Crônica de um golpe, por Bob Fernandes, na Venezuela em 2002

Bob Fernandes, Carta Capital, 16 de maio de 2002. Reportagem recuperada: Crônica de um golpe.

Ódios, paixões, traições… Os bastidores do Palácio entre 11 e 14 de abril, os movimentos dos golpistas, o futuro…

Palácio Miraflores, Caracas, Venezuela, sábado 13 de abril. Onze da manhã. Na sala do presidente da República, com champanhe e uísque, ministros e Pedro Carmona Estanga, o presidente autonomeado, brindam à posse do novo governo, menos de 24 horas depois da deposição de Hugo Chávez. Sábado, final da manhã, Forte Maracay, a 108 quilômetros da capital.

O general Raúl Baduell, comandante da 42ª Brigada de Pára-quedistas, está ao telefone. Na sua sala, oficiais de alta patente, tenentes, majores, suboficiais e militares da escolta pessoal de Hugo Chávez refugiados no Forte. Baduell recusou-se a aderir ao golpe de Estado e tomou Maracay na sexta-feira 12, é o que se sabe então. Até que o general, a uma patente superior à sua, do outro lado da linha, comunica:

-Meu general, eu não negocio. Eu me apego à Constituição. O presidente Chávez me garantiu que não renunciaria, e eu acredito nele. E, se ele renunciasse, o vice-presidente é quem deveria tomar posse. Vocês golpearam o presidente, isso é um golpe de Estado. Meu general, se vocês não devolverem o presidente Chávez vivo, faltarão postes na Venezuela para pendurá-los…

hugo chávez venezuela general baduel crônica de um golpe bob fernandes
Hugo Chávez e o general Raúl Baduell.

Baduell fez de Maracay um bunker. A ele se juntaram os generais Verde Graterol, Drubont Torres, Torres Finol, Acevedo, e o contra-almirante Maniglia.

Com essa ação, apoderou-se do centro do país. Sob seu comando, os aviões F-16, barcos de esquadra, fragatas com mísseis, as quatro brigadas da IV Divisão Blindada, sete batalhões, quatro grupos de artilharia, sete companhias, cinco batalhões de tanques AMX-30, um AMX-14…

Baduell ligou a corrente, que se completaria no decorrer do sábado. O general Julio García Montoya se agregou. Na parte ocidental do país, apoio do general Lara Guzmán. Em Mérida, a 31ª Brigada e o general Wilfredo Silva.

Forte Tiuna, na área da capital, é quase uma cidade, com coisa de 20 mil militares. Foi tomado – revela a CartaCapital um dos que ocuparam o forte – sem armas, por seis majores. Com a cumplicidade de soldados e do oficialato médio.

García Carneiro, general a quem muitos tinham como potencial traidor de Chávez, manteve fiel a III Divisão de Infantaria, contra as ordens do comandante do Exército, Efraín Vásquez Velazco.

Com tamanho poderio, em seu telefonema Baduell mandou ainda outro recado: jogaria os F-16 e sua brigada de pára-quedistas de Maracay (onde Chávez serviu e chegou a capitão) sobre o Palácio Miraflores se nele se instalasse o novo governo. O recado chegou a Miraflores.

Histórica filmagem, cedida à segurança de Chávez por um cinegrafista da tevê espanhola Telecinco, flagra os instantes da retomada do palácio pela guarda pessoal do presidente. CartaCapital tem uma cópia da gravação.

No filme, o regimento de segurança e guarda-costas de Chávez destrava metralhadoras, fuzis, invade pátios e corredores do palácio. Ao longo das grades e portões, a multidão. Enlouquecida.

Homens, senhoras e crianças, de trajes e faces que encarnam o estereótipo daquilo que se convenciona chamar de povo, com mãos e braços estendidos, espremidos por entre as grades, choram, gritam, se esgoelam:

– Devuelvan Chávez… Con Chávez hasta la muerte… Chávez, muero por ti…

Soldados de 18, 19 anos sacodem suas boinas vermelhas e gritam de volta:

– Llamen a todo el pueblo, llamen a todo el pueblo.

