Observações sobre os últimos atos em defesa da educação

1. A mobilização ainda continua forte

Os cortes do governo tiraram os estudantes da inércia e trouxeram pra rua milhares de pessoas que geralmente não participavam de manifestações. Isso foi uma grata surpresa para mim, que esperava manifestações bem menores do que as do dia 15. É possível dizer que os atos foram menores, mas ainda foi possível mobilizar muita gente nessa pauta;

2. A pauta da educação tem uma capacidade aglutinadora muito maior do que estamos vendo

A defesa da educação pública de qualidade é uma pauta praticamente unânime no Brasil e isso DEVE ser explorado pelos atos até o limite, forçando com que a população entenda Bolsonaro como um inimigo da educação pública brasileira. A luta contra a reforma da previdência é muito importante e deve ser colocada em questão, mas uma questão tática importante é atrair um grande grupo de pessoas para a defesa da educação e começar a partir daí um debate mais amplo sobre a concepção de Estado que Bolsonaro e seus ministros têm, ampliando a discussão para a luta contra a previdência.

3. A tentativa do PT em impor o “Lula livre” nos atos está dificultando as coisas

A pauta da educação é uma pauta ampla e por isso conseguimos atrair para o nosso lado pessoas que geralmente não são muito simpáticas ao PT mas que devem ser nossos aliados na luta contra o governo. Todas as falas petistas puxavam gritos de “Lula livre” como palavra de ordem no ato que fui. Essa tentativa de impor essa pauta em todos os lugares é ridícula. Não conseguem pautar isso em um debate normal e querem impor essa pauta para as manifestações. Isso pode afastar as pessoas e transformar um movimento com capacidade de ser gigante em um movimento somente para os militantes próximos. É sempre bom lembrar que na última pesquisa sobre o tema, 51% dos entrevistados achavam justa a prisão do Lula, 37% a achavam injusta a prisão e o resto não sabiam ou não responderam. Qual o resultado prático? Querer impor a pauta da liberdade do Lula nos atos faz com que só consigamos dialogar com 37% das pessoas, o que é um suicídio monstro. A verdade é que a tentativa de transformar Lula em um Nelson Mandela não deu certo e o que se viu na verdade é que Bolsonaro consegue mobilizar muito mais que o Lula. O PT precisa repensar essa sua tática hegemonista de forma urgente pois corre o risco de destruir qualquer mobilização em oposição às pautas do governo.

4. O modelo de mobilização que a oposição tem feito precisa ser repensado

Esse modelo de juntar todo mundo em algum lugar central e sair andando pelas ruas gritando palavras de ordem em dia de semana precisa ser repensado por completo. Não tem dado certo já faz um bom tempo e pode ser que continue não dando certo. Não alcança o trabalhador (até o prejudica), só alcança uma parcela sindicalizada e a classe média, o que faz com que o abismo que os setores progressistas criaram entre si e o povo seja cada vez maior. Qual a solução? Pensar em atos na periferia que construam um diálogo com o trabalhador. Após isso, buscar travar batalhas em atos maiores que sejam mais eficazes, desafiando o governo até com atos e demonstrações de desobediência civil não violenta que crie constrangimentos e fissuras dentro do governo e na relação com este e a população trabalhadora. Pensar sobre estratégia e tática na política nunca é demais na ação política, ainda mais em um momento em estamos perdendo de lavada.

5. A esquerda precisa repensar suas atitudes diante de grandes mobilizações

O desafio em grandes mobilizações é fazer com que cresçam sem perder o foco e virar algo completamente vazio e despolitizado, como ocorreu em 2013. Isso exige estratégia e tato político das forças que constroem as mobilizações. Existem setores mais radicalizados na esquerda que não podem ver 20 mil pessoas na rua e já acham que a revolução está batendo na porta, o governo está caindo e tudo mais. Essa empolgação precisa ser substituída por uma postura mais racional, que saiba sentir as demandas das massas sem perder o povo no meio do caminho. Eu senti que muitas lideranças trocaram a razão pelo fígado, o que fez com que certos discursos estivessem em uma sintonia completamente diferente daquela das ruas. A radicalidade é muito mais do que gritar um grupo de palavras de ordem revolucionárias. Saber como se portar em grandes mobilizações, mantendo e avançando nas pautas sem afastar as pessoas é um grande desafio colocado para os progressistas não ficarem gritando só para meia dúzia no final das contas.

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