Covas, França e Orlando: 2 candidatos e uma locomotiva

Por Esdras Sant’Ana – Para sair do papo fácil, briga de bordão e emoção ideológica que gira ao redor de nossos intensos sonhos, busca de catarse, justiça súbita, redenção, vingança, solução, cura espontânea nesse momento de eleição na cidade de São Paulo (e a mesma dedicação de reflexão e postura em decisão se aplica a esse momento Brasil afora) é preciso fazer algumas perguntas mais difíceis sobre o campo progressista na cidade e estado de SP e tomar decisões bem pensadas. Precisamos considerar algumas questões nessa confusão do progressista paulistano: o que se fala sobre o eleitor paulistano em comparação às vitórias dadas por tais eleitores e depois onde estão esses que foram eleitos e que tomaram tamanho em terras de paulistas e paulistanos. Esse passo para trás, esse olhar para a história, pode nos ajudar a sermos relevantes no dia 15 de novembro com passos certeiros para a frente. Aqui o foco é no município de São Paulo, mas quiça uma reflexão similar não seja necessária em outras regiões.

A realidade às vezes precisa nos invadir com seriedade e o conhecimento sobrepassar o desejo de um sonho alimentado por difusas defesas atávicas, de horizontes em miragem dos Oneiroi. Esses sonhos são muito importantes, como aquele Cruzeiro do Sul que nos orienta, mas a mão no leme nos navega pelas ondas da realidade presente ao nosso destino. Não navegamos pelas nuvens do Cruzeiro do Sul que nos guia, mas ao destino possível aqui e agora. E precisamos seriamente tomar o passo que o agora possibilita e que permitirá outro passo amanhã, o que quer dizer pensar em como se organizam as forças municipais que transformarão essa polis e quem, aqui no poder, será fiel plataforma para a importante derrota do bolsonarismo em 2022.

Mais uma vez, hora de aquilatarmos os sonhos e colocar na balança o que a realidade possibilita de vitória concreta – ainda que essa opção não seja a que mais nos encanta e afaga nossos acarinhados ideais. Nossas dificuldades nessa área da classe média e alta progressista contrasta com o que acontece cotidianamente e de forma instintiva com o resto do povo brasileiro – o voto e escolha de quem melhor aparenta liderar o caminho da mudança e sobrevivência.

Por quatro mandatos seguidos escolheu o candidato apresentado pelo PT, nacionalmente, nesse período manteve uma média de 15 senadores e 76 deputados federais no congresso, chegando a ter 90 deputados e menos de 70 eleitos apenas em 2018, média de 15 deputados na ALESP desde 2002 e na Câmara de Vereadores média de 12 vereadores de 2000 a 2016. Com o impeachment e mudanças em votos, a militância petista e psolista passou a enquadrar o eleitor e adversários, que inclusive eram do nosso lado contra a ditadura militar, como fascistas e nazistas (e faziam isso há anos, até o Bolsonaro aparecer. Aí chama de quê?) São tantas e intensas as informações e passa-se a chamar o povo que votou em Erundina, Marta, Haddad, dois mandatos em Lula e dois em Dilma em fascistas, pobres de direita, conservadores, ingratos, desmemoriados, classe média odienta, elite, gado, burros, etc.

Estes então eram os proletários com consciência de classe, mas agora, de repente, são os ignorantes, etc. etc. etc.? O eleitor paulistano merece essa violência rancorosa? Vamos lembrar que São Paulo é a capital brasileira com mais nordestinos no Brasil. Vamos rapidamente elencar alguns dos lideres apresentados que o povo abraçou e soltou. Na dinâmica de poder da cidade e estado mais rico da América Latina, o que acontece com os líderes que o berço do PT nacional gerou nos últimos 30 anos de mandatos em prefeituras, legislaturas da cidade e estado do qual ele nasceu e se projetou ao pais no qual diz ser a liderança-mor da esquerda? Um rápido mergulho em quem já assumiu a prefeitura pelo partido que nasce pelo sindicalismo nas margens da cidade mais industrializada do país fala mais sobre a confiança prestada do paulistano em lideranças e seus escolhidos nos diversos polos apresentados do que o recente ressentimento: Luiza Erundina – 1989 a 1993 (Hélio Bicudo, Paulo Freire, Mario Sérgio Cortella, Marilene Chauí, Eduardo Jorge, Paul Singer, José Eduardo Cardozo, Perseu Abramo e muitos outros), Marta Suplicy – 2001 a 2004 (Carlos Zarattini, João Sayad, Rui Falcão, Jilmar Tatto, Arlindo Chinaglia, Paulo Teixeira, Eduardo Jorge, Nadia Campeão, Fernando José de Almeida, Fernando Haddad foi chefe de gabinete da Secretaria de Finanças e outros) e Fernando Haddad – 2013 a 2016 (Antonio Donato, Fernando de Mello Franco, Jilmar Tatto, José de Fillipi, Luís Fernando Massoneto, Chico Macena, Eliseu Gabriel, Ricardo Teixeira, Luciana Temer, Celso Jatene, Denise Motta Dau e muitos outros).