Na noite de quinta 11, no Batalhão Codazzi se reunia a cúpula do golpe militar; os generais Efraín Velazco, Rodríguez Grau, González Cardenas, Verde González, González Gonzáles, Román Betancourt, Fuenmayor León, Medina Gómez, Ruiz Guzmán…

O comandante do Exército, Efraín Velazco, mais tarde, já no Comando de Escolas Militares, tenta convencer o general García Carneiro a aderir.

Outro general ameaça: Carneiro deveria ser preso por permitir que 11 tanques chegassem a Miraflores para defesa do palácio. Sob aplausos, Velazco diz aos companheiros:

– Não podemos permitir tanques nas ruas. Vão disparar contra quem? Contra outro tanque? Contra o povo? É para isso que somos Exército?

Os generais não contavam com a devoção de jovens oficiais e soldados a Hugo Chávez. Sábado, final da manhã. No interior do palácio, enquanto se prepara a posse do novo governo, ouvem-se os gritos da multidão.

De celular em celular, chega o recado do general Baduell: os F-16 e pára-quedistas sobre Miraflores. O coquetel é demasiado. Tem início a debandada.

Senhores de ternos de fino corte, alguns de vastos bigodes, senhoras de vestes e jóias faiscantes, traços caucasianos sempre, abandonam salas e salões às pressas. O champanhe e o uísque quedam-se sobre as mesas.

Daniel Romero, naqueles minutos quase futuro procurador-geral da República, mousse para cristalizar o penteado, terno Armani, gravata Sulka, assegura:

– Tenemos el control. Seguimos siendo gobierno!

Para chegar ao poder e nele permanecer por 22 horas, a oposição a Chávez contou com o inequívoco apoio de grande parte dos meios de comunicação, como se verá ao longo desse relato. (leia à página 30).

Para armar o contragolpe, foi decisiva uma rede de comunicação, basicamente composta por internet e celulares. Na noite em que se consumava o golpe, em duas salas tinha início a reação.

Numa sala, M conectou, via internet, a teia com duas centenas de jornalistas, confiáveis ao governo, espalhados pelo país.

Noutra sala, na mesma ala do gabinete presidencial, Max e Temir, uma dupla de jovens cientistas políticos, via celular e internet, começava a avisar o mundo do golpe em curso.

São personagens deste relato militares da escolta de Hugo Chávez, ministros, funcionários do Palácio Miraflores, generais aliados ao presidente, militares e civis ligados ao golpe, e jovens oficiais.

Da noite de domingo 14 à madrugada de quinta-feira 18, este enviado de CartaCapital à Venezuela passou 38 horas no Palácio Miraflores.

Entrevistou 16 dos mais próximos auxiliares do presidente. Além de Miraflores, conversou em Caracas com decisivos personagens da montagem da rebelião.

CartaCapital ouviu generais, guarda-costas do presidente, ministros, diretores de estatais, secretárias, soldados…, conversou com quem viveu, minuto a minuto, ao lado do presidente, os instantes do golpe, seus desdobramentos nos dias 12, 13 e 14 de abril e a história do contragolpe na Venezuela.

Alguns dos entrevistados já eram conhecidos desde 9 e 10 de março passado, quando por 14 horas CartaCapital acompanhou Chávez até que se desse a entrevista publicada na edição 182, de 27 de março.

Abril 11. Maximilien Arvelaiz, 29 anos, o Max, e Temir Porras Ponceleon, 27 anos, são assessores de Rafael Vargas, o ministro da Secretaria (a Casa Civil) da Presidência.

Max e Temir fazem doutorado em Política e Sociologia. São micreiros. Conversam, via internet, com o pensador Noam Chomski, com Ignácio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, com uma rede de pensadores e jornalistas da Europa, dos Estados Unidos, das Américas Central e do Sul.

Início da madrugada. Max liga para Chomski, que não está. Telefona para Tiburcio, assessor de Lula. Liga para Ignácio Ramonet, em Paris:

– Ignácio, desculpe te acordar, é muito grave a situação. Estamos vivendo um golpe de Estado.

