Na luta contra Alvim, vence o Mito Nacional

O querido professor Gilberto Felisberto Vasconcellos, em suas palestras, sempre nos alerta sobre a indissociabilidade entre política/teoria e linguagem. A fusão entre as duas dimensões garante um todo, entendido a partir da estética, uma razão interpretativa do ponto de vista cultural. A estética possui um método, um estilo de conduta do fenômeno de visão de mundo.

A sua crítica era dedicada à academia brasileira, asséptica, que aspira uma posição “de superioridade cultural” com relação ao “senso comum”. No entanto, o “senso comum” aqui se relaciona às palavras, formas e conteúdos que não se identificam com o jeito do brasileiro falar. As expressões escolhidas por muitos cientistas sociais brasileiros foram fermentadas em ambientes forâneos franceses ou ingleses. É costumeiro ver certo pedantismo em citações não traduzidas para a língua brasileira, com o objetivo puro e simples da “distinção” ou da afirmação de um pressuposto capital cultural.

Nem mesmo é uma escrita bem humorada. Parafraseando Roberto Gomes, a academia brasileira produz uma “filosofia de terno e gravata” distante da coloquialidade, da palavra autêntica e da audácia do seu próprio povo criar suas próprias expressões. Se utilizássemos “treta” para expressar um “imbróglio” ou uma imagem figurativa como a do “cachorro perseguindo o próprio rabo” para falar, como um brasileiro falaria sobre o conceito de “tautologia” em algum artigo acadêmico ou jornal, logo seríamos execrados pelos donos da linguagem formal, ventríloquos do português brasileiro, mas europeus na alma e no ethos.

O dramaturgo boçal que hoje foi demitido da Secretaria da Cultura expressa, em alguma medida, o formalismo acadêmico e o pedantismo. Com a emoção de um alemão antissemita, quer se fazer valer de uma retórica nacionalista. Nunca vi nacionalismo por exportação. Poderia-se ter uma tradução ou deglutição – na perspectiva proferida pelo comunista Osvald de Andrade- das diversas culturas.

O sincrético, a fusão e o elemento aglutinador fazem parte do Mito Nacional brasileiro. Mito esse que não aceita a intolerância nazista e logo torce o rabo, à direita e à esquerda, entre as classes dominantes e o povão, entre os familiares pracinhas da FEB, os comunistas de todas as variações, o trabalhismo brasileiro e nacionalistas revolucionários. Getúlio venceu. Villa Lobos venceu. A capoeira venceu. O frevo venceu. O forró-tocado-com-sanfona-francesa- pé-de-serra lá do Araripe venceu. Venceu a família mestiça de índio com português, português com negro e negro com índio, apesar de toda a violência implícita e racista da instituição escravista que aqui perdurou e ainda perdura, como diria Jessé Souza.

A hegemonia cultural brasileira tem sentido agregador e diverso. Jamais aceitaria a nostalgia fantasmagórica e pálida de um Alvim. Jamais aceitaria sucumbir à memória dos lutadores antifascistas do Exército Brasileiro. O mito do Brasil mestiço parece ter força nessa imensa comunidade nacional imaginada.

O Goebbels da Casa das Laranjeiras tentou recorrer à via da “coincidência” para se safar da identificação com o Goebbels original. No entanto, é preciso lembrar à tragicômica versão tupiniquim do nazismo que a paráfrase é recurso de linguagem teórica. É campo de batalha das ideias. Não é neutro e nem uma mera semelhança de palavras escolhidas. Possui clara formação ideológica.
Do nosso lado, manteremos firme a memória histórica do jeito brasileiro de falar e da invenção escrita própria da nação. Essa é a retórica nacionalista, intrinsecamente anti-colonial e favorável à liberdade de expressão individual e coletiva com tolerância. Junto aos nacionalistas, estão também os comunistas, retaguarda da luta anti-colonial dos povos do Terceiro Mundo Tricontinental (Ásia, África e América). A hipótese comunista é a razão de antípoda à sacanagem hitlerista e sua sanha maldita de achar que ser branco deve significar coisa melhor que ser mestiço.

A derrota em 1945 significou a derrota do darwinismo social produzido pelo ocidente e levado às últimas consequências pelo nazi-fascismo. Não nos esqueçamos: o Sul dos Estados Unidos e os intelectuais confederados da Ku Klux Klan foram inspirações para o hitlerismo. Segundo Domenico Losurdo, é dali que surge o conceito de “sub-humano” aplicado na Operação Barbarossa.

Ser mestiço é bom, já dizia Darcy Ribeiro. O alerta para a academia e para a cultura foi dado. A babaquice bolsonarista não irá descansar enquanto um Alvim da vida poder ter ao menos o direito de ser intolerante. É preciso reconstituir um passado prático que valorize o espírito heterogêneo e mágico do ser brasileiro. Não há mais espaço para a indiferença e o puro e simples formalismo.

A derrota de Alvim devido às pressões da opinião pública me dá orgulho de ser brasileiro. Qualquer tentativa de reprodução do nazismo foi, deve e será constrangida.

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