A derrota do liberalismo na Argentina e suas lições

O resultado das eleições primárias na Argentina, ontem, soa como um estrondo: esgotou-se a propaganda ideológica liberal.

O atual presidente Mauricio Macri perdeu por mais de 15 pontos percentuais para a chapa encabeçada por Alberto Fernández, cuja vice é ninguém menos que Cristina Kirchner.

Macri foi eleito nas últimas eleições com a promessa de melhorar a vida dos argentinos acabando com a inflação, desmontando o Estado através de privatizações, abrindo mais a economia para investimentos e importações estrangeiras e se aproximando mais dos Estados Unidos enquanto se distanciaria da política bolivariana na América do Sul.

A propaganda ideológica liberal na Argentina foi avassaladora. Assusta, por isso, o declínio rápido e incisivo de sua eficácia após um período de quatro anos de governo efetivamente liberal.

Não podemos esquecer o apoio internacional à plataforma de Macri, inclusive de grupos políticos e veículos midiáticos brasileiros, que viram nela a receita pronta do discurso a ser utilizado nas eleições de 2018 no Brasil. Jair Bolsonaro e João Doria, por exemplo, amparados por Paulo Guedes e Henrique Meirelles, são dois representantes dessa corrente na política nacional.

O Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, foi um dos grandes arautos desse discurso. Trabalhando intensamente para disseminar a ideologia liberal, que pouco corresponde à realidade e nada oferece como alternativa a um país diverso, desigual, subdesenvolvido e continental como o Brasil, o conteúdo espalhado pelo movimento nos ajuda a compreender um pouco a histeria macrista que rondou a região. Recordemos:





Esses são apenas alguns exemplos da propaganda liberal em torno de Mauricio Macri a partir das últimas eleições da Argentina.

Mais alto o vôo, mais forte a queda

Como ressaltou o MBL, Macri aprovou uma reforma da previdência, uma reforma trabalhista, fez ajuste fiscal (austeridade), e acabou com “mamatas”. Na prática, é uma reprodução da agenda iniciada no Brasil por Dilma II (e seu ajuste fiscal radicalmente contrário ao discurso da campanha de 2014), avançado por Michel Temer (mais austeridade fiscal, acompanhado de reforma trabalhista) e continuado por Jair Bolsonaro (menor taxa de investimento público desde a década de 1940, com reforma da previdência e o fim de “mamatas”, seja lá o que isso signifique).

O resultado não podia ser tão distante do que vivemos no Brasil, com uma singela diferença que observaremos mais adiante. Por isso, passada a euforia ideológica com o governo Macri, os efeitos concretos começaram a surgir.

O desemprego argentino beira os 10%, a taxa de empregos informais ronda 40%. O nível de pobreza da Argentina é de 33%. A inflação, um dos grandes focos de crítica aos governos progressistas latino-americanos da primeira quinzena dos anos 2000, atingiu o índice mais alto dos últimos 27 anos em 2018: 47,6%.

A vida dos argentinos piorou radicalmente. Observa-se uma fraqueza sem precedentes da produção industrial, vítima da abertura econômica de Macri e seu ataque ao “tamanho” do Estado, ou seja, desmontando sua funcionalidade diante das necessidades do crescimento econômico: em dezembro de 2018, a indústria registrou uma queda de 14,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

O liberalismo mostrou-se uma catástrofe econômica e, principalmente social. Por isso, o apelo de sua propaganda ideológica sofreu um duro revés num curto período de 4 anos.

As eleições primárias não são definitivas, apenas preparam o cenário para a verdadeira eleição que virá em outubro. Os eleitores, porém, participaram em peso (cerca de 75% do eleitorado compareceu às urnas), e a distância de Fernández para Macri é um resultado duríssimo para reverter.

A Argentina é aqui?

Por que, no Brasil, a propaganda liberal ainda resiste com força, mesmo com o fraquíssimo desempenho da economia e o alto desemprego?