– Alô, alô. Merde! Chávez tem de falar ao povo. Resistam, o golpe vai fracassar.

M passa, dá a notícia. Max ouve e repassa a Ramonet:

– Não temos mais sinal para tevê e rádio, perdemos o canal 8, do Estado.

– Então é grave, Chávez tem de se refugiar numa base militar, resistam – recomenda, de Paris, Ramonet.

Minutos se vão. Temir senta-se no pátio interno do palácio. Paralisado, ouve a mãe, Mirian, ao celular, em lágrimas, e a mesma mãe, ao mesmo tempo em outro telefone, a discutir com sua avó:

– Meu filho, pelo amor de Deus, saia daí, você vai morrer… minha mãe, deixe o Temir, ele sabe o que faz. Você nunca foi jovem, mãe?

Max, franzino, óculos de lentes profundas, recorda La Moneda, Salvador Allende, e toma uma decisão. Procura seu ministro.

Vargas, um médico, carrega duas metralhadoras. Max lhe pede uma. Vargas nega. Pede a um soldado. Não há mais metralhadoras disponíveis.

Intiana Lopez, assessora do ministro chora. Ministro, Intiana, Max, Temir, se abraçam e choram. Vargas recomenda a Temir e Max que deixem o palácio. Ambos se vão, para a clandestinidade, por um dia.

Na rua, em frente ao palácio, bêbados gritam:

– Viva Chávez… Viva o comandante Chávez.

Max se arrepende:

– Abandonei as pessoas, deixei o presidente.

K, 39 anos, é um tenente. Da guarda pessoal escolhida a dedo pelo próprio Chávez. Conhece o presidente há dez anos. Comandaria agora a retomada do palácio.

K é o militar que, na imagem que percorreu o mundo, a princípio encapuzado e depois de rosto descoberto, surge no telhado do palácio, de braço erguido, indicador para cima e polegar para baixo – símbolo de Chávez – a mostrar para a multidão a retomada de Miraflores.

-Nós morremos por ele. Não reagimos na noite do golpe, ainda no palácio, porque ele nos impediu -, diz K, um técnico em comunicações, a CartaCapital.

B é outro militar da guarda pessoal de Chávez. Sargento, 38 anos, aquartelou-se com o general Baduell em Maracay e estava entre os 18 que foram resgatar o presidente na base militar de Orchila, no sábado à noite.

-Foi uma honra, a maior da minha vida, viva o que eu viver, ir resgatar o presidente Chávez -, conta B a CartaCapital.

M é das mais próximas auxiliares do presidente. Ameaçada de morte pouco depois do golpe, deixou o palácio às cinco da madrugada e escondeu-se. Retornou na manhã do sábado, no instante da retomada.

Carlos Javier Rojas, 46 anos, é o diretor de imprensa do governo. Deixou Miraflores também na madrugada e voltou na retomada. Aleman é o cozinheiro de Chávez. Roberto, o diretor da rádio estatal.

Madrugada. Foi inglória a luta de Carlos e de M em busca de um único sinal que permitisse a Chávez falar em cadeia de rádio e tevê.

Manuel Rosendo e Hurtado, dois generais, tentaram, por toda a noite e madrugada, negociar a renúncia. Rosendo, amigo pessoal de Chávez. Com eles, o general Lucas Rincón, inspetor-geral das Forças Armadas.

Na segunda-feira 15, em entrevista de quatro horas a 111 meios de comunicação de todo o mundo, Chávez surpreendeu:

– Não vi, mas sei que Lucas Rincón falou em minha renúncia. Creio que foi confundido pelos outros, confio em Rincón.

No dia seguinte, o New York Times publicaria o que os próximos a Chávez negam em público, mas não escondem nas conversas privadas: informações sobre as digitais do governo dos EUA no golpe.

Ao negar sua participação, porta-vozes do Pentágono deixaram escapar: Rincón esteve em pelo menos uma reunião com funcionários dos EUA, quando se falou em golpe.