Mas ainda assim, abunda a amargura pueril escrita com palavras bonitas com ares de sociologia e filosofia em textos feinhos e análises de conjuras que fazem seitas e bolhas reafirmarem a si mesmo que estão certo e que são vítimas “daquele povo”. É preciso que agora nos lembremos daquele termo alemão abestado “Realpolitik!” mas que carrega uma definição além de sua tradução imediata “Política real” ou da forma pejorativa que às vezes é usado. Significa basicamente, na política, a tomada de decisões baseadas sobretudo em considerações práticas, na realidade material. Assim que as 81,4% das famílias no Brasil, que recebem até R$ 4,700.00 por mês ou os 110 milhões de pessoas (50% do povo brasileiro) que sobrevive com até R$ 513.00 por mês votam: “Com quem será que vou garantir teto para a minha família? Quem aparenta ser o melhor para me possibilitar a colocar a próxima refeição na mesa? Quem me passa confiança de que entende minha dor e talvez ali eu ganhe “R$600.00″ e dê mais uma chance para minha família?” Esse 80% de brasileiros também sonha muito, mas o voto é extremamente consciente, pois parte da dor. É um voto ainda de sobrevivência, sem a possibilidade de pensar ainda em “viver” em vez de apenas “sobreviver”, apesar de toda a capacidade brasileira de viver lindamente dentro de um quadro de sobrevivência. Aquele que diz que o povão é irresponsável no voto não conhece o povo. O povo é frívolo apenas naquela ação onde ele não entende que ele terá interferência, pois não entende a interferência que aquele representante terá sobre a vida dele. O voto do povo é honesto, pragmático, verdadeiro e consciente. E assim temos que agora com serenidade e importante grau de estoicismo meditar, desapegar das estrelas cadentes que alegram o festivo céu e desempenhar nosso sagrado dever e nobre direito de escolha.

À realidade nua e crua: Boulos NÃO TEM CHANCE. Derrete e se desfaz nessas últimas duas semanas do primeiro turno por dois motivos, possivelmente três (apesar da tentativa desesperada de inflarem sua candidatura para que ele perca no 2o turno):

1. Acabou a grana. Jogaram tudo na largada pra morrer sem fôlego bem antes da reta final. O bolo solou e afunda depois de uma jocosa crescida inflada a ar quente de diretórios exógenos.

2. Em protesto, vários diretórios do PT foram apoiar Boulos, insatisfeitos com Tatto como candidato. Mas ao verem como o petista está indo mal nas eleições voltam a apoiá-lo, pois sem isso não farão vereadores e os diretórios ficariam sem recursos. Não adianta apoiar Boulos, pois isso ajuda a fazer vereador para o PSOL, o que em nada ajudará os diretórios petistas. Isso vem esvaziando fortemente a sua campanha (e não tem dinheiro para colocar gente na rua) o que impactará a votação no psolista.

3. O maior cupido e embaixador eleitoral ainda não entrou em campo. Se Lula entrar na campanha de Tatto. O bolo sola ainda mais e desfaz mais rapidamente no alto mar onde jaz.

O 2o turno ficará entre o atual prefeito Bruno Covas e Márcio França. Não votar em Márcio França é votar em Bruno Covas, pois esse tem a vantagem de ter a prefeitura, de ter atuado bem na pandemia, apesar de diagnosticado com câncer ter continuado a exercer a gestão do município e o sobrenome evocar o afeto do povo paulistano. Eu abriria uma exceção tática no voto ao Orlando Silva, pois ele fortalecido no 1o turno, chega com diferencial de vantagem para se colocar como aliado respeitável no 2o turno. Ele ajudaria a puxar qualquer administração às pautas populares e a um projeto desenvolvimentista com toda sua experiência. De nada adianta devanear que o PSOL poderia cumprir esse papel. Boulos nem teve a empatia e solidariedade de apoiar Freixo em seu difícil momento de decisão quanto a se candidatar à prefeitura do Rio de Janeiro. Pois se Freixo vencesse, e a possibilidade era real e boa, se cacifaria e cafifaria acima de Boulos como liderança mais bem preparada, além de escolhida pelo sagrado voto popular, a ser o candidato pelo PSOL à presidência em 2022. Tal mesquinharia não existe em grande líderes e daqueles que entendem o coletivo acima do indivíduo. Isso é próprio de mimados egocêntricos criados a leite e pera. Além do mais, o PSOL não tem verve para o poder e para governar. Russomano já ritualisticamente executa seu haraquiri – sem nem precisarmos considerar que já findou seu capital para eleição. Ele conseguiu cometer o mesmo erro do PSOL, pasme. Além disso. traiu a base bolsonarista e essa não perdoa – e estão certos. Traição se cura com lágrimas e sangue. Somados a esses há vários outros defeitos e bem-vindas gafes devido a sua arrogância.

Assim há 3 opções que serão/devem ser considerados nesse derradeiro momento: Bruno Covas, Márcio França e Orlando Silva. Não é tempo para gracejo ou festinhas. Porque depois que a vela se apaga, só no outro aniversário da democracia para acender outra. Mas aí, o boulo já azedou e um boulsonaro reina por quatro anos. (sic) Depois de passos de Dória para trás, precisamos dar alguns para a frente.

Quem estiver na prefeitura da cidade estará no poder do palanque mais importante para 2022. Você decide. Vai deixar para a sorte ou para o azar? Seu voto hoje em um desses, no 1o turno, terá impacto direto em 2022. Quer ver 2018 se repetir? Esse aniversário da República está em suas mãos.
Concatenação de dados: Rhodner Paiva. Fonte: TSE.

Quem estiver na prefeitura terá o poder da caneta e do palanque mais importante para 2022. Você decide. Vai deixar para a sorte ou para o azar? Seu voto hoje em um desses, no 1o turno, terá impacto direto em 2022. Quer ver 2018 se repetir? Esse aniversário da República está em suas mãos.

Por: Esdras Sant’Ana.

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