É indispensável mencionar as condições objetivas. O Brasil é o país mais rico e importante da América Latina, e portanto seus veículos midiáticos são os mais poderosos, e a presença de interesses estrangeiros que se alinham à imposição de uma agenda liberal ao país é ainda mais forte e estratégica do que em qualquer país vizinho.

Isso posto, há que se considerar o resultado legítimo das últimas eleições que alçaram Jair Bolsonaro ao Planato. Como com Macri, certa euforia mercadológica previne o cenário de revelar suas tendências destrutivas logo no começo do governo.

No entanto, as condições monetárias no Brasil são muito mais favoráveis do que na Argentina. Nossa economia é, historicamente, mais robusta, e o real brasileiro não sofre a mesma corrosão que o peso argentino, impedindo que o mesmo nível de inflação seja deflagrado no Brasil.

Ocorre que por esse mesmo motivo, o Brasil não necessita manter as altas taxas de juros que a Argentina mantém atualmente, aliviando de certa forma a crise econômica brasileira que se arrasta.

Ainda que a economia brasileira esteja rastejando e não apresente sinal algum de que irá se levantar, esse estado letárgico mantém viva a propaganda liberal, que se alimenta de uma eterna promessa de “modernização” do país contra qualquer agenda supostamente atrasada que reivindique o Estado para causas populares e para a proteção da economia nacional.

Além disso, contudo, há um elemento conjuntural que dá fôlego ao liberalismo no Brasil. Aqui, o liberalismo associou-se ao antipetismo e sobrevive ao encontrar no petismo seu inimigo discursivo. Discursivo, é claro, pois na prática não houve qualquer conflito entre a condução econômica do governo e o mercado, durante os anos do PT.

O que aconteceu, na verdade, é que o liberalismo brasileiro, que transforma o país em plataforma para a acumulação financeira internacional, encontrou um gestor melhor para os seus interesses, que permite avançar exatamente onde a correlação de forças e interesses dos governos passados não permitiam: o aprofundamento da absorção do Brasil pelo mercado internacional.

Isso se mostra em áreas estratégicas, onde a política externa petista agia como contra tendência ao entreguismo: o pré-sal, a Embraer, a Eletrobrás, a construção civil, o submarino nuclear etc.

No Brasil, a presença de uma chapa encabeçada por Lula até as vésperas da eleição, mesmo preso em Curitiba sem a mais remota possibilidade de concorrer, operando uma transferência significativa de votos para o seu vice Fernando Haddad, explodiu o sentimento antipetista no país, abrindo espaço para os operadores do liberalismo econômico surfarem e continuarem surfando nessa onda até hoje.

Quando Paulo Guedes defende suas pautas indefensáveis, o faz sempre através da comparação com o petismo. O petismo permanece como uma sombra. Pior, Bolsonaro, Guedes, Moro e sua turma, desejam a permanência dessa sombra, pois dependem dela.

Na Argentina, a situação era semelhante. Até Cristina Kirchner abrir mão de seu protagonismo e aceitar ser vice na chapa de Alberto Fernández. Com isso, a ex-presidente argentina aglutina tanto os saudosos de seu governo, que são muitos (como no Brasil são os de Lula), como aqueles que desejam um projeto que seja capaz de avançar.

Tal projeto jamais poderá ser um plebiscito sobre o retorno do passado, como foi em 2018 a chapa Lula-Haddad e, em seguida o mote “Haddad é Lula”.

Isso não quer dizer que o herança de Lula fique para sempre no passado. Seria forçoso desconsiderar o legado político do ex-presidente e sua força e representatividade atual. Ocorre que Cristina Kirchner acaba de desenhar uma fórmula para driblar a rejeição e bombear sangue novo num projeto político progressista e social, e talvez essa seja a maior lição, no continente todo, para nós brasileiros.

A Argentina é muito mais perto do que pensamos.

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