Na noite da rebelião, no 5º andar da sede do Comando Militar, esteve pelo menos um militar norte-americano. E recordemos: o FMI, que assiste à Argentina esvair-se, se apressou a informar que “daria toda a ajuda necessária ao novo governo”. Nada mais indicativo.

Segundo uma edição da revista Newsweek de fevereiro, em dezembro estiveram em Washington, atrás de apoio para um golpe, os generais Ramírez Poveda e Efraín Velazco.

Ambos ex-alunos da Escola das Américas, em Fort Benning, tristemente famosa por formar ditadores dos anos 60, 70 e 80, e por ensinar técnicas de tortura.

Na madrugada de 11 de abril, o golpe se consumando, relatam testemunhas presentes ao diálogo, Chávez por mais de uma vez responde a Rosendo e Hurtado:

– Não renuncio, abandono o governo apenas se me obrigarem, mas não renuncio. Renúncia, apenas se for, como manda a Constituição, diante da Assembléia Nacional.

Antes, das mãos do capitão da armada Rodríguez Chacin, o presidente recebeu uma minuta da renúncia. Junto, um conselho de Chacin:

– Não assine, presidente.

O general Perez Arcay abraça e entrega a Chávez um crucifixo. (O que está em suas mãos na capa desta edição.)

Por telefone, Chávez fala com generais e almirantes. Comunica a Baduell que não renuncia. A entrar e sair da sala de despachos, seu irmão, Adán. Na sala do ministro Rafael Vargas, Hugo de Los Reyes e Helena, pai e mãe do presidente. Calados. Assustados.

Consuma-se a decisão. Chávez deve deixar o palácio. A que horas isso? De 16 entrevistados por CartaCapital que viveram aquele dia e madrugada no palácio, 15 respondem no mesmo sentido:

– Hora? Não sei, não me lembro de hora alguma… não guardei as horas… não me lembrei de olhar o relógio…

Carlos Rojas se recorda da hora, 3h45, em que Ana Elisa, ministra do Meio Ambiente, deixou a sala do presidente, aos prantos:

– Ele se vai, ele se vai…

Corredor polonês em frente à saída da sala do presidente. Uns 40 de seus auxiliares se despedem, um a um. Choram quase todos.

Rosendo, o general golpista, amigo de Chávez até aquela noite, assiste à cena e se irrita. Diz aos jovens militares, guarda-costas do presidente:

– Deixem de ser maricas. Fiquem sérios, sejam homens.

Carlos Rojas, moreno, traços indígenas, chora. Abraça Chávez e trocam palavras (Cada um dos que se despediram do presidente recorda cada palavra do que foi dito.):

– Presidente, saiba que você não esteve só, não está e não estará só.

– Epa, negro.

M, que conhece Chávez desde 1992, está aos prantos. Abraça Chávez, que parece ser o único a se manter tranqüilo. O presidente afaga o rosto de M e lhe diz:

– Desculpe os arreganhos, os momentos duros, minha cara.

M responde:

– Não há desculpas. Estou aqui porque quero, porque tenho fé no meu presidente. Saiba, esteja onde estiver, que só reconheço a ti como presidente. Vou segui-lo sempre.

Aristóbalo, ministro da Educação que no sábado entraria com os soldados em Miraflores para “retomar el palácio caminando con el pueblo”, como se ouve na gravação da Telecinco, também se emociona.

Lá estão Hector Navarro, da Educação Superior, Jorge Giovanni, do Planejamento, Maria de Lourdes, da Saúde, Willian Lara, presidente do Congresso, Vietri Vietri, da Casa Militar.

K, o tenente de 39 anos, guarda pessoal de Chávez, o abraça.

Como o presidente e todos seus seguranças, no início da madrugada K trocou os trajes civis pelo uniforme militar. Ambos se abraçam e conversam. K, para irritação do general Rosendo, também chora:

– Comandante, nós não vamos deixá-lo só. A luta continua.

