ultraliberal, daí o ataque contra os demais poderes da República e as universidades. Para as pessoas bem intencionadas, a refração cognitiva pode ter a ver com a preguiça intelectual ou mesmo com o desconhecimento histórico a ser saneado. Nada que um bom e dedicado estudo não resolva. Estamos naquela situação em que se costuma dizer que o futuro chegou. Sim, mas ainda interpenetrado nos séculos XIX e XX – nem infância ou adolescência, mas talvez a pré-história das potencialidades humanas. Marx e Engels continuam tendo razão

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