Curso da Folha de S. Paulo sobre ditadura militar vai começar com a sua autocrítica e apontar como funcionava a máquina da repressão que participava?

A autocrítica é sempre bem-vinda porque demonstra uma reflexão de si mesmo, reconhecendo erros e acertos para aperfeiçoar sua conduta ou ação na prática. Quando encarada para mudar posicionamentos e não cometer os mesmos erros é um ato de grandeza.

Falar de si e detalhar como ajudou a ditadura militar. É assim que o jornal Folha de S. Paulo deveria iniciar o curso que está promovendo sobre o período, pois teve participação ativa bem como outros veículos de comunicação (dos grandes jornais, apenas o Última hora não apoiou o golpe) para que o Brasil tivesse essa marca de sangue em nossa história.

Octavio Frias de Oliveira comprou o jornal em 1962 e a disputa do mercado editorial se dava com o Estado de S. Paulo e com o Diário de S. Paulo, dois partícipes da construção da ofensiva militar.[1]

Mesmo sendo menor na época, a Folha estava alinhada com a conspiração para derrubar João Goulart através do posicionamento do veículo e com a participação em duas organizações que reuniam os setores civis: o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), no qual o jornal consta na lista de “associados proeminentes.”

Segundo Oscar Pilagallo, jornalista que vai ministrar o curso que começa amanhã, a “Folha promoveu, com o Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, o Congresso Brasileiro para definição das Reformas de Base” que tinha entre seus objetivos orientar a elite em relação as reformas que Jango estava articulando e era alvo da disputa da narrativa política naquele momento.

No dia seguinte ao famoso comício de Jango em defesa das reformas estruturais e institucionais, a Folha publicou em editorial: “O comício de ontem, se não foi um comício pré-ditadura, terá sido um comício de lançamento de um espúrio movimento de reeleição do próprio sr. João Goulart.”[2]

O conluio para golpear Jango e as mudanças que queria implantar unificou toda a imprensa na execução prática dos atos e na função de centro de orientação ideológica da elite colonialista brasileira, colocando as próprias disputas em segundo plano, como podemos ver em mais um trecho do livro de Pilagallo:

“Os dois jornais, O Estado e Folha, tinham a mesma opinião favorável sobre o governo militar. Ambos aprovaram, por exemplo, o Ato Institucional nº 2, de outubro de 1965, que extinguiu os partidos políticos, cassou mandatos e instituiu a eleição indireta para a Presidência da República.”

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Alguns anos depois, em 1971, em editorial assinado por Octavio Frias de Oliveira, o jornal qualificava o mandato de Emílio Garrastazu Médici como  “um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, que está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lucido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama”.
(https://www1.folha.uol.com.br/folha/80anos/tempos_cruciais-02c.shtml)

Já em 2009, em editorial que atacava o governo de Hugo Chávez o jornal da família Frias chegou a chamar a ditadura de “Ditabranda – caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.
(Editorial de 17/02/2009 – https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1702200901.htm ). [3]

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Manifestação em frente a sede da Folha de São Paulo

Anos após auxiliar a implantação do regime militar, em editorial de 30 de março de 2014 intitulado “1964” mesmo ao esboçar a crítica ao período, o jornal aponta que tanto a ditadura que matava quanto os que resistiam e buscavam formas de sobreviver  tinham a mesma responsabilidade porque “parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico.”
(https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/03/1433004-editorial-1964.shtml)

Por fim, além do apoio editorial, o jornal ajudou a sustentar a OBAN (Operação Bandeirante) com recursos financeiros e materiais, como o empréstimo da frota de carros que serviam para transportar secretamente os militantes que faziam oposição ao regime.

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Furgão da Folha que era usado para transportar presos políticos incendiado em manifestação

O fato consta no relatório da  Comissão Nacional da Verdade, na tese de doutorado da pesquisadora Beatriz Kushnir[4] e em depoimentos de presos políticos como o de Ivan Seixas que foi preso aos 16 anos e torturado ao lado de seu pai, Joaquim Seixas. Ele relatou ter visto diversas vezes os carros da Folha serem usados por agentes da repressão.

Hoje, a Folha afirma que “o jornal viu-se rapidamente engalfinhado pelo novo sistema de poder, perdendo a capacidade de reagir antes mesmo de percebê-lo.”

A Folha precisa ir além e se distinguir daqueles que querem surrupiar a história, como os que ela própria acusa como “saudosistas de um mundo de fantasia”. [5] Este é um bom momento para o jornal vir a público para contar como funcionavam as máquinas da repressão e a participação dos empresários com acuidade visual de um ator que estava bem posicionado nos acontecimentos históricos.

Esta contribuição não cabe somente em um curso, quiça em um editorial.

Por Ana Flávia Marx, jornalista, mestra em ciências da comunicação pela ECA/USP e diretora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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[1] Mesquita chegou a receber de Ernesto Geisel, em janeiro de 1962 para que acertassem detalhes da ditadura. O jornalista respondeu ainda no mesmo mês com uma carta nomeada “Roteiro da Revolução” que recomendava entre outras exigências “uma limpeza radical nos quadros da Justiça” (ver mais em Pilagallo, Oscar. A história da imprensa paulista, 2012 e em Chagas, Carlos. O Brasil sem retoque)

[2] Pilagallo, Oscar, A história da imprensa paulista. 2012, p. 158.

[3] A Folha de S. Paulo recebeu centenas de manifestações repudiando o editorial, entre eles de Fábio Konder Comparato e de Maria Victoria Benevides. A resposta do jornal foi em 20 de fevereiro: “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.”

[4] A pesquisadora lançou o livro  Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, resultado da tese de doutorado

[5] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/democracia-nunca-menos.shtml

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