– Sempre, meu soldado.

Forma-se um círculo à volta de Chávez. O presidente deposto canta, um coro de homens e mulheres entoa o Hino Nacional:

– …gloria al Bravo Pueblo / que el yugo lanzó / la ley respetando la virtud y honor.

Teme-se um ataque ao presidente. Nas últimas horas, 27 foram os mortos por tiros. Vários, com balas na cabeça, óbvia indicação de franco-atiradores. Nas tevês de todo o mundo, a imagem de apenas chavistas atirando.

Nos dias seguintes ao retorno do presidente, fotos mostrariam o outro lado da batalha. Fotos (que CartaCapital publica) feitas por uma mulher, Wendy Olivo, da agência de notícias do governo.

Nas fotos, os camisas azuis, da guarda metropolitana de Alfredo Peña, prefeito de Caracas e feroz opositor do governo, atiram. Com submetralhadoras e pistolas 9 mm. (A arma da polícia metropolitana é o revólver calibre 38.)

…respetando la virtud y honor. O hino cantado a plenos pulmões. Helena não consegue se aproximar do filho. Hugo, o pai, governador em Varinas, está paralisado. A mãe tenta superar o coro e o hino:

– Meu filho, meu filho, onde te levam? Quero ir contigo. Meu filho, o que vão fazer contigo. Meu filho, por que de novo?

Madrugada, 12 de abril. Dez anos depois, Chávez é preso novamente.

Em 4 de fevereiro de 1992, depois de liderar tropas, chegar às cercanias do palácio e render-se com a frase que se tornaria célebre entre os venezuelanos:

– Por ahora. (Algo como “me aguardem, voltarei”.)

Dez anos se passaram. Chávez, preso, vai entrar no automóvel presidencial e sentar-se entre os generais Rosendo e Hurtado. Um de seus guardas grita:

– Por ahora.

Chavez se vira e responde:

– Por ahora.

“Passei por cinco prisões entre 11 e 14 de abril”, revelaria Chávez depois de resgatado. Nas prisões, com ajuda de seus soldados, teria início o capítulo militar do contragolpe.

No Forte Tiuna, duas jovens militares, fiscais, entraram em sua cela. Acompanhadas por um coronel, este a favor da rebelião. Em um pedaço de papel, atestariam as condições de saúde do presidente deposto.

A conversa foi curta:

– Como te sentes, presidente?

– Sinto-me bem, mas quero dizer que não renunciei. Vocês, que são fiscais, escrevam isso na declaração…

O coronel não permitiria tanto. As jovens escreveram apenas um atestado. Quando deixaram a sala, anotaram um postscriptum:

– Manifestó que no ha renunciado.

O atestado, xerocado, alastrou-se pelos quartéis. Em Tiuna, ao ouvir um murmúrio, o presidente deposto indaga a um soldado: “O que é isso, o que é esse barulho?” O soldado, após consultas, responde: “É a televisão”.

Chávez, na segunda-feira, recordaria:

– Eu tinha certeza de que a reação viria. Eu conheço a alma do meu povo e conheço a alma militar, sou parte dos dois. E aprendi a ouvir com minha avó. Ele apurava os ouvidos para escutar o vento que trazia a chuva das llanuras (planícies). O que escutei em Tiuna, bem ao longe, não era a televisão, era o povo, já cercando o forte e a gritar…

Por isso, troca de prisão. Forte Turiamo. Um jovem oficial pede a Chávez que autografe uma Constituição. Ele escreve:

– Turiamo, doce de abril, otra vez preso.

Na Constituição, o jovem oficial mandara um recado a Chávez:

– Señor presidente: triunfar, triunfar, triunfar, Simón Bolívar.

Ainda em Turiamo, às 14h45 do sábado, outra ação decisiva. O cabo Juan Rodríguez vigia o presidente deposto, que revela a Rodríguez não ter renunciado.

Renúncia consumada, os militares se renderiam, o golpe se consolidaria. O cabo Rodríguez recomenda:

– Escribe esto y tire a la basura (no lixo).

