Como a derrota do neoliberalismo na Argentina assombra os puristas do voto nulo no Brasil

A derrubada do governo neoliberal na Argentina nos convida à reflexão sobre determinado tipo de fetiche que apazigua a consciência de muitos brasileiros sempre famintos de elementos purificadores do moralismo político. Aqueles, que movidos por critérios próprios pretensamente balizados e racionais bradam Lula nunca mais e criticam, por exemplo, a volta de Cristina Kirchner ao poder ou o retorno do peronismo. É a ilusão de que indivíduos transformados em líderes ou heróis são os grandes e principais demiurgos da vida social.

O fetiche acomete muitos tipos, como, por exemplo, os que votaram nulo nas últimas eleições brasileiras sem saber ou mesmo sabendo que estavam indiretamente elegendo Jair Bolsonaro; os que votaram um dia no PT e, sentindo-se traídos, engrossaram a histeria fabricada do ódio antipetista; os que até já foram militantes comunistas e se tornaram neoliberais na maior cara de pau, embarcando na onda pós-moderna do politicamente inovador e gerencial”, acreditando no fim da história. Desses últimos, vale dizer, aqueles que nunca leram Marx e o acham ultrapassado. E, sem dúvida alguma, tal fetiche acomete também os messiânicos de diversos outros tipos, inclusive, os de esquerda.

Não à toa uso um termo caro na análise marxista da mercadoria e das formas de representação da sociedade capitalista. De maneira bem suscita e simplificada pode-se dizer que o fetiche tem tudo a ver com o que o pragmatistado fim do século XIX William James dizia em relação à moralidade, que, conforme observou, só pode acontecer na experiência concreta. E assim completo: na experiência palmilhada da vida e não nas pretensões teóricas ouesotéricas dos indivíduos. James de repente era marxista e não sabia ou não assumia.

Sobre misturar numa salada teórica marxismo e pragmatismo, diria que a utilidade de reflexões heterodoxas pode surpreender na tentativa de compreensão de algumas situações. Muitos não gostam desse troço de articular argumentos unindo autores ou correntes filosóficas díspares e supostamente contrapostas, argumentos que põem lado a lado pensadores em relação aos quais intelectuais e analistas se odeiam e se engalfinham com sectarismos a tiracolo e de prontidão para solucionar problemas da verdade absoluta. Mas, se teorias divergentes servem, juntas e ao mesmo tempo, para iluminar fatos – estou dentro!

Lembro, por exemplo, Gyorky Luckács, que critica o pragmatismo em sua monumental obra “Para uma ontologia do ser social” (Boitempo), sem, porém, explicitar claramente os motivos. E faz, desconfio, por talvez identificar uma contiguidade temporal e de substância com o positivismo, mesmo que um possa não ter nada a ver com o outro, a não ser o fato de serem quase coetâneos, porém nascidos em berços diferenteso primeiro nos Estados Unidos e o outro na Europa.

Aproveito o termo ontologia não para assumir a crença de uma predestinação de determinações sobre causas e efeitos, mas, justamente, para lembrar aos puristas que o processo político e social é sempre errático, ainda que almejemos e acreditemos em projetos coletivos de convivência – ainda, enfim, que pensemos o Brasil como sociedade a ser cotidianamente construída para promover determinados fins.

O moralismo demiúrgico se caracteriza pela crença de que indivíduos não mudam no tempo e líderes têm sempre os mesmos projetos cristalizados em qualquer período da história. E que projetos e ideias também não mudariam, apesar das condições e circunstâncias distintas em tempos diferentes.

Ora, o próprio caráter errático das políticas públicas, mesmo num conjunto de programas de um projeto maior, implica oscilações, vacilações, intencionalidades frustradas, dois passos para frente, um para trás, escolhas de alternativas provisórias e outras tantas ações do plano imponderável para poder compor interesses em conflito.

Políticas distributivas e redistributivas, além das regulatórias, implicam, sim, decisões firmes de líderes, mas não só deles. E mesmo, em casos específicos, sendo somente deles, o cálculo político não se garante por nenhum algoritmo da sabedoria iluminada. Se fosse assim, Lula, caso fosse antidemocrático ou antirrepublicano,talvez não tivesse nomeado quem nomeou para o Supremo Tribunal Federal e nem contribuído para o fortalecimento de órgãos policiais e de controle.

Afinal, instituições políticas são políticas porque nascem e são desenhadas como resultado de conflitos entre partes da sociedade. Instituições políticas não são meramente técnicas, sendo conduzidas por seres humanos, e não por máquinas programáveis. Políticas públicas implicam concertação com as demais forças presentes no Poder Legislativo e nas diversas arenas do contexto nacional e internacional. Nem tudo que se quer se consegue. E de quem menos se espera podem surgir coisas boas ou as piores.

Sempre lembro o exemplo de Getúlio Vargas em seus 15 anos iniciais e, após intervalo quinquenal, mais quatro anos de governo, obviamente, em outras condições políticas e econômicas. Quero dizer que Getúlio foi um,inicialmente, mas foi – não totalmente outro, diferente – mas outro a mais posteriormente. Outros exemplos poderiam ser trazidos para essa reflexão para confirmar ou não este argumento, como Franklin Roosevelt em diferentes momentos a partir do seu New Deal nos Estados Unidos.

O golpe de 1964 no Brasil, como se sabe, não permitiu o desenrolar das políticas públicas distributivas e redistributivas de um governo que vinha sendo pressionado tanto pela esquerda como pela direita. Não havia ameaça de um projeto comunista coisa alguma. Isso é quimera inventada pelos golpistas de ontem e de hoje. Ou seja, não basta a potencialidade demiúrgica de indivíduos, se é que isso possa existir, mas sim correlações de forças possíveis numa rede sempre costurada e rasgada de pontas soltas de afetos, imprevisibilidades e ações.

Mas, o incômodo mais nevrálgico na cabeça dos que se apegam ao moralismo demiúrgico é a miopia que só permite enxergar a cristalização de ideias e bandeiras sem a preocupação com a soma zero de uma decisão eleitoral. Em outras palavras, a histeria do voto branco ou nulo para supostamente marcar uma posição superior e acima da lama dos políticos em disputa. É a esperança num demiurgo puro e isento de passado e de potencialidade corruptível futura. Ou então, oportunismo leviano mesmo.

Assim fica difícil, não é? Esperar descer de alguma arena transcendente do improviso ou da beatitude celestial um líder nunca contaminado pelo passado e pelo pântano do presente. No entanto, palmilhar a vida concreta é ter que arrostar os políticos existentes, os que estão aí, nesse mundo – nesse mundo aí, que não é outro, a não ser o nosso Brasil concreto e cotidiano com toda a sua trajetória republicana de altos e baixos, percalços e contradições.

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