O sonolento debate da TV Gazeta

Realizar um debate presidencial num domingo às seis da tarde definitivamente não era uma grande ideia. A insistência da TV Gazeta em realizar o debate nesta data, mesmo após o atentado à Jair Bolsonaro ainda dominando o imaginário público, talvez não tenha sido a maior bola dentro. Todos os participantes estavam mais dóceis. Para se ter noção, o mais esquentado era Henrique Meirelles.

Alckmin, na ausência de Bolsonaro e inexpressividade de Meirelles, foi o mais atacado. Foi acusado de comandar o Estado que “difundiu e espalhou” o PCC, além das habituais alusões à proximidade óbvia com o presidente vlogger, Michel Temer. Temer, o vlogger , mostrando-se habituado às novas redes – cartas nunca mais! – nesta semana fez um de-sa-ba-fo em relação a Alckmin. Eu shippo.

Ciro Gomes parecia retirado da câmara dos lordes. Verdadeiramente calmo, incisivo e pouco chegado a emoções. O público, segundo o sistema big data, adorou. Ciro foi o mais citado nas redes, rendendo a manchete “Ciro surpreende indecisos” pelo portal br18, ligado ao Estado. Mas não brilhou, como o resto.

Marina parecia deslocada. Estava mais apagada que o normal. Ensaiou algumas dobradinhas com Ciro e teve seu melhor momento em suas considerações finais, em que deixou claro a ênfase de sua campanha: falar às mulheres e aos “cansados disso tudo aí”.

Álvaro Dias estava mais propositivo. Disse pela primeira vez em sua campanha algo que não fosse lava jatismo. Tudo carregado com um moralismo raso, difuso, que convence muito pouco. Foi colocado na parede pelo candidato Guilherme Boulos, que apresentou o absurdo dos privilégios do Poder Judiciário e seus penduricalhos. Álvaro Dias, à contragosto, foi obrigado a concordar. Aliás, Boulos e Álvaro Dias por vezes fizeram dobradinhas bem improváveis. O Brasil sempre pode nos surpreender.

Boulos foi bem. No geral ele vai bem em debates, mesmo que não consiga transformar sua retórica em votos. É preparado e eloquente. Às vezes parece falar muito à juventude esclarecida, um defeito crônico do PSOL. Foi o mais enfático no ataque a Temer e Alckmin. Deixou Meirelles desequilibrado ao dizer que taxaria os milionários como ele.
Toda vez que Meirelles parece melhorar seu cenário aparece um debate para nos fazer pensar quem teve a ideia de apostar nele para candidato a qualquer coisa. Seu carisma de defunto piorou o debate que já estava pasteurizado. Foi chamado de banqueiro milionário, ministro de Temer e expoente dos capital especulativo. Não teve coragem de desmentir, para o bem do bom senso. Ficou verdadeiramente bravo com Guilherme Boulos e perdeu até as palavras, que já lhes são caras quando calmo.

Destaque seja dado para a mediadora, a jornalista Maria Lúcia, que merece as honras de ter sido a pior mediadora de debates que esta coluna já viu na vida. Atrapalhou a todos, democraticamente.

Neste debate, vimos as campanhas andando sob ovos. Os dois mais bem colocados na disputa estavam ausentes e criticá-los não parecia uma boa ideia. Seja pelos potenciais votos transferidos de Lula ou pela compaixão com o capitão baqueado.

A democracia, cambaleante, não pode esperar. O autoritarismo, que parece respirar por aparelhos, recebeu de presente uma desventura que pode colocá-lo direto no segundo turno. A democracia, talvez não tenha a mesma sorte do deputado.

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