Hugo Chávez escreveu, em uma página, o histórico documento que está na capa desta edição de CartaCapital:

…Al pueblo venezolano (y a quien pueda interesar). Yo, Hugo Chávez Frias, venezolano, Presidente de la República Bolivariana de Venezuela, declaro:

No he renunciado al poder legítimo que el pueblo me dió.

Para siempre!! Hugo Chávez.

Nova prisão. Na base militar da Ilha de Orchila. Levado o presidente, o cabo Rodríguez volta à cela, e ao cesto de lixo. Recolhe o comunicado de Chávez, deixa o quartel, vai a um município vizinho e entrega-o à mulher.

Via fax, o comunicado ateou fogo nos quartéis país afora.

Ainda em Turiamo um outro jovem militar repassa um celular ao presidente. Num recado em trinta segundos, Chávez pede à filha:

– Mi vida, busca no sé qué periodista, a quien tú quieras, y dile al mundo que yo no he renunciado, ni voy a renunciar.

O mesmo repete à mulher, Marisabel. A filha telefonou e falou com Fidel Castro, contatou a Telemundo em Cuba e passou a mensagem.

Na quarta-feira 17, o jornalista que recebeu o recado, Fernando Bavsberg foi o único, em 187 do mundo todo, a ter atendido o pedido para uma entrevista exclusiva com o presidente no palácio.

Marisabel Chávez, no sábado 13, à tarde, via telefone, deu entrevista à CNN de língua espanhola e se ouviu mundo afora:

– Chávez no renunció.

Era a senha. No palácio, entre figurões e ministros do novo governo, 18 estavam presos. “Por onde saio?”, perguntavam. “Por ali, por ali”, indicavam os guardas pessoais de Chávez. No final do corredor, algemas.

Miguel Dao, diretor da polícia judiciária que optou por permanecer no novo governo, chegou a um portão do palácio, para sondar. Indagou: “Há água por aí?” Resposta positiva, entrou. Algemas.

Madrugada de domingo, Forte Maracay. Monta-se a operação resgate. O general Baduell perfila a tropa e anuncia:

– Esa es la operación de resgate de la dignidad de Venezuela. Las armas: la razón. Las balas: la moral, y el objetivo, la Constitución.

Discurso para a historia à parte, os guarda-costas temiam que um avião de bandeira norte-americana, estacionado em Orcila, embarcasse o presidente para os Estados Unidos.

Desde então, a mídia fala em oito, seis, quatro helicópteros usados no resgate. Foram três os helicópteros. Dezoito militares e civis embarcaram. Sob comando do general Uzcateri e do contra-almirante Camejo Arenas. Com eles, o sargento B.

Um médico, um juiz, um advogado e um fiscal dentre os que voaram em meio às pesadas metralhadoras armadas em cada porta. Na chegada a Orcila, a sabotagem.

Um sargento foi ao avião de bandeira dos EUA e retirou uma peça, sem a qual não se levanta vôo. Chávez já havia se despedido de um dos chefes da Igreja, monsenhor Ignácio Cardenal Velasco, que o visitava.

Diria o presidente depois que ambos olharam as estrelas, a praia, deram-se as mãos e falaram em conciliação, apesar das diferenças.

Na volta a Caracas, o susto. Fumaça nas montanhas, Los Cerros, que cercam a capital e abrigam as favelas.

– Pedi que descessem o helicóptero, temi um Bogotazo (em Bogotá, abril de 1948, 200 mil mortos) -, recordou-se Chavez enquanto sobrevoava Caracas.

Madrugada do domingo. Nova posse no Miraflores. No vice, Diosdado Cabello, um caloroso abraço. Duas versões sobre as ações de Cabello. Numa, entre um esconderijo e outro, esteve nos cerros a incitar os círculos bolivarianos – organizações populares pontuadas pela presença paramilitar.

Em outra versão, esta também de próximo do presidente, Cabello esteve ainda na embaixada de Cuba, que foi cercada e ameaçada durante a rebelião.

No desembarque no palácio, às 2h45 da madrugada do domingo, sinais da prisão. Ainda na escada do helicóptero, Chávez manca. Mais uma vez, o hino:

– …gloria al bravo pueblo…

Dois dias depois, na entrevista coletiva, Chávez deixaria a mesa, chegaria junto a uma jornalista, para mostrar que não foi agredido. Mas foi. Próximo às têmporas, as marcas.

O presidente deposto, revelavam auxiliares, foi encapuzado, tomou pancadas dos dois lados do rosto, foi chutado na perna esquerda, à altura da coxa.

Não foram os únicos ferimentos. Hugo Chávez fala em conciliação, mas o futuro será outra enorme, dura batalha. Os Estados Unidos se negam, como adiantaram seus porta-vozes, a reconhecer a legitimidade do governo.

Na Venezuela, é profunda a divisão do país. De um lado, ricos em geral, uma porção de chefes militares, outra da classe média – ainda não mensurada depois do desastroso golpe que deixou 54 mortos e 97 feridos.

Na quinta-feira 18, mais de 40 generais e almirantes seguiam presos, à espera de julgamento. Pedro Estanga estava em casa, sob prisão domiciliar.

Com a oposição, ainda, a poderosa petroleira PDVSA e a Central dos Trabalhadores. À frente de todos, sempre, grande parte dos donos da mídia e seus porta-vozes.

Essa é uma história de ódios e amores profundos. Paixões, torpezas, traições e atos heróicos, como é sempre a história de qualquer país nos instantes decisivos, dramáticos.

Uma história que, aconteça o que acontecer, um dia terá algo de lenda. Vladimir Putin, presidente da Rússia, classificou-a:

– Isto foi inexplicável.

Fidel Castro, um dos 37 chefes de Estado que procurou Chávez depois dos eventos, sobrevivente a mais de uma centena de atentados em 43 anos de poder, confessou:

– Estou estupefato.

Messiânico – algo que, desta vez, lhe foi útil -, adepto da ligação direta, populista, organizador de um governo que, por necessidade ou origem, tem estruturas de poder militarizadas, Chávez provou na pele, dez anos depois, a dimensão e o drama embutidos numa tentativa de golpe.

As feridas e perdas são muitas, algumas duríssimas, de amigos próximos, como o general Rosendo. Mas não apenas. Há perdas ainda desconhecidas pelo público.

Roberto, o ripongo diretor do Alô Presidente, programa dominical em rede de rádio e tevê, o traiu. Escondeu-se e deixou o governo sem rádio e tevê.

Amigo do golpista contra-almirante Molina, alguém da absoluta intimidade, de convivência diuturna, também traiu o presidente.

Ele, o bonachão Aleman. O cozinheiro de Hugo Chávez.

***

A mídia e a rebelião virtual

Nas telas e ruas, os meios de comunicação na linha de frente

Dez da manhã da quinta-feira 11. A Venezuela em greve geral. Com ampla divulgação dos meios de comunicação, aquele é o dia da grande passeata. A PDVSA, empresa de petróleo da Venezuela, quarto maior produtor de petróleo do mundo, está parada. Meio milhão de caraquenhos nas ruas, emprotesto contra o presidente. Jovens de boné de beisebol, tênis Nike, carregam estandartes: “Muerte a Chávez”, “Cara de mono (macaco)”, “se vá”, “Bin Laden e Fidel Castro – Chávez”.

