JONES MANOEL: A dimensão geopolítica da política

Um dos grandes desafios da teoria política marxista é descobrir a dimensão geopolítica da política.

Explico.

No pensamento econômico, a maioria dos militantes sabe que não é possível pensar a economia apenas a nível nacional. Sabemos, por exemplo, que para existir a socialdemocracia nórdica é necessário a miséria em massa da periferia.

A compreensão que desenvolvimento e subdesenvolvimento são pares dialéticos, organicamente ligados, do mesmo sistema de acumulação capitalista mundial, é uma conquista teórica que demorou décadas para ser formada (algo que remete aos estudos clássicos sobre imperialismo, CEPAL, teoria marxista da dependência etc.).

No âmbito da teoria política, porém, especialmente na hora de qualificar um regime político (se é democrático ou não), essa conquista teórica alcançada na economia ainda não chegou.

Dois exemplos básicos. Um atual e outro histórico.

Quando avaliamos o regime político do EUA, praticamente ninguém leva em conta seu papel no mundo, sua geopolítica. Quando Plínio de Arruda Sampaio, em 2010, disse que os Estados Unidos é uma “ditadura”, geral riu.

JONES MANOEL A dimensão geopolítica da política

Mas por qual motivo não podemos considerar uma ditadura, no sentido liberal-moderno da teoria política, um regime político responsável por mais de 60 golpes de Estado em 50 anos e pelo financiamento de tudo de mais atrasado e bárbaro que existe no mundo (como o Talibã e a “Escola das Américas”)? É ridículo chamar esse regime político de “ditadura policial-militar com cobertura constitucional-burguesa”? Creio que não.

Slavoj Žižek foi criticado por Domenico Losurdo devido a sua avaliação de Jean Jacques Dessalines. Para Žižek, Dessalines tornou-se um líder autoritário e esvaziou o conteúdo emancipatório da Revolução Haitiana.

O questionamento de Losurdo não é debater se o governo de Dessalines foi uma não democrático, mas lembrar que no começo do século XIX, os Estados Unidos promoviam uma contrarrevolução escravista na América do Norte (nas terras roubadas do México, onde a escravidão já tinha sido encerrada, ela era reintroduzida), enquanto o Haiti de Dessalines buscava combater a escravidão em nossa América (lembra do encontro de Dessalines com Bolívar e o compromisso do Libertador com o líder haitiano de acabar com a escravidão?).

Os EUA tinha um sistema constitucional-burguês, mas mantinha e exportava a escravidão. O Haiti era um regime imperial onde a escravidão tinha sido eliminada e lutava pelo fim da escravidão no mundo. Qual era mais “democrático”?

Quando a geopolítica entra em cena, tendencialmente, a resposta para a pergunta muda.

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