Cristina Kirchner mostra o que é o amor à pátria de uma estadista

Neste sábado, 18 de maio, início da chamada “Semana de Mayo” que comemora as revoltas de 18 a 25 de maio de 1810 que culminariam na Guerra da Independência da Argentina, proclamada em 1816, Cristina Kirchner, que lidera as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial, anunciou que concorrerá à vice-presidência da Argentina e o candidato a presidente do peronismo será Alberto Fernández.

cristina kirchner alberto fernandez - Cópia
Cristina Kirchner e Alberto Fernández

Essa decisão da senadora, e ex-presidente da Argentina por dois mandatos, é um momento de enormes repercussões históricas. Num continente arrasado pelo neoliberalismo e pelo avanço do golpismo imperialista que tomou formas muito sofisticadas de guerra híbrida e autoritarismo judicial, Cristina Kirchner mostra seu patriotismo ao abrir mão de interesses mesquinhos e hegemonistas. Sua candidatura seria fortíssima, ela lidera todas as pesquisas, o governo de Maurício Macri é um desastre, e sua eleição significaria a volta ao poder dela pessoalmente e de seu grupo político dentro do peronismo, que é um movimento muito mais amplo, diverso e contraditório, revindicado por todos aqueles que defendem o legado do presidente Juan Domingo Perón na primeira metade do século XX.

Isso se dá em um contexto mundial de crise e transformações profundas na economia e na política em todos os continentes. Particularmente, a América Latina foi varrida pelo fim do ciclo de crescimento baseado no preço das commodities e pela derrubada da maioria dos governos de esquerda, seja por golpes de Estado ou por eleições. O imperialismo neste século XXI cria aceleradamente novas formas e evita a todo custo as quarteladas, até pelo enfraquecimento das Forças Armadas causado pelo próprio neoliberalismo e pelas pressões norte-americanas.

A chave central da atuação dos interesses externos na América Latina tornou-se o fortalecimento de corporações judiciais não-eleitas, o Ministério Público e o Poder Judiciário, que numa aliança sinistra, na qual seus privilégios e super-salários ficam intactos diante do programa de austericídio do rentismo internacional. Essas corporações públicas não-eleitas atuam para tutelar, desestabilizar, e, se possível, derrubar e substituir os governantes eleitos pelo sufrágio universal, tanto os chefes de Estado como os membros dos parlamentos. Este é o núcleo essencial do avanço judicial das últimas décadas em praticamente todos os países.

Não é preciso recontar todo o processo de guerra híbrida, lawfare e desestabilização que o Brasil vem passando desde 2013, tendo no Partido da Lava-Jato seu ator central e na prisão de Lula o troféu maior. Mas é bom citar que isso tem se repetido em vários países, por exemplo, Equador e Peru. No primeiro, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa teve que se exilar pela perseguição judicial que vem sofrendo, e o segundo teve o desdobramento mais trágico, com o suicídio do ex-presidente peruano Alan García, que não aguentou a violência judicial da qual foi vítima e tirou a própria vida no momento de sua prisão como forma de sacrifício político contra o arbítrio golpista, a exemplo do criador do Brasil industrial e soberano, Getúlio Vargas.

Assim como Getúlio, Alan García não aceitou o destino imposto por seus algozes e deixou um gesto para a história de seu país em forma de uma carta como testamento político. Leonel Brizola (herói que evitou o golpe em 1961), João Goulart (golpeado em 1964) e a tradição trabalhista foram os herdeiros da carta testamento de Getúlio Vargas. Alan García teve seu gesto patriótico estendido por seu filho mais novo, Federico Danton, de 14 anos, que no enterro do ex-presidente peruano, após a leitura de sua carta testamento, assinou o documento de filiação no partido do pai em cima de seu caixão!

Cristina Kirchner, na Argentina, sofreu o mesmo tipo de perseguição judicial, inclusive tentaram prendê-la preventivamente, o que foi impedido pelo Senado do país que votou pela liberdade da popular senadora e ex-presidente. As tragédias da prisão de Lula (e, nesse momento, seus erros que contribuíram para isso não importam), do exílio de Rafael Correa e do suicídio de Alan García são todas provas inequívocas do poder e violência do imperialismo e das corporações judiciais. A Venezuela resiste a ofensivas muito mais agressivas, mas até agora a lealdade e força de seus militares impediram uma violação maior da soberania popular no país detentor de cobiçadas reservas de petróleo.

Diante de tudo isso, o Brasil, que sofreu um golpe através de um impeachment sem crime em 2016, em 2018 legitimou nas urnas um projeto autoritário, anti-popular, entreguista e anti-nacional. A disputa na esquerda todos já conhecem. A luta pelo hegemonismo (e não pela hegemonia) no (e não do) campo progressista prevaleceu, culminando no “domingo sangrento” em agosto de 2018 quando se decidiram as chapas eleitorais, e o maior país do continente está à deriva.

Na Argentina a crise também é grave. O governo abertamente neoliberal está destruindo o país e a população já se levantou contra ele, nas ruas, onde gritam que são “soldados de Perón” exigindo a volta de um projeto soberano e popular, e nas pesquisas de intenção de voto, nas quais Cristina Kirchner aparece vencendo de forma avassaladora Maurício Macri. Mas a polarização contra a política fomentada pelo imperialismo e pelas corporações não-eleitas continua atuando, e para derrotá-los é preciso mais do que vencer a eleição presidencial, é preciso muita unidade dos setores políticos populares e nacionalistas, que na Argentina atendem pelo nome de peronismo.

Alberto Fernández é um quadro conciliador e moderado, capaz de dialogar com diversas forças políticas do país dentro e fora do campo peronista. O próprio Alberto Fernández contou que Cristina o convidou, na semana passada, com uma explicação política. “O país não precisa de alguém como eu, que divide, mas sim de alguém como você, que soma”, teria dito a ex-presidente, segundo relato de Fernández.

É esta a questão mais central de todas! Unir o país! Defender o país! “Os cargos são um instrumento” disse Cristina em texto e vídeo (reproduzido abaixo) divulgados hoje. Ela diz que é de uma geração de argentinos que veio para fazer história e não para estar em listas (na Argentina os parlamentares são eleitos em lista partidária). Abrindo mão de seu interesse pessoal de liderar o processo, de colocar suas próprias mãos nas alavancas do poder, de levar seu grupo político ao centro decisório, ela está atuando em defesa de seu país e de seu povo.

O suicídio de Alan García que chacoalhou o Peru, e agora este gesto histórico de Cristina Kirchner na Argentina, marcam um momento de virada na resistência da política baseada no voto do povo contra os lacaios do imperialismo e das corporações não-eleitas, que atuam por mil métodos contra a soberania do sufrágio universal.

Cristina Kirchner é uma estadista que entra para história argentina ao lado de Juan Domingo Perón. O amor à pátria e seu desprendimento pessoal nas palavras da própria Cristina:

“Ese principio siempre remanido y repetido y tantas veces incumplido del peronismo de: ‘Primero la Patria, después el movimiento y por último los hombres’, bueno… Es hora de hacerlo realidad de una vez por todas. No solo con palabras, sino también con los hechos y, sobre todo, las conductas. En este caso, primero la Patria, segundo el movimiento y por último una mujer -permitanme sólo por un instante, un poco de humor feminista.”

Ler na íntegra e ouvir esse pronunciamento de Cristina em sua própria voz é essencial:

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