As televisões Venevisión, RCTV, Globovisión transmitem a marcha, ao vivo. A convocatória se deu na véspera. Na rede de rádio Unión, um trio, popular entre os opositores do presidente, cobre a passeata: Marta Colomina, Miguel Rondon e Kiko. Kiko, repórter em meio à marcha, analisa:- Um dia histórico para a Venezuela. Do estúdio, onde estão Marta e Rondon, 12 horas antes da queda, se ouve:- Parece que Chávez não está no palácio, se foi…As redes de tevê, ao vivo, sem cortes. A Venevisión é de Gustavo Cisneros, dono também da Coca-Cola, Telcel (com Bell South), Univision (nos EUA), DirecTV. Cisneros, depois do golpe, foi o encarregado de ligar para o Estado de Falcon e convidar o sindicalista Ortega, da CTV, a integrar o governo. Avião à disposição, Ortega não embarcou. A RCTV é de Marcel Grasier e família Phelps. A Globovisión, de Alberto Federico Pavell, é uma das acusadas de tirar o sinal do ar no instante em que Hugo Chávez falava ao país em rede de tevê e rádio na dramática tarde do dia 11. Televisores e jornais foram cercados por populares, militantes e militares de Chávez no sábado, em meio ao contragolpe. Ao contrário do dia da marcha, nada foi exibido pelas televisões enquanto o neogoverno perdia o poder. Quem tem TV a cabo e internet acompanhou a reação. Por decisão do governo de Pedro Estanga e seus aliados, a Venezuela não soube o que se passava no dia 13. Pavell deu entrevista à sua tevê na terça-feira 16, depois de Chávez ter falado em conciliação e ter pedido:- Por Deus, donos de meios de comunicação, façam uma reflexão ao quadrado, ao cubo.

Pavell respondeu. Ao tempo em que falava em reconciliação, não escondia a ira. Dizia, como se tal fosse uma ameaça:- Se querem informação, a terão hoje à noite. Pavell falou como quem sabe ser detentor de um poder igual, ou maior, ao de um presidente da República:- Não temos medo… Se você está estendendo uma mão verdadeira, nós podemos sentar para conversar…Finda a entrevista, a apresentadora Maky Arenas assegura ao patrão:- Estou encantada com esta entrevista. Pavell está aqui para mostrar que nós podemos dizer o que queremos, sem censura. A tevê segue no ar, mas sem ninguém na bancada. A entrevistadora se levanta, câmeras, auxiliares, todos abraçam e aplaudem o patrão. O país assiste à cena.

***

Governo de Pedro, o Breve

Algumas razões para o naufrágio do governo que foi sem ter sido

O governo de Pedro Carmona Estanga, Pedro, “O Breve”, como é agora conhecido, caiu em grande parte por seus próprios erros.

Caiu por desarticulação e briga pelo poder entre os protagonistas do golpe: dirigentes da federação de empresários, a Fedecamaras, dirigida pelo próprio Estanga, a Central dos Trabalhadores (CTV), comandada por Carlos Ortega, e caiu pelo desacordo, e trapalhadas, entre seus chefes militares.

Caiu porque a cúpula da Igreja, a Católica de 2002 anos de vida, sentiu os humores profundos da alma popular (a alma da porção mais disposta ao tudo ou nada) e refez o seu rumo entre a noite da quinta-feira 11 e o sábado 13.

O governo não se completou porque dentre os que, decisivamente, o tornaram possível estavam alguns dos donos de meios de comunicação.

Tais senhores passaram três anos a explicar como devem ser feitas as coisas, a história, mas não souberam fazê-la, a história, quando ela lhes chegou às mãos.

O governo de Pedro Estanga foi breve por erros cruciais como a posse ilegal no lugar do vice-presidente, a revogação da Constituição em vigor, o fechamento do Parlamento e o anúncio, na sexta-feira 12, da retirada da expressão Bolivariana do nome da República da Venezuela.

Num país cuja capital, Caracas, tem a principal avenida, a Bolívar, tomada por gigantescos cartazes, luminosos, vasta propaganda escrita em inglês, num país com 80% de pobres ou miseráveis, Simón Bolívar tornou-se um ícone, um dogma para os que foram decisivos no contragolpe: os oficiais militares de média patente, os soldados e a população pobre.

O bolivarianismo não é apenas um instrumento de marketing. Chávez é um nacionalista, com um discurso voltado para a América Latina, isso num país desde há muito com sua elite, inclusive a militar, voltada para o norte, para os Estados Unidos.

Para a multidão de deserdados e para o jovem oficialato, Bolívar.

4 Comentários

Deixe